120 dias de cistite

baldeAlan me pergunta sobre o que pretendo escrever hoje, e grita lá de dentro com a energia de um balde de água fria:

— Ninguém quer saber das suas desventuras urinárias!

É. Ele está certo. Ultimamente, confesso, tenho escrito muito sobre os meus funcionamentos básicos, demais, até — seria um sinal? seria a idade? —, mas, cá entre nós, eu tinha um objetivo nobre, e sabe deus como temos precisado desse tipo de coisa, nobreza, digo. Retidão moral, vocês ainda se lembram.

Como já escrevi, eu tinha adquirido uma cistite chiquérrima em Paris, que, bem, para ser mais suave — um amigo me disse: “seja leve, precisamos de suavidade e esperança”, então vou tentar fazer a minha parte —, me deixou não só “na seca”, mas totalmente fora de combate por longo tempo, preocupada, indisposta. Deprimida, até, convencida de estar cortejando a morte e sofrendo de algo muito mais sério do que um simples ataque bacteriano, sabem a mente como se torna demente quando a gente mais precisa dela.

Foram quase quatro meses de luta, consultas médicas, três rodadas mortíferas de antibióticos cada vez mais fortes para dar conta daquela intrusão miserável e renitente, e não vou negar que cheguei a pensar que teria que abrir mão do batente, mas, enfim, semana passada fui declarada curada. Alívio. Estou me sentindo bem.

Tudo isso só pra justificar uns textos de depressão aí, e a minha impressão geral de que estamos vivendo um desespero viral que ninguém sabe bem aonde irá parar, é claro que o meu desespero pessoal teve algo a ver com isso, o que não quer dizer, nem de longe, que eu ache que está tudo bem com a gente, com a política, com o país que tem nos tratado como se fôssemos seus inimigos. Longe de mim, mas eu não ia ser “leve e suave”?

Bom. Enquanto eu estava chegando ao fim da minha fase tormentosa (e por outro lado, involuntariamente casta e virtuosa, embora para uma mulher (bem) casada as coisas não sejam bem assim), comecei a editar um livro cujo protagonista não apenas se chamava “Alan”, com um ele só, como também era descrito pela garota que o amava como tendo “mãos mágicas”, “mãos de cirurgião”, “profundamente conscientes… sim, querida, mãos de artista, de cirurgião… exploratórias, igualmente talentosas”, ops, aí com estas últimas aspas já enfiei texto adentro o meu próprio romance-verdade sem graus de separação, mas, tudo bem.

O caso é que entre um Alan e outro foi me dando uma nostalgia, fui me deixando envolver pela fantasia… tá bem, o livro é envolvente, e, surpreendentemente, bem superior à média do “segmento” que tanto sucesso tem feito ultimamente.

Andréa Lopes, a autora, tem um dom que embora pareça estar se tornando comum (todo mundo hoje em dia “acha” que escreve, sabem como é) está na verdade se tornando cada vez mais raro: ela dá conta de seu português, chego mesmo a dizer que tem domínio da língua escrita, e isso, vamos combinar, pode fazer a diferença na história que um livro pretende trilhar, pelo menos para mim. E assim me motivou a prosseguir, e a refletir, entre o desejo e a saudade: meninas, eu realmente vivi.

A fantasia, em si, nada tem de ruim. Pelo contrário, é o que nos motiva, muitas vezes, a consumir cultura, arte, literatura, algo que nos permita escapar ao nosso cotidiano e às limitações que nos seguram. Um sonho por si nada tem de ruim, nem mesmo a exaltação da sensualidade em si, ainda me lembro, não faz tanto tempo assim, dei minha própria e poética contribuição ao efeito que um texto gozoso pode causar numa pessoa, quanto melhor o texto, melhor, porque, francamente, estamos correndo um sério risco de condenar a um passado remoto pérolas da literatura, sentimentos de alto grau de erotismo, tudo que algum dia enriqueceu a nossa raça sempre em vias de provocar de dentro de si um sério ato de autodestruição, ui, cadê a leveza? A esperança?

O verdadeiro erotismo nos torna adultos, humanos, e por isso pode e deve ser consumido com gosto, embora o prefira sem tantos dos elementos que hoje em dia o tornam banal, corriqueiro e comercial, um crime contra a nossa própria exótica natureza sexual.

Mas não tão sério, é claro, quanto o atentado à nossa saúde mental representado pelo excesso de pornografia virtual, que, pasmem, está nos espreitando até mesmo de aparentemente inocentes murais no Facebook. Que mundo. Que gente. Que estraga-prazeres que arrebentam tudo, e me digam, para quê? Ganhariam dinheiro com isso de um jeito que não posso imaginar, ou é só vilania mesmo?

Cansada, encerro o expediente, largo de lado o livro da Andréa e vou dormir, sonhar, talvez, e sonho mesmo. Estou no cinema, e duas fileiras de poltronas atrás da minha escuto a voz de minha tia octogenária, que hoje já nem sai de casa, mas que, como eu, teve seu passado de ardorosa cinéfila e consumidora de cultura: “O mundo está entrando numa fase muito difícil”. Olho para o lado e o Alan desapareceu. O cinema está vazio, a não ser por minha tia e por mim. Volto-me para trás e minha tia está roncando, o queixo descaído e a boca entreaberta num esforço involuntário para ingerir algum ar. Estou sozinha, não há ninguém em que possa me apoiar.

Tudo bem. Misturei as emoções do dia, pena, o texto sensual e também amoroso da Andréa impropriamente amalgamado à ameaça de pornografia que tanto me desgostara no Facebook, com relação à qual eu ainda hesitava, não sabia se denunciaria — francamente, são tantos os estímulos, tantos os impulsos e também as possibilidades de ação e reação que, hoje em dia, há um compasso moral que frequentemente nos aponta um norte equivocado, sei lá, deve ser porque a todo momento há uma reversão inesperada das polaridades mentais, e a gente é levada a pensar que o que é horrível não tem nada demais, algo que não ocorria, por exemplo, quando Pasolini existia. E a gente o assistia, bons tempos inocentes, quem diria.

Ok. Basta de sentimentos negativos. Estamos precisando não só de um bom banho (e nem precisa ser frio), mas também de ter “a alma lavada”, como diz a Andréa em seu livro, A cor dos olhos teus, que tem me proporcionado uns bons dias de alívio das nossas aflições rotineiras. Ainda está cedo para uma eventual recomendação. Só sai depois da Copa, e seja o que for que eu escrever até lá já terá se apagado, misturado às intensas emoções — positivas, espero, aquelas de que nosso país anda esquecido, e no que depender de mim, torço pra que estejam liberadas. Depois de passada a revoada, ou a temporada de inviáveis patriotadas, voltaremos a ele. Por enquanto, deixo a minha impressão de que seja do que for que a gente estiver falando, se houver amor, se houver verdade, se houver talento e honestidade, tudo terá valido a pena.

Tchau procês. E um bom domingo.

 

 

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