2014: o ano que pra mim já terminou

10-mini-calendarios-2015-calendarioCalma, gente. Não estou dizendo que vou fugir nem sumir nem deixar de lado os meus compromissos prementes, vocês sabem de sobra que posso me atrasar, mas nunca fujo às minhas autoimpostas obrigações. Por outro lado, vamos combinar, foi um ano (…) como poucos, dá para preencher no vazio à esquerda: intenso/ radical/ contraditório/ enervante/ emocionante/ decepcionante/ cheio de expectativas/ acachapante. Pelo menos para mim, deflagrou também uma revolução pessoal que nunca antes me dispus a enfrentar, em outras palavras, de certa forma fugi, mas continuo sempre por aqui. Como, aliás, mais da metade do povo brasileiro, claro, que não sendo tão elitizado politicamente não pôde como eu deixar  o Brasil meio de lado, num passo pessoal, largo e longamente planejado, para além de cotidianas desventuras eleitorais.

E cá estou, a bordo do meu antigo Mercedes dourado. Dou por findo este ano desgraçado porque não tenho mais energia para mantê-lo firme em seu calendário. Dar-me-ei um descanso das tensões diárias, das lutas sem trégua e das defesas constantemente ameaçadas. Vou me reduzir ao trabalho acordado, deixando dormir a lutadora incansável. Pois bem, esta cansou-se de uma vez.

Se, por um lado, perdi amigos, por outro uma vasta comunidade tem me sustentado, vamos por este preferencialmente. Tem sido muito bom esse sentimento de fazer parte, mesmo que seja visto de algumas partes como a parte do perdedor, afinal de contas, não se pode ter tudo ao mesmo tempo, não é mesmo?

Como então estou encerrando, vamos a um rápido balanço como é de praxe. Também por aqui encerramos a primeira fase, o estabelecimento de uma base. O que se segue será um longo processo de construção, tanto de uma nova casa como de uma nova Noga, erigida inevitavelmente sob as bases da Noga antiga, um amálgama bem concretado misturando dores, lembranças, sonhos, alguma covardia e outro tanto de ousadia, duas faces opostas da mesma melodia.

Só sendo poética para transformar em testemunho um conflito ainda tão fresco que nem  a memória adentrou, os que são da ironia que me perdoem. Para mim, foi bem mais que o conflito partidário que a todos envolveu, machucou e dividiu. Não foi surpresa a força da situação, apenas fonte de uma tristeza que inunda, uma incompreensão profunda. Isso, porque fatos comprovados independem de opinião, e para tudo, como se sabe, há um traçado limite. Mas parece que não no Brasil, onde vilezas confessadas  sob juramento à polícia têm sido tomadas como obstáculos passageiros, transponíveis, eleitoreiros.

Quisera poder livrar-me desta incômoda sensação de que algo me foi tirado, e tirado continua sendo. No meu caso, embora tenha realmente (me) mudado, foi extraído de dentro de mim — temporariamente, espero — o direito de trazer comigo a nostalgia de uma pátria amada, o idílio de uma infância dourada, um passado pacientemente edulcorado, aquele tipo de memória manipulada que a gente sabe ter sido esculpida cuidadosamente pelo possível caminhar da vida, tudo para que pudéssemos apenas sobreviver.

Não.

Trouxe comigo embalada a memória dos fracassos, das decepções, dos muros que não transpus porque não foi possível ignorá-los com pensamento positivo. Já os sucessos, credito-os mais a mim mesma e à minha resiliência, à minha relutância em aceitar, à minha tendência a encontrar soluções fora do repertório em qualquer momento à minha disposição, devendo muitas vezes contar até mesmo com ferramentas de outros lares, como este em que estou vivendo agora e que antes de me acolher como cidadã me acolheu como profissional inconformada em busca de caminhos viáveis, soluções possíveis e adaptáveis como as que hoje ofereço ao meu portfolio de amigos e escritores. Obrigada, eu. Ainda pretendo melhorar.

Tive sorte, claro. Se é que se chama sorte uma jornada persistente em direção ao que se quer. Tive o apoio sofrido e jamais dividido do homem com quem compartilho muito mais que um leito, e que sofreu por mim durante longos dez anos sem que eu mal percebesse, mesmo acreditando que percebia. Só entendo agora, quando o trouxemos de volta ao lugar que lhe deu origem, eu e as partes egocêntricas de mim que se fizeram de cegas, surdas e teimosas para conseguir resultar em alguma coisa sem certeza nenhuma de como fazê-lo.

Alan está mudado. Melhor dizendo, recolocado. Acho que havia se esquecido de como deveria ser bom sentir-se relaxado, a par das regras e do jogo como sabe ver jogado. Os dados se inverteram e eu é que estou num posto frágil, delicado. Mas vê-lo assim, solto, renascido, recondicionado, não tem preço para mim. É um valor agregado.

Outras memórias deste ano conflitado deixarei de lado, pois estão devidamente catalogadas, cada qual a seu tempo exato, em outras crônicas já publicadas. Não é necessário relembrar.

Não sei se como os meus amigos dos quais me orgulho, cheios da energia do Brasil, animados em sua parceria e luta, das quais compartilho sem nenhuma hesitação, terei o impulso para seguir batalhando. Veremos. Afinal de contas, terei minhas próprias batalhas para travar num campo diferente que ainda mal e parcamente vislumbro, meus próprios desafios para superar que não serão como os desafios que vocês terão de enfrentar, e não há mérito nisso, cá ou lá, é apenas a realidade que se apresenta.

Não deixarei de me dividir, de me expor, de me entregar à pratica rotineira do melhor que puder oferecer, e cada passo que eu trilhar será trilhado junto àqueles que precisam de mim para escrever ou pelo menos para isso desejam minha assessoria. Para estes, continuo tão disponível quanto antes, mais, com a sensação otimista de que desbravarei recursos nunca antes imaginados, simplesmente porque nunca foram buscados por mero desconhecimento de sua existência. E sempre para a frente caminharemos.

Por falta de quem o faça desejo a mim mesma um bom descanso, não do trabalho, que este é meu maior prazer por enquanto, mas das limitações, do desespero das frustrações, das tensões advindas de cotidianas sensações de querer mas não ter.

Agora sim, farei o que posso, já que antes fazia sem poder. Darei a vocês mais que o coração, darei o gosto da jornada cumprida, percorrida por atalhos nunca dantes desbravados. Vai ser muito bom, porque a gente fez por merecer. E a todos vocês levarei comigo, podem confiar.

Um belo domingo procês!

 

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