73, Rue Galande

Do satélite do Google dá até pra sentir là-bas o cheiro invasivo da boulangerie: emoção, é o nosso apê à Paris, ui, rimou. Mas só em français, claro. Não leu com o sotaque correto, não viu. Azar de quem não pegou.

Fala sério. Eu já estava planejando a crônica com a minha crônica verve de sempre e suas reclamações irônicas, a ida inútil ao serviço de passaporte no aeroporto, a demanda imbecil por todos os registros de minhas vidas passadas de consorte — forçando a lembrança de amores terminados que pra mim foram quase a morte —, mais meu trauma ancestral ou, pelo menos, nacional, com a negação inclemente de documento legal, até de passaporte amarelo já fui ameaçada em outros tempos pela nossa Polícia Federal, mas…

Alan me vem com essa lista de apartamentos e meu peito aos pulos entra em estado de quase suspensão. Do ladinho lá de casa, imaginem, fica a Shakespeare & Company, não a original de Sylvia Beach, claro que não, mas sabem como é: vão-se os donos do lugar, mas fica a energia pra quem quiser se inspirar. Quero tanto estar lá que me dói o coração de tanto desejar.

Se minha Paris de outrora, há mais de vinte anos, era só Torre Eiffel, Arco do Triunfo, Printemps e Champs Elisées — um “Campos Elíseos” bem mais cheiroso, só pra variar a perpétua intenção de gozo —, a do mês que vem será a de Hemingway, a de Vila-Matas, a de Stein e James Joyce — grande J. J. que mudou minha vida pra valer, isso é, para sempre o meu prazer de ler, pois é, todos autores estrangeiros como dá pra ver — refugiados para melhor criar e viver na “Meca das musas”, isso, sem nem mencionar a prata da casa. Quem é de casa não vê graça no tanto de tesão literário que é necessário só para (d)escrever, disso todo mundo já sabe.

Algumas coisas, por outro lado, são para sempre, perene qualidade das coisas raras deste mundo, como o Louvre e o Centro Pompidou, por exemplo, ou o Musée D’Orsay, que pra mim, na minha primeira juventude, já foi o Jeu de Paume: muda-se a fruta, mas o Impressionismo continua o mesmo, hahaha.

(Explico. Minha condição de fazer trocadilho em francês é a mesma de um turista americano querendo hambúrguer no restaurante japonês: pensei na “orangerie” e no “jeu de pomme”, mas ah, melhor deixar pra lá.)

O que não dá pra discutir é que entra moda e sai moda — de destinos turísticos, pelo menos — e a origem do gozo continua na França, e não é só de champanha e fragrâncias que estou falando, não, meus queridos. Gozar é humano, tudo bem, mas o vero conceito de orgasmo foi magnificamente definido pelos franceses: la petite morte.

Tudo isso é pra confessar a vocês que embora eu tenha sonhado ultimamente com Paris, acho que tudo isso, ui, repeti, veio do Alan, e não de mim. Antes de conhecê-lo, e ao “verdadeiro” amor — não custa repetir que foi com ele, e com mais de cinquenta anos de idade, que realmente gozei pela primeira vez (intervalo para mais íntimas confissões: Alan entra na sala e me pergunta sobre o que estou escrevendo, eu digo “sexo”, e ele, rindo, “ah, me lembro bem do que era isso…”) —, eu era muito mais para Londres do que para Paris, mas hoje em dia entendo bem que os melhores perfumes estão nos mais velhos frascos, ops, desculpem. Eu quis dizer “vinho”, e “barril”, mas foi assim que saiu.

Enfim, para os amantes não há como Paris, os amantes de tudo, digo, de tudo que é bom neste mundo. E não estou falando de turismo em si, mas de um je ne sais quoi que fascina a alma mais empedernida.

Alan e eu, como vocês sabem, já estivemos em Paris outras vezes. Mas juntos, só mesmo em livro. Explico de novo: enquanto nos amávamos pela internet tivemos a fantasia de juntos viajarmos como amantes a Paris, mas nunca ao vivo, até hoje. A única forma de eternizar alguma coisa é escrever sobre ela, pouco importa se a vivemos ou não, pelo menos nos nossos tempos de emoção virtual, se é que vocês me entendem.

Dito de outra forma, a literatura, pelo menos a minha, tem bem mais do que uma qualidade intrínseca de confissão: é profética, criadora mesmo, eu diria, involuntariamente, tipo uma vida criada na arte para ser materializada em tempos mais recentes. No Hierosgamos, como vocês sabem — meu real romance seminal de tudo o que existe, do amor, do gozo, do trabalho, da casa e da literatura —, combinamos eu e Alan de construir uma casa de concreto e vidro em frente a uma montanha, e agora, pasmem, nos preparamos para o passo seguinte, confiram:

— morei em Paris, andei à beira do Sena fazendo o que os amantes fazem, abraçar e beijar apaixonadamente em público… pra ser sincero, mais olhando do que fazendo: não tive grande amor nenhum em Paris naquele verão, a não ser a cidade em si.

— nunca namorei em Paris, querido, quem sabe um dia… a gente se ame à beira do Sena.

Et voilà. É como ter escrito uma bíblia própria na qual passamos a acreditar, um roteiro do filme que gostaríamos não só de encenar, mas de viver, trem de doido, sô. Chega a arrepiar. Ou então, pela filosofia de vida que, inesperadamente — depois de ter encontrado o Alan para materializar meus ideais mais dementes do que o amor deveria significar —, passei a adotar para mim: pra conseguir algo, basta começar. Tudo começa na força do pensamento, como é fácil se perceber, ah, isso de fácil não tem nada, sei disso muito bem. É preciso também um je ne sais quoi que, francamente, tentar explicar sem um pingo de fé sobrenatural passa pelo crivo do que é além do normal, melhor esquecer.

Enfim. Eu não tinha neste bendito dia a intenção de resvalar em crônica para os empolgantes mistérios de uma nada vã filosofia, apenas de contar pra vocês que decidimos ir a Paris para o meu sexagésimo aniversário, afinal de contas, daqui para frente todo dia poderá ser “o dia”, de quê, vocês mesmos podem aí imaginar. É preciso mais do que nunca aproveitar o momento, sem hesitar, sabem como é.

E não iremos como turistas desta vez, mas como parisienses de coração e mente, para os quais tanto faz o frio, tanto faz o quente. Tanto faz. Só queremos estar lá. Juntos. Ao vivo e em cores. Enquanto a última profecia do Hierosgamos não se materializa, porque, fatalmente, no último dia, ela há de se realizar. Querendo ou não, nous sommes déjà en route. Podem apostar.

(Eu acho que, na verdade, isso nem está no Hierosgamos — alguma coisa sempre fica de fora, fazer o quê — mas enquanto eu viajava para encontrar o Alan na Flórida, há sete anos exatamente, me sentia tão feliz e enlevada que pouco me importava que o avião caísse, já me sentia absolutamente realizada. Mal sabia eu, não é mesmo? Toc, toc, toc.)

E um bom domingo procês.

 post publicado também no Crônicas da KBR

 

 

1 Response

  1. December 18, 2011

    […]  post publicado também no Noga Sklar […]

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