A dama de vermelho

HEMPSTEAD, NY - SEPTEMBER 26: Democratic presidential nominee Hillary Clinton smiles during the Presidential Debate at Hofstra University on September 26, 2016 in Hempstead, New York. The first of four debates for the 2016 Election, three Presidential and one Vice Presidential, is moderated by NBC's Lester Holt. (Photo by Drew Angerer/Getty Images)

(Foto Drew Angerer/ Getty Images)

Logo em seguida ao primeiro (mas não único) debate presidencial entre Donald Trump e Hillary Clinton, perguntei ao Alan, meu brilhante e autoritário marido americano:

— E aí, depois de todos esses documentários e debates na TV, você continua firme no seu apoio a Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos?

Alan ficou quieto por alguns minutos. Depois falou qualquer coisa, tentando escapar pela tangente:

— Bem. Hum. Eu nunca disse que o apoiava. Apenas disse que ele iria vencer. E ele vai.

Como tem sido a regra ultimamente, esta não é exatamente a “verdade verdadeira”. A verdadeira verdade — com certeza distorcida pela minha memória evanescente, ou pelo menos é nisso que meus inimigos preferem acreditar — é que o Alan escolheu Donald Trump como seu “candidato” (as aspas são devidas ao fato de que, embora seja cidadão americano, Alan nunca votou e garante que nunca pretende votar) desde o início, quando existiam 18 candidatos republicanos entre os quais poderia escolher, como fiz questão de lembrar a ele.

Já comigo foi diferente. Ainda bastante traumatizada por ter escolhido Barack Obama em 2008, desta vez decidi optar por alguém mais “conservador”, e comecei pelo “desenergizado” Jeb Bush. Mas logo ficou bastante claro que a candidatura de “Jeb” (que não é um nome, mas uma abreviatura) não iria decolar, e quando enfim me deparei com a dobradinha Trump x Cruz, não tive outra alternativa a não ser escolher… Donald Trump.

Tenho feito o que posso para manter meu voto desde então, mas, francamente, sempre mantendo a mente aberta e observando o tempo todo, analisando cada passo de Trump em sua acidentada trajetória em direção à Casa Branca. Quem sabe.

A princípio, acreditei firmemente que Trump e eu nada tínhamos em comum. Afinal de contas, sempre batalhei com a questão do dinheiro, e além disso fiz sempre a maior questão — coisa que não faz o menor sentido, reconheço, menos ainda agora que estou morando na América supercapitalista — de manter trabalho e dinheiro em compartimentos separados, nem de longe relacionados. Deve ser por conta de algum tipo de culpa cristã, sei lá, somado à total rejeição do mui popular e preconceituoso mito que afirma que “todos os judeus nascem financistas”.

Não demorei a deixar para trás essa primeira impressão. Descobri rapidinho que Donald e eu compartilhávamos não somente a generosa mania de oferecer às pessoas um nome que as descreva mais fielmente (chamado por alguns de “apelido”, ou até de “xingamento”), mas também o vício de enfiar alguns cacos em todas as falas, como, por exemplo, “acredite”, ou “podem acreditar”. No meu caso, nem precisarei mencionar a mal-humorada resposta de Hillary — “eu não acredito” —, pois sempre que escrevo “podem acreditar” numa crônica quero afirmar (ou aconselhar) exatamente o contrário.

Com tudo isso, mesmo depois do tal primeiro debate desta semana continuo trumpista. Deplorável. Podem acreditar.

Hillary tinha tido uma semana difícil, tossindo, caindo, e ainda enfrentando aquela maldita pneumonia. Pobre velha senhora… mal posso imaginar a dureza que ela vem sendo forçada a enfrentar durante essa impiedosa campanha presidencial… que, por outro lado, não passa de um teste simplificado. Por mais difíceis que sejam tais desafios, não passam de uma “amostra grátis”, não chegam nem perto daquilo com que os candidatos deverão se defrontar, caso não apenas atinjam seu objetivo de “agir como presidentes”, mas de realmente serem eleitos para o mais alto cargo do país e permanecerem como presidentes, entra dia, sai dia, pelos próximos quatro anos, que tremenda aporrinhação, nossa mãe.

Mas quando ela adentrou o palco na noite de segunda-feira, qualquer um poderia perceber que ali estava uma vencedora. O terninho vermelho, embora escondesse cuidadosamente braços e pernas — como tem sido o “estilo” da candidata há alguns anos, provavelmente devido a uma lamentável celulite tão aparente quanto a minha —, caía-lhe como uma luva, e Hillary estava radiante, desafiadora, esbanjando autoconfiança por todos os lados. O cabelo parecia macio, revigorado, iluminado por mechas brilhantes, reflexos “solares” recém-aplicados, em franco contraste com a aparência cansada e algo descuidada de alguns dias atrás. A maquiagem também estava perfeita, escondendo a idade sem exageros por detrás de uma máscara suave, criada com engenho e arte, à qual sempre que possível ela adicionava sua luminosa risada, mais aquele charmoso “dar de ombros” que se tornou num instante a marca registrada do evento. Uma verdadeira estrela.

Quem poderia derrotá-la? Certamente, não aquele Trump de sempre, com seu cabelo esquisito, velho milionário nojento, truculento e machista. Que, por sinal, revelou-se incapaz de ficar calado e assim evitar se vangloriar de sua desprezível “esperteza empresarial”. Totalmente inaceitável, vamos combinar.

“Francamente” (outro famoso “caco” frequentemente usado por Donald Trump), com tanto teatro e tantas técnicas avançadas da mídia especialmente criadas para fazer vocês pensarem exatamente aquilo que “eles” querem que vocês pensem, não me surpreende nem um pouco que uma (mínima) maioria dos americanos e a vasta maioria do resto do mundo já tenham escolhido Hillary sem pestanejar. E essa gente sabe o que diz, tenho absoluta certeza. São todos doutores em política americana, principalmente se levarmos em conta os perigos e complexidades do mundo atual, não é mesmo?

Já eu, por exemplo, 40 dias antes das eleições devo confessar que não faço ideia de qual opção seria a melhor, mas Hillary eu sei que não é. Especialmente depois que meu amado Obama provou, sem sombra de dúvida, que estava mesmo preocupado era com seu “legado” desde o primeiro dia, apesar de suas palavras bonitas, que poderiam ou não se transformar em fatos. E via de regra não se transformaram, como o tempo veio a demonstrar.

Como um obrigatório parêntese, já que também sou “do ramo”, eu não poderia deixar de apontar a suspeita semelhança entre o festejado logotipo da campanha de Hillary e aquele outro de uma conhecida agência governamental americana. Mais ainda, trata-se da derradeira tentativa de se materializar uma antiga profecia política: “Oito anos de Bill, oito anos de Hill”. Fim do parêntese.

Principalmente esta semana, dá uma tristeza danada se constatar a real postura dos políticos hoje em dia, mentirosos e desonestos em sua maioria, além de desdenhosos das verdadeiras necessidades e dificuldades do povo sob sua gestão. Isso, porque acaba de deixar este mundo um político às antigas, um típico exemplo de bondade e retidão (ou pelo menos é o que espero, ou gosto de acreditar), o último líder fundador do Estado de Israel, Shimon Peres, enterrado nesta sexta-feira. A história virou uma página.

Honestamente, não faço ideia da direção que este mundo está tomando, mas depois de tantos meandros e voltas do destino, e dos perturbadores resultados das bandeiras revolucionárias que a nossa empenhada geração fez questão de levantar (na versão em inglês fiz um trocadilho intraduzível, infelizmente, já que a geração nascida nos anos 1950 é chamada aqui de “baby boomers”, isto é, nascidos no boom de bebês do pós-guerra, aos quais chamei na crônica de “baby-bummers” ou “avacalhadores de bebês”, em tradução livre, e sei que vocês me entendem), é meio revigorante poder-se ao menos manter a ilusão de que alguém lá em cima pratica o bom senso “pé no chão” do nosso cotidiano mediano. E esta pessoa não é Hillary, mas Donald Trump. Para nem mencionar o fato de que espero, sinceramente, que ele se cerque de gente capaz e experiente, “pé no chão”, mas com muita informação, uma equipe competente que passe a defender e buscar um progresso atingível e alguns objetivos úteis e realistas.

Eu tinha planejado terminar minhas ruminações de hoje citando uma frase brilhante que escutei na TV no outro dia, comparando alguns gigantes da história americana, como Harry Truman, que reconstruiu uma Europa arrasada depois da Segunda Guerra, ou mesmo Ronald Reagan, conhecido por ter derrubado o mito do “bom comunista”, com Barack Obama, cujo verdadeiro legado a longo prazo deverá se limitar a ter concedido aos transgêneros o direito de usar o banheiro de sua preferência. Mas, infelizmente, não anotei na hora, e agora não consigo mais encontrar, um pecado imperdoável para qualquer cronista digno da profissão. E por este mau passo, aí sim, peço aos

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