A grande farsa da paz

brexitNuma terrível manhã de setembro no Rio, em 2001, eu estava assistindo à TV no vestiário da academia quando houve um vago alerta de que algum acidente havia ocorrido.

— O que aconteceu? Caiu um avião? — perguntou a Odete, muito preocupada. Seu marido estava nos EUA em viagem de negócios.

Entramos em pânico na mesma hora. Corri para casa, larguei as compras no chão da sala e disse à minha mãe:

— Tem algo acontecendo, liga a TV!

Ainda conseguimos ver ao vivo quando o segundo avião bateu.

— Ai, meu Deus. Ai, meu Deus — era tudo o que eu conseguia dizer, antes de cair no choro. O mundo como o conhecíamos tinha acabado.

Nas horas que se seguiram, o desastre nos afetou pessoalmente. O pecúlio da minha mãe, herdado do meu pai, estava em boa parte investido em ações do Bradesco, que simplesmente desabaram em questão de minutos. Nossos bens tinham desaparecido. Não sabíamos o que fazer. Não havia mais um claro futuro à frente, e não estou me referindo à economia. Estúpido.

Hoje, terrorismo e economia se juntaram novamente na mesma semana de notícia aterrorizantes, tudo bem, o terrorismo não estava em pauta até terça-feira. Só que estava, sim. A onda imigratória que trouxe consigo o medo de terrorismo e da competição por empregos e salários foi a verdadeira motivação por trás do Brexit, pelo menos é o que estão dizendo.

— O ataque terrorista na Turquia foi ontem ou anteontem? — perguntei para o Alan, enquanto começava a escrever a crônica.

Vocês hão de concordar comigo: tem sido um desafio para uma pessoa comum seguir as notícias atualmente, quando o mundo parece de repente ter virado de ponta-cabeça.

Fui a favor da saída da Inglaterra, devo confessar, nem sei bem por quê. Apenas senti que algo precisava mudar. E apesar do choque inicial da “vitória” — exatamente como outros “separatistas” nunca esperei que a opção vencesse —, agora posso ver a mim mesma e às minhas dúvidas sob um viés mais positivo, mais coerente.

No Brasil, eu já vinha presenciando um fenômeno interessante, uma espécie de cisão mental demonstrada por membros da nossa intelligentsia que, como esquerdistas tradicionais, não conseguiram suportar a corrupção e os descalabros que tomaram conta do país: apesar de terem ousado se opor ao governo hoje afastado por absoluta falta de opções, continuavam insistindo num programa esquerdista falido quando o assunto era a situação global.

Não era o que eu estava experimentando. Desde que me mudei para os Estados Unidos, acabei enrolada numa onda conservadora à qual não consegui resistir, correndo o risco de me afogar num mar de impossibilidades futuras. No que se refere ao meu próprio futuro e também, ouso afirmar, ao futuro da humanidade.

Mas como é que é?

Claro que nada sei sobre o futuro da humanidade! Que coisa mais absurda!

Meu marido Alan, admito, tem andado obcecado com o passado criminoso de Hillary Clinton, e tenho sido obrigada a conviver com isso.

— Alan, para de me mandar tantos artigos. Não tenho tempo de ler tudo, preciso trabalhar e já passa de meio-dia!

Por outro lado, já passei dessa fase de me submeter à pressão, já consigo tirar minhas próprias conclusões, pesquisar por minha própria conta e agir quase como uma adulta neste vasto e malvado mundo. Embora, é claro, não tenha me tornado uma “especialista”. Continuo sendo uma pessoa normal, mediana, que consegue perceber, “sentir o astral” e se identificar com os últimos acontecimentos — em geral, na base da percepção, não da informação.

Será o bastante? É claro que não.  Por outro lado, analistas e especialistas me parecem bem perdidos na atual situação, fala sério, apegados às suas próprias ilusões sobre (onde está) o (verdadeiro) poder. Acho engraçado que, num mundo onde reina a “diversidade” no que se refere ao gênero e às políticas imigratórias, a necessidade que as pessoas têm de preservar suas peculiaridades — coisas que as tornam originais, únicas, habitantes típicos de seus países também únicos — tem sido largamente ignorada. Sinto saudade daqueles velhos tempos em que, viajando de férias pela Europa, atravessávamos em poucos dias uma incrível variedade de culturas, uma diversidade impressionante que o suposto conceito de “um mundo unificado” está tentando diminuir, ou, pelo menos, controlar. Estamos ficando pasteurizados, padronizados. Que chatice.

Então me pergunto: por que dois pesos e duas medidas? Por que cargas d’água, neste mundo que valoriza tanto a liberdade, algumas pessoas têm maior liberdade de escolha que as demais? Menos poder de decidir sobre suas próprias vidas, sendo forçadas a engolir mais obrigações do que podem entender, ou digerir?

Parece que andamos criando o nosso próprio inferno. É coisa demais da conta para esta simples estrangeira (ui, preconceito), demais da conta até mesmo para uma escritora que pratica seu ofício à margem da “norma progressiva” — uma posição difícil de qualquer lado que se olhe, mais a eterna cobrança interna de “acertar” o tempo todo.

Enfim, não importa o que digam os especialistas, o mundo entrou num período de mudança, e o melhor a fazer é manter a calma, dar uma chance aos fatos, porque, vamos combinar, nossa ansiedade não vai facilitar nada. Pior ainda, num mundo onde todo mundo tem direito à própria opinião, esse “todo mundo” não deveria se limitar a uma percentagem do todo: os que conseguem fazer mais barulho. A “maioria silenciosa” vai acabar se manifestando, na verdade isso já está rolando, é isso mesmo, aquela gente horrorosa que estava sendo discriminada por conta de seu “racismo”, “isolacionismo”, “preservacionismo sexual”. Quem inventou tantos conceitos, afinal, e em seguida os transformou em regra geral?

Toda vez que os padrões de um pequeno grupo são impostos à maioria, pode-se esperar confusão. Precisamos proteger as minorias. Precisamos aceitar os refugiados. No entanto, os que essas categorias “móveis” estão buscando é justamente uma qualidade de vida privilegiada que vai acabar desaparecendo, caso o lugar e a cultura almejados não consigam integrá-los satisfatoriamente. No final das contas eles não vão conseguir o que estão querendo, e também por isso se deveria buscar a moderação. Por falar nisso, é o que espero como resultado final do Brexit: mais moderação e menos obrigação.

Devo confessar que, na verdade, o que chamou minha atenção nesse caso do plebiscito inglês foi um alerta que li no Twitter, escrito por uma mulher e denunciando um movimento para a implantação da Lei de Sharia na Europa. Foi o que me apavorou, pensem bem:  menos de 140 caracteres decisivos motivaram minha escolha de que lado “apoiar”.

Quanto ao pânico dos mercados, já começou a se acalmar, exatamente como ocorreu em 2001. Depois que a poeira baixou, seguiu-se um período de crescimento, e as ações da minha mãe não apenas se recuperaram, mas excederam seu valor original. Apesar disso, a ideia de que vivemos num mundo perigoso só tem feito crescer desde os ataques de 11 de setembro, e algo precisa ser feito quanto a isso.

Não acredito num mundo sem fronteiras. Não gosto da ideia de ser invadida em minha própria casa, e não acho que isso seja um crime: trata-se apenas de uma vontade, baseada no bom senso, simples assim. Não acredito numa Europa fortemente centralizada, num poder central superior ao nacional como condição para a paz e a prosperidade, simplesmente porque se trata de uma falsa premissa. Como se viu recentemente, tendo a opção de escolher pela preservação de seu espaço individual, as pessoas optarão por isso. Quando se fala de limites pessoais e bem-estar geral, o ditado “pense globalmente e aja localmente” deveria ser interpretado como “mantenha a sua integridade física ao se relacionar online com o mundo inteiro”. O mundo sem fronteiras deveria se limitar ao “inconsciente coletivo” materializado, simbolizado pela internet — uma troca de conhecimento e informações benéfica para todos e para o progresso geral —, mas sempre preservando um senso de privacidade real e bastante crucial.

Essa ideia de oferecer um plebiscito ao povo inglês foi analisada como um “passo em falso” do primeiro-ministro Cameron, tendo em vista que o resultado final acabou prejudicando suas ambições políticas. Apesar das manobras, dele e de seu partido, a história tinha outros planos, bastante surpreendentes. Na minha opinião, essa ideia de paz vinculada a um mundo sem fronteiras é na verdade uma “paz em falso”, ops, desculpem. A paz precisa vir de dentro. Numa perspectiva de longo prazo, jamais poderá ser imposta, muito menos se tal imposição vier de cabeças pensantes desvinculadas das realidades de cada um, ideias cheias de “boas intenções teóricas” que tenham pouco a ver com o cotidiano de gente simples e desprezada, que insiste em seguir vivendo suas vidinhas descomplicadas.

As pessoas não querem isso, e ponto final. Pode ser que a ideia de ouvi-las não seja tão má, afinal, Depois do choque inicial, “cuide da sua própria vida”, “pense no bem-estar da sua família” e “o desejo da maioria” talvez não sejam noções tão bobas e equivocadas como querem os “líderes do mundo moderno”. No final das contas, pode até ser melhor para todo mundo, quem sabe.

Parafraseando a Rainha Elizabeth, esta semana, em visita à Irlanda do Norte: Podemos até nos manter calados, mas “ainda estamos vivos”.

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