A história do meu dente

A linda, saudosa Pina Bausch em rara foto que mostra sua falha dentária.

A linda e saudosa PIna Bausch em rara foto que mostra sua falha dentária.

Quando acordei cedo na quinta-feira de manhã (cedo demais, era praticamente noite ainda) me dei conta de repente de que era o primeiro dia de outono, minha atual estação preferida (sem trocadilho). Daí me virei para o outro lado e fingi que iria dormir até mais tarde para variar, como se nada houvesse me esperando na longa lista de tarefas do dia.

Minha agenda por estes dias tem estado tão sobrecarregada que me sinto exausta antes mesmo de acordar, o que não se deve somente ao excesso de projetos sendo tocados simultaneamente, mas também à enorme quantidade de novas habilidades que tenho precisado adquirir para levá-los a cabo. Isso, para nem mencionar o fato de que até mesmo o meu cérebro está  se aproximando perigosamente de seus próprios “anos outonais”.

Ontem, por exemplo, tive que enfiar na minha cabeça em poucos minutos o até então desconhecido conceito de “índice de inclinação do telhado”, coisa da qual nunca tinha ouvido falar na faculdade de arquitetura, mesmo porque, antes de desembarcar por estas bandas, meu “estilo” favorito de casa não tinha telhado nenhum, um sério obstáculo que tive que ultrapassar para me transformar numa “sul-carolinense” de coração, no momento em processo de construção de sua casa sulista em estilo Craftsman [“artífice”, em tradução livre]. Finalmente!

Tudo bem. Vamos fingir que nem estou percebendo o elefante no meio da sala, isto é, o tão aguardado lançamento da versão em inglês do meu romance Sem graus de separação, que deverá ocorrer no dia 15 de novembro — “minha república” —, 12 anos exatos contados desde o dia em que comecei a escrevê-lo junto com o Alan na internet. Quem sabe num futuro próximo arrumo coragem suficiente para escrever sobre esse arriscado projeto que acabei de completar.

Apesar de tudo isso, isto é, de tantas conquistas importantes na acidentada estrada de imigrante que tenho percorrido aqui nos Estados Unidos — incluindo a publicação do livro e a construção da casa —, o importante tema da semana acabou sendo mesmo a lamentável perda de um dente, imaginem, e as obrigatórias mudanças por que passamos ao longo da nossa vida.

Francamente, o desaparecimento do tal dente, o molar n. 30, não deveria ter me causado nenhuma surpresa. Afinal de contas, nasci sem ele, e também sem seu gêmeo do lado esquerdo, o n. 19: uma perfeita simetria da ausência, apesar de eu de fato ter tido “K” e “T”, os dentes correspondentes na primeira dentição.

O Sr. K, acredito, foi o primeiro a se mandar, numa quente manhã de verão no Rio de Janeiro. Quando seu sucessor n. 19 falhou em comparecer, simplesmente o substituímos por uma ponte móvel e ficou por isso mesmo.

Aceitei o transtorno bastante bem, apesar de estar o tempo todo consciente da presença estranha dentro da minha boca, e também da exigência de colocar o humilhante dente falso sobre a mesinha de cabeceira toda noite antes de dormir. Mas a situação se tornou insustentável alguns anos mais tarde, quando, numa luminosa manhã de Carnaval, quando o dentista estava obviamente fora da cidade para o feriadão, comecei também a perder o Sr. T.

Eu andava perdendo coisas demais naquela época, incluindo o meu segundo marido, a quem eu era bem mais pegada do que gosto de admitir. De volta de Brasília trazendo nas costas um casamento fracassado, que havia começado tão bem poucos meses antes na internet, decidi que aquilo tudo já estava passando da conta, e para compensar eu precisaria tomar alguma drástica providência no sentido de evitar ter que lidar com duas pontes móveis ao mesmo tempo, ambas tendo que ser retiradas antes de dormir por todas as minhas noites no futuro.

Meu carro acabara de ser batido enquanto estava estacionado na rua de trás do prédio de mamãe e o lado do carona estava bastante destruído. Então resolvi vendê-lo por trinta dinheiros e investir a quantia num par de implantes dentários, uma técnica que naquela época estava em seus primórdios no Brasil.

As cirurgias (um dente de cada vez, separadas por duas semanas) foram assustadoras, para dizer o mínimo. Fui deitada numa cadeira de dentista num consultório inteiramente revestido de um tecido azul para fingir que se tratava de um ambiente esterilizado, sobre a qual me mantive de boca escancarada por várias horas seguidas, tendo que aturar a perturbadora conversa dos dois profissionais encarregados que poderiam ou não saber o que estavam fazendo, sabem como é. Quando eu estava medianamente recuperada da primeira cirurgia, tive que enfrentar a segunda, mais assustadora ainda, não apenas porque dessa vez eu sabia perfeitamente o que me aguardava, mas também porque o bendito cirurgião decidiu fazer dois implantes em vez de um do lado direito, somando ao necessário n. 30 um completamente dispensável e injustificável n. 32.

Meu corpo tampouco curtiu essa ideia. De volta em casa da segunda cirurgia, eu me sentia como se um caminhão tivesse me atropelado, e à noite minha condição se agravou: não consegui adormecer e estava me sentindo meio delirante, com uma febre altíssima. No meio da noite, imaginem, o rebelde implante n. 32 saltou para fora da minha mandíbula e aterrissou bem no meio da minha boca dolorida, de onde calmamente o tirei, coloquei na mesinha de cabeceira e finalmente dormi, dor e febre subitamente desaparecidas. Na manhã seguinte, enfiei o implante rejeitado num saquinho de plástico e caminhei pela orla até o consultório do dentista, sentindo um enorme alívio.

— O que a traz aqui hoje? — perguntou o incompetente.

— Isso! — respondi, colocando dramática e triunfalmente o implante rejeitado em cima da mesa.

Ele ainda tentou me convencer a enfrentar um terceiro pesadelo cirúrgico para reparar a cagada, mas eu me recusei enfaticamente. E também me negou o reembolso do montante pago adiantado pelo futuro dente a ser implantado, daí reagi com aquelas palavras que jamais deveriam sair da boca de uma senhora educada e saí batendo a porta, indo direto para o Bradesco, onde sustei imediatamente os cheques indevidos.

Francamente, até que dei muita sorte com esses dois implantes ao longo dos anos. Com a exceção de um pequeno conserto no n. 30 do qual não me lembro exatamente, feito obviamente por um outro dentista, vivi em paz e confortavelmente com meus dois falsos dentes por uns bons 20 anos. Até que…

Estávamos indo de carro para Atlanta onde eu deveria renovar meu passaporte no Consulado Brasileiro, quando de repente me vi com uma tremenda dor de dente. Esquisito, pensei. Este dente nem é na verdade um dente, como pode estar doendo? E decidi “encostar” a dor como costumo fazer, tentando me convencer de que se tratava de uma simples nevralgia associada à enxaqueca. Só que não. Quando finalmente criei coragem para investigar devidamente o incômodo, descobri que o dente implantado estava completamente bambo, e isso, na véspera de um feriadão, para variar.

Quando finalmente consegui uma hora no dentista depois de uns cinco dias (e olhem que ainda dei sorte de saber para quem ligar), descobri que meu dente não teria mais salvação: o implante tinha quebrado no meio, dentro do osso na minha mandíbula. Mas também pode ser que estivesse quebrado desde o início, vai saber… Pesquisei, e não demorei a entender que uma fratura desse tipo é uma ocorrência bastante rara, para nem mencionar que “extrair e substituir um implante dental fraturado é um procedimento cirúrgico complexo”. No meu caso, claro, como nada comigo é assim tão simples, o dentista americano me informou ainda que, por estar muito perto do nervo, qualquer cirurgia seria de alto risco.

De qualquer maneira, seria justo perguntar: qual o motivo de dedicar uma crônica inteira a um assunto tão entediante quanto essa tal “história do meu dente” desde que nasci?

Acontece que me surpreendi demais com a minha reação ao fato de ter perdido o implante: uma situação que há 20 anos seria impensável, insustentável, nesse momento sequer estava me incomodando. Depois do choque inicial, devo até mesmo admitir que estou bastante inclinada a aceitar a recomendação do dentista e estou pensando o que fazer a respeito:

— Pode parecer horroroso, mas o melhor para você neste caso seria não fazer nada, deixar o dente faltando como está agora.

É bem verdade que a percepção que temos de nós mesmos muda radicalmente à medida que o tempo passa, e o mesmo acontece como nossos valores mais caros. Então, neste momento, por mais que eu examine a minha boca com todo o cuidado e atenção que ela merece, mal consigo perceber a falta do dente, que com certeza passaria para sempre despercebida se eu não tivesse decidido escrever sobre isso, deixando de lado, é claro, a minha infatigável língua investigativa.

Por um lado, apesar do quase irresistível impulso de compartilhar tudo nas redes sociais, algo que na verdade deveríamos combater com unhas e dentes para preservar o pouco que nos resta de privacidade, quem liga para o que os outros dizem ou pensam sobre nós, não é mesmo? Até mesmo a poderosa Pina Bausch tinha um dente faltando, podem acreditar, no caso dela uma falha bem mais aparente. Por outro lado, o mundo parece firmemente resolvido a nos obrigar a pensar do jeito que ele quer que a gente pense, e está piorando. Fico mais pasma a cada dia que passa com o fato de que a “impositiva esquerda”, por exemplo, já não se contenta com o fato de estar regulando as nossas vidas, e segue nos empurrando seus teóricos delírios, insanamente concebidos em simpósios globalizados onde essa gente maluca alega estar se encontrando com o nobre objetivo de “salvar a humanidade”.

Cá entre nós, essas pretensiosas verdades têm se provado tão falsas e intrusivas quanto o meu implante fracassado, e levaram mais ou menos o mesmo tempo para enfim revelar seus concretos, prejudiciais resultados. Todas essas ideias de esquerda que estão por aí hoje em dia pareciam tão mais bacanas quanto a gente era jovem, disposta a apoiá-las e a reconhecê-las como justas e solidárias, plenas de promessas, e inflacionadas por suas bobagens modernas…

Pois neste momento, vamos combinar, do mesmo jeito que o meu falso dente perdido, está passando da hora de serem finalmente enterradas e esquecidas.

2 Responses

  1. Rogério says:

    Muito bom o texto!…

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