A impossível jornada dos mil cortes*

"Sunny Land", George Grosz, 1920 (detalhe)

“Sunny Land”, George Grosz, 1920 (detalhe)

Tudo leva tempo e o tempo leva tudo.

Pode alguém ficar deprimido em meio a um período de intensa felicidade?

A especialista no assunto Carmem Dametto, tenho certeza (vem aí seu livro sobre depressão), conseguiria explicar, encontrar algum sentido sem fundo, vindo do fundo do meu parto de fórceps que sempre consegue me derrubar, não importa a real situação sempre serei capaz de emburacar, fazer uma lágrima aflorar e a minha pele se revoltar.

Alan não suporta, mas esta também sou eu.

Esta semana, vamos combinar, bem que tive os meus motivos. Uma amiga, de Facebook e de uma vida antiga, houve por bem me criticar quando eu disse que não sabia por que ainda me aporrinhava com as dificuldades do Brasil, e, como todo mundo, não aguento ser criticada. Afinal de contas, estou no Facebook só para ser festejada, embora esta mesma amiga tenha me alertado para o fato de que essa minha “sinceridade inusitada” me deixa vulnerável à perda de amigos e a um ataque ou outro. Que seja.

E ela não sabia da missa a metade, nem um quarto, já que eu nada tinha compartilhado, e só para variar vou contar o milagre, mas o nome do santo não interessa a ninguém. Tratava-se da dor confessada — quem espera que no meu Facebook eu perca o meu tempo  só para contar vantagem e exibir fotos de fofos animais domésticos estará numa roubada, pois não pratico nem um, nem outro, não sou dada à ilusão, minha bandeira é a verdade, já já explico — de ter perdido um amigo intelectual por cujo ataque eu não esperava, nem foi a mim, mas à política de Israel colocada num contexto totalmente desnecessário, ofensivo e maniqueísta, ah, tá bom, lá vem qualquer um dizer que “hoje em dia, todos têm o direito de criticar Israel sem ser taxado de antissemita, tenho muitos amigos judeus que adoro” e blablablá.

Só que não. Embora apoiada pela diplomacia oficial — eu tinha até optado por não tocar nesse assunto, mas há candidatos pregando no horário eleitoral a total destruição do Estado de Israel, está na moda, nossa mãe, ao que chegamos, um político de um país democrático pedindo a destruição de outro em depoimento legal, com o claro objetivo de com isso angariar votos —, essa posição “em favor dos desfavorecidos” não somente ataca uma boa parcela de sua população, e não falo dos judeus, mas dos que minimamente se mantém informados sobre a situação internacional, dos que entendem que esse apoio aos desvalidos coloca o Brasil no saco dos que praticam, ui, a decapitação, a execução em praça pública de seus próprios cidadãos, dos que orgulhosamente convidam a mídia global a visitar sua rede viciosa de infiltração terrorista com a intenção explícita de sequestrar civis e cobrar um resgate de bilhões, tutti buona gente, mas também o bom senso de uma sociedade em evolução. Ou não?

Não admira. Num país onde se conspira, onde a nata da administração se mostra dominada por um bando de criminosos — até “delação premiada” já está sendo cogitada, algo que eu antes acreditava ser somente prerrogativa de réus confessos e prontos a entregar algum crime certamente cometido (em geral por outrem), certeza de que um crime há, caso contrário o que haveria para delatar?

Voltando à amiga (provavelmente, depois disso, ex), ela me acusa em público, e com isso me fere, de haver declarado que o Brasil é um lixo. Não declarei, mas depois que ela disse, pensar bem que eu pensei: o Brasil está um lixo. O que estamos sendo obrigados a engolir em termos de absurdos prolixos e crimes oficiais inafiançáveis, porém afiançados em público, não está no gibi. Está em todos os jornais do país.

“Não é por isso que estou feliz de estar indo embora”, eu reagi. Mas pensei: estou feliz de estar podendo ir, pois ninguém está suportando as impossibilidades que estamos tendo que digerir.

O Brasil é um belo país, tem um povo ótimo, mas, vamos combinar, para mim o Brasil nunca facilitou nada, desde o dia em que aqui cheguei com um ano e três meses de idade, brasileira de pai e mãe. Mamãe, aliás, de saudosa memória, sempre quis que eu me mandasse daqui. Mas eu neguei fogo, confesso, me ancorei, fiz de um tudo para me estabelecer naquele que eu quis que fosse o meu país. Papai não pôde contribuir muito. Morreu de acidente de carro, para quem não sabe, abalroado por um motorista bêbado na contramão da estrada, esmagado, e em meu primeiro conflito com a justiça perdemos a ação indenizatória porque, provavelmente, houve uma interferência corruptora, corrompida, redentora da grande empresa a que pertencia o caminhão. Outros descalabros nada legais se seguiriam, mas vou poupá-los dessa velha ladainha ressentida.

“Meu coração é brasileiro”, escrevi com o coração na mão no processo em que buscava a cidadania que me era facultada por lei, e que mesmo assim me custou muito sangue, lágrimas, dinheiro e uma ameaça de passaporte amarelo. Mas minha mente negava. Minha mente, que nunca foi brasileira, reclamava, sentia-se globalizada. Por isso fui inovadora sem me deixar parar por nada, e tudo que tentei criar até hoje neste país mais cedo ou mais tarde deu com os burros n’água, não sem antes eu ter sido desqualificada como alguém que quer algo impossível, que no final não vai dar certo mesmo. Carta marcada. A KBR, espero, escapará, vem escapando a tal cruel destino (mas sempre no fio da navalha), principalmente por ter sido concebida na era conectada, então tanto faz onde estou lotada. Devo ter aprendido alguma coisa.

Estou com raiva, irritada?

“‘Não queime suas pontes’, disse Napoleão”, e aquele amigo de Facebook me repetiu. Não estou queimando nada. Mas não esperem de mim algo com uma força menor do que uma confissão despejada, não estou aqui para agradar ninguém, nem para fazer o jogo da “apreciada”, digo o que tenho que dizer, escrevo o que tenho que escrever.

Não estou saindo fugida do Brasil, ainda bem, nem escorraçada pelo indizível antissemitismo nem pelo meu radical antipetismo, ainda não. Terei tempo de sair com tranquilidade, porque quero e do jeito que quero (pelo menos quanto a isso existe a certeza da democracia), e anunciando a gregos e troianos que o faço para estar perto dos meus filhos e no país de meu marido, que por uma feliz coincidência —, é, eu não creio em coincidências, pero que las hay, las hay — são os Estados Unidos, onde não espero me aposentar no paraíso. Não cultivo ilusões, lembram?

O mundo inteiro me parece perdido, mas planejo mesmo assim sugar mais um pouco, aproveitar o que puder tirar para fazer crescer as coisas que me movem, sem um constante atraso de vida para atrapalhar. Provavelmente, não vou conseguir.

Já estou muito velha para me dar bem em outro lugar, muito velha para “fazer américa” ou me deixar levar pelo pesadelo americano, não se preocupem. Estou muito velha para de repente vir a ser valorizada pelo que faço, para não sentir que estão sempre querendo me tirar um pedaço, sou histérica, neurótica, deprimida? Que seja.

Uma coisa boa de se estar perto do final de validade é um intenso sentimento de liberdade. Morrerei em breve. Não preciso mais agradar ninguém, nem ter medo de passar por ridícula, absurda, de enrolar os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, ser grotesca, mesquinha, submissa e arrogante. Tudo isso em breve estará distante. Voltarei a ser gota no mar de nadas a que o futuro nos destina, então para que esquentar a cabeça com algo que me amofina?

Sigo propagando a minha verdade. Nos últimos anos, digo, produzi de verdade, me descolei da massa ignara e ignóbil pela minha honestidade de pensamento. Quem foi trabalhado na minha cozinha sabe do que estou falando, terá percebido que é diferente lidar com quem sabe o que diz, o que faz, recebe um pagamento justo e cumpre o que promete, não mente e nem faz crescer o nariz que já é grande, só para variar.

Tenho a consciência tranquila, mas em certos momentos ainda sinto muito raiva mesmo. É o velho fórceps se fazendo ouvir, oy vey iz mir.

Pronto. Desabafei.

E um bom domingo procês.

 

* Segundo o Alan, “a jornada dos mil cortes” é uma conhecida tortura chinesa que vai cortando a vítima aos pouquinhos, até matar.

 

 

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