A manipulação da mente americana

YMCA_Zoe_3x2De repente, não mais que de repente, os Estados Unidos estão testemunhando um inesperado ressurgimento do movimento feminista. Uma amiga minha, imaginem, hoje beirando os quarenta, casada, mãe de dois filhos, se descobriu uma feminista ferrenha, dedicada e ativa defensora das causas femininas, e ela não está sozinha nisso. Mesmo as mais conservadoras entre as comentadoras de TV (e os comentadores também, por falar nisso) foram unânimes em reconhecer o significado histórico de “romper o telhado de vidro” como fez Hillary Clinton na semana passada, como a primeira mulher a ser nomeada candidata oficial à presidência do país por um dos grandes partidos.

Meu olhar de estrangeira viu tudo isso com um honesto espanto. O que seria aquilo? Todas aquelas “meninas” celebrando em uníssono o seu triunfo?

A verdadeira revolução feminista, se bem me lembro, estava em curso quando eu era adolescente, nos anos 1960. Para refrescar a memória, fui pesquisar no Google os nossos ícones mais queridos: Gloria Steinem, Betty Friedan, Angela Davis com sua impressionante cabeleira afro. Fizemos história, meus amigos. Naquela época, minha amiga hoje quase quarentona era da idade desse bebê de 8 meses a que chamam “Zoe” (segundo Alan informa, “vida”, em grego), e que apareceu num anúncio semana passada na Convenção Democrata como “candidata a presidente”, personificando o futuro da América. Assim seja.

Nossas principais reivindicações, além dos obrigatórios direitos humanos e igualdade de condições, eram a simplicidade feminina, a autenticidade, incluindo a famosa “queima de sutiãs”. O cabelo afro era essencial, crespo ou cacheado na versão branca. Ainda curto muito o meu, meu cabelo crespo, digo. Mas hoje em dia, como todo mundo sabe, o feminismo inclui o ressurgimento dos saltos altíssimos e finíssimos, de produtos químicos agressivos para “domar a juba” e outros inumeráveis clichês da exploração comercial da figura feminina. Isso, para nem mencionar a óbvia tentativa de surrupiar os nossos direitos por parte das demais vinte e tantas variações de gênero existentes.

Vocês acham que estou sendo muito dura? Mas eu mal comecei, para dizer a verdade.

A Convenção Democrata na Filadélfia na semana passada beirou a perfeição, foi realmente empolgante. Todas as celebridades que vocês conseguirem nomear, ícones do presente e outros talvez sem tanta presença assim, estavam lá presentes, para reafirmar seu apoio à próxima mulher presidente, a nova heroína da política americana. Numa entrevista na CNN no dia seguinte, o DJ Jazzy Jeff explicou muito bem por que a música era tão importante num evento dedicado à política: “A música faz com que as pessoas se sintam bem, e essa sensação é feita para durar”. Ele nem precisou mencionar que tal sensação permanece na mente subliminarmente “misturada com a mensagem partidária”, mas, tudo bem. Acho triste uma sociedade que confia tanto no entendimento de celebridades envolvendo a vida real; fica tudo meio nivelado por baixo, meio caricatural, se é que vocês me entendem, para que as pessoas normais consigam “sacar” o que está havendo. A coisa toda é tão chegada a um filme que até apelaram para uma música-tema original, “Stronger Together” [“Juntos somos fortes”]. Sai fora desse cinema, América!

Cada detalhe nessa Convenção foi cuidadosamente planejado para responder e atacar determinados pontos no programa de Donald Trump, apelidado por Clinton de “Meia-noite na América”. Agora, cá entre nós, e se for realmente meia-noite, ou, pelo menos, três minutos para a meia-noite, como indica o relógio nuclear? Fico preocupada. Havia uma intenção clara de criar um forte contraste com a bem mais alarmista Convenção Republicana da semana anterior, apelando, primordialmente, para o otimismo e a esperança. Mas tal tarefa não seria nada fácil. Até mesmo o maravilhoso, charmoso Barack Obama, o mais marcante e impressionante orador e estadista dos tempos modernos, exibiu um sorriso forçado, forçando igualmente a impressão de estar à vontade. Pode ser que ele saiba de algo que a gente ignora, sei lá.

Ainda assim, o show precisava continuar. Pelo menos naquela convenção. Ó, Deus, era tudo de uma falsidade tão patente, incluindo a amorosa descrição feita por Bill Clinton de seu apaixonado relacionamento com Hillary. Todo mundo sabe que na verdade não é nada disso, então para que insistir, não é mesmo?

Mais para o final, Bill bem que tentou pegar na mão de Hillary, mas ela preferiu atravessar o palco de mãos dadas com seu novíssimo parceiro, Tim Kaine, que declarou, em espanhol, que ele e Hillary são “compañeros de alma”. Tá bem, ele fala espanhol e fez questão de demonstrar isso, mas fico cá matutando se ele sabia do que estava falando. Se soubesse, Bill estaria em seu pleno direito se por acaso decidisse se declarar ciumento. “Almas gêmeas”, como todo mundo sabe, se refere a um envolvimento romântico; a amantes, para ser exata, não a parceiros na política.

De qualquer maneira, o amor foi tão exagerado, tão super explorado nessa Convenção — num óbvio contraponto ao alegado ódio de Trump — que dava a impressão de que a própria ideia de amor agora pertence aos democratas. Vai ver que, daqui para frente, eles vão até tentar processar por abuso de direitos autorais qualquer pessoa que ousar empregar a palavra “amor” sem a devida licença.

Donald Trump ameaçou os chamados “latinos”; por consequência, Tim Kaine, o vice de Hillary, mostrou que falava espanhol (francamente, se fluência numa língua latina fosse pré-requisito para se candidatar, até eu poderia ser presidente dos Estados Unidos). Além disso, Obama vêm mantendo um número meio exagerado de encontros com Peña Nieto, presidente do México, não entendo bem por quê. Pode ser que ele esteja negociando por baixo do pano algum acordo mais drástico para penalizar os chefões do tráfico, enquanto em público advoga o contrário, vai saber.

Donald Trump ameaçou os muçulmanos e está planejando investigá-los com rigor para diminuir o risco de terrorismo; por consequência, houve maciça presença de muçulmanos na Convenção exibindo o seu apoio a Clinton, incluindo Michael Jor… ops, Kareem Abdul-Jabbar. Um dos momentos mais emocionantes foi a dolorosa exploração de um casal muçulmano que perdeu seu filho na Guerra do Iraque, um marine que sonhava ser advogado do exército (isso, preciso confessar, me atingiu pessoalmente: meu filho está neste momento se graduando na Escola de Oficiais do Marine Corps e pretende se tornar advogado do exército, Deus o proteja). O ponto alto do discurso do pobre coitado do pai desgraçado foi quando ele atacou Trump com sua arma secreta mais perigosa: um exemplar da Constituição dos Estados Unidos que ele tirou do bolso do paletó e brandiu como se fosse um revólver, apontado para a audiência. Só que, no dia seguinte, também na CNN, descobri que o coitado do filho dele realmente foi morto no Iraque, mas em 2004, quando não existia ISIS, nem a ameaça do terrorismo islâmico, e nem muito menos, por sinal, a ameaça de Donald Trump. Além disso, pelo sotaque dava para ver que o senhor no palco (e sua muda esposa) eram imigrantes da Índia, e muçulmanos da Índia, como todo mundo sabe, não tendem a ser perigosos. Para ser justa, só no domingo eu vim a descobrir que a família Khan é na verdade do Paquistão, mas isso não muda o fato de que pareciam perfeitamente pacíficos. A exploração, aliás, continua a mil: hoje mesmo a senhora Khan publicou no Washington Post um artigo de “sua autoria” (ops, desculpem a ironia) atacando… Donald Trump.

Pô. Peraí. Donald Trump não está demonizando todas as gerações de muçulmanos que jamais puseram os pés nos EUA a qualquer tempo, embora seja verdade que ele tenha em certo momento tentado responsabilizar o pai afegão de Omar Mateen pela matança de Orlando no mês passado. Donald Trump, vamos combinar, tem se mostrado bastante incapaz de manter sua língua parada dentro da boca.

O que nos leva ao próximo ponto, ai meu Deus. Na quarta-feira passada, o país inteiro se tornou refém de uma piada quando Trump declarou, quando comentou o escândalo de emails do Partido Democrata: “Rússia, se vocês estiverem me escutando, espero que sejam capazes de localizar os 30 mil e-mails de Hillary que se encontram desaparecidos. A imprensa e o FBI agradecem”. Por Deus, ele estava sendo irônico! Como poderia ser diferente? Como alguém bem lembrou na televisão, Trump estava “incentivando” os russos a invadir um servidor que já não existe para roubar e-mails que foram apagados há mais de três anos! As harpias todas se assanharam. Trump foi acusado de ser um traidor, um agente russo, e pior, um amigo de Putin. De repente, sem se saber bem como, estávamos de volta aos gloriosos tempos histéricos da guerra fria, e o país foi todo transformado numa versão ao vivo do “Casseta & Planeta”. Até eu fiquei morrendo de vergonha, mas parece que a maioria do povo aqui não percebeu do que estava sendo vítima. Ninguém se lembrou de mencionar a verdadeira ameaça, isto é, o conteúdo explosivo dos e-mails provando que a ex-líder do Partido Democrata, Deborah Wasserman Schultz (que foi forçada a renunciar na véspera da Convenção) manipulou informação para prejudicar Bernie Sanders.

As pessoas parecem incapazes de entender por que essas comparações entre Hillary e Trump no que se refere ao serviço público não fazem o menor sentido: Donald Trump nunca foi servidor público; até o ano passado, atuava exclusivamente no setor privado, sendo um típico empresário capitalista americano. O que talvez possa explicar por que as gravatas e roupas e sapatos de sua grife não são “Made in USA”: como a Apple e todas as demais grandes empresas americanas, ele simplesmente busca atualmente para seus produtos o fabricante mais eficiente, isto é, a China. Patriotismo, vamos combinar, nunca incluiu o lucro do capital. E para o bem da lógica eleitoral, melhor não ter reputação nenhuma no serviço público do que ter um histórico péssimo como o de Hillary, é ou não é?

Uma mulher com quem conversei semana passada na Walgreens criticou Trump porque ela “desconfia de qualquer pessoa que tenha a compulsão de escrever seu nome em tudo”. “Exatamente como Trump”, ela acrescentou, citando uma colega que escreve o próprio nome nos cadernos, etiquetas e recipientes de plástico na geladeira do escritório e a igualando a um homem de negócios que desenvolveu uma marca, a exemplo de Versace e Chanel. E por aí afora.

Um emocionado Joe Biden fez sua convincente contribuição ao lamentar que uma pessoa, qualquer pessoa, nascida e criada na América com os valores da compaixão, fosse capaz de sentir qualquer satisfação ao proferir as palavras “Você está demitido!” Mas, gente, pelo amor de Deus: Trump dizia isso (em inglês, “You’re fired!”) à guisa de bordão de um reality show na televisão! Não estava demitindo nenhum empregado de verdade, nem abusando dos direitos desta pessoa nem muito menos prejudicando uma família: o sujeito sendo “demitido” era um participante de um jogo, cujo objetivo era resistir o maior tempo possível sem ser demitido!

Não era a vida real, estão entendendo?

No último dia da Convenção Democrata, em resposta a um comentário “ofensivamente idiota” de Trump se referindo à ausência de bandeiras americanas no plenário, surgiram por lá milhares de cartazes com os dizeres “USA”, com a multidão gritando o slogan correspondente: “USA! USA!” Mas… isso não era prova do patriotismo dos democratas, muito pelo contrário. Só conseguiu provar que “apenas Trump” entende de verdade a alma do povo. Mesmo que a fervorosa patriotada que havia varrido a outra convenção na semana anterior tenha sido de fato herdada do Reaganismo.

A derradeira tentativa de destruir Trump na Filadélfia veio numa passagem do discurso  de Hillary na qual a candidata lamentou a infame afirmação de Trump no sentido de que “somente ele poderia dar um jeito”. Clinton reagiu triunfante: “Na América não resolvemos as coisas sozinhos, nós as resolvemos juntos!” Um eco exultante percorreu a plateia como se fora ensaiado com antecedência: “Todos juntos!” Vou tentar explicar o mais claramente possível o jogo perverso de palavras em inglês: Trump não quis dizer que “vai resolver tudo sozinho” [I will fix it alone], mas que “somente ele pode resolver” [I alone can fix it]. Além do que, @realDoanldTrump ele mesmo já tinha declarado em seu discurso de aceitação da candidatura: “Somos uma equipe”.

E já que decaímos ao nível do Twitter (por falar em Twitter, Hillary afirmou que não tem como um homem que pode ser pego numa armadilha de Twitter ser responsável pelos famosos códigos nucleares), não custa nada dar uma olhada nos números mais recentes: Donald Trump tem 10,5 milhões de seguidores na rede, enquanto Hillary tem apenas 7,89 milhões. Quer dizer, se o Twitter valesse alguma coisa, Trump teria atropelado Hillary por quase 3 milhões. Falou a voz do povo.

Vamos combinar: toda essa manipulação mental não deveria ser surpresa para ninguém. Afinal de contas, alguém declarou em algum momento que “se quisermos a sua opinião, nós a daremos a você”. E também não estou sozinha na minha percepção: um interessante artigo publicado na semana passada listou uma por uma as técnicas psicológicas empregadas nas convenções — dos dois lados, por sinal, apesar de o investimento em dinheiro ter sido muito mais óbvio e impressionante no evento democrata — com o simples objetivo de, literalmente, manipular as opiniões. Incluindo entre os macetes enumerados o fundo azul em frente ao qual discursaram as mais importantes personalidades.

Lamento muito, meus amigos, mas estou muito chocada com tudo isso. Tanto assim que me senti compelida a largar tudo o que estava fazendo, e até mesmo a deixar o meu “recesso para traduzir romance” só para vir aqui e compartilhar com vocês estas humildes considerações.

Prestem muita atenção, e digo isso principalmente para os americanos: são nossas vidas que estão em jogo, não a de “alguém que não sabemos bem quem”. Essas eleições, aliás, afetam a vida das pessoas no mundo inteiro, por conta da importância (para muitos lamentável) dos Estados Unidos. Entenderam?

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