A morte do computador americano

computer errorNos meus sete anos de editora no Brasil, criei uma espécie de “apego” a uma marca específica de computadores. As máquinas eram sólidas, confiáveis, e o suporte era de qualidade. Por 10% do preço total a gente tinha um atendimento “de elite”, válido por dois anos. Quando havia qualquer problema, o técnico autorizado vinha ao meu escritório em Petrópolis, no meio do mato. Além disso, apesar de naquela época não haver “acesso remoto”, o suporte por telefone era excelente, e o atendimento de primeira: clientes com um pouco de conhecimento de computadores como eu eram orientados com eficiência, e tudo se resolvia a contento.

Aí me mudei para os Estados Unidos, como todo mundo sabe. Quando precisei de um novo computador, achei que a melhor coisa seria continuar fiel à “minha” marca. Isso, para nem mencionar a alta resolução da tela, única no mercado, e muito importante para boa parte do meu trabalho diário, como criar capas de livro etc.

Resolvi me espalhar. Escolhi o modelo mais recente, com tudo a que tinha direito, afinal eu agora estava podendo. Mas foi um desastre completo. Quando o computador chegou, abri a caixa imediatamente, toda impaciente, empolgada como uma menina. Coloquei o adaptador na tomada, liguei… E percebi logo de cara que 1/4 da tela estava vacilante, meio trêmula, com umas listas coloridas agoniantes.

A placa de vídeo estava estragada.

Não teve jeito.

Tive que devolver a máquina.

Depois disso o modelo que eu queria, continuava querendo, ficou fora de estoque por um bom tempo. Esperei. Quando apareceu na loja, comprei de novo, e dessa vez parecia tudo certo. A tela era linda, a máquina parecia perfeita, oba. Comecei o download de todos os dados que mantenho na nuvem, o que levaria aí em torno de uns dez dias, e fui instalando todos os aplicativos para começar a trabalhar, até que… Deu tela azul, a famosa “tela azul da morte”, causada por algum conflito desconhecido. Por falar nisso, o Windows há pouco tempo substituiu essa tal tela azul e seu aviso alarmante por uma expressão mais simples, tipo “algo não deu certo e vamos reiniciar seu computador para você”, não lembro as palavras exatamente (principalmente porque agora o computador fala inglês), com uma daquelas simpáticas “carinhas tristes”. Bem melhor, vamos combinar.

Liguei para o suporte na mesma hora. O técnico, com a maior boa vontade, até que tentou consertar com acesso remoto, mas foi logo avisando que não ia dar certo. Ele ia me mandar pelo correio um pendrive com o Windows original, e se o computador travasse de novo, eu ia ter que restaurá-lo para a “imagem de fábrica”.

Não deu outra. Não deu pra escapar. Tive que reformatar.

Foram mais dez dias de trabalho “afinando” o computador, e aí percebi que os arquivos que eu precisava enviar para o impressor, coisa que eu faço quase todo dia, não estavam subindo de jeito nenhum. Nem um simples anexo no Gmail eu conseguia subir.

A conexão estava normal. Nos outros computadores da rede — como o meu mais antigo, já bem ruinzinho — tudo subia normalmente. Tentei excluir os possíveis problemas, como o firewall ou algo assim, e acabei ligando de novo para o suporte.

Alguém já tinha me alertado que esses computadores “made in China” estão cada vez piores, talvez por causa da decadência das fábricas na China, sei lá. Aqui em casa a gente dizia que todos os computadores chineses vinham com um “chip espião” embutido, era preciso cuidado com isso. Mas era tudo piada. O Windows defeituoso pela segunda vez era coincidência, falta de sorte, só isso.

Só que não. Havia centenas de reclamações online, mas achei melhor fingir que não via.

De volta à sessão remota. Sendo também estrangeira, cortei um dobrado para entender pelo telefone o forte sotaque indiano do atendente. Resolvemos teclando em vez de falar, e aí o técnico avisou que ia baixar, no meu computador e com a minha permissão, um desses softwares antimalware “gratuitos” que apontam mil problemas na sua máquina, mas não resolvem nenhum. Tudo pra nos convencer a comprar uma versão premium, que, essa sim, “vai nos proteger com eficiência”.

— Você vai mesmo instalar esse software comercial aí? — perguntei. — Tem certeza de que a sua empresa recomenda mesmo esse software?” — enfatizei, realmente preocupada.

— Tenho sim. Usamos esse software o tempo todo, não se preocupe. Vamos consertar o seu computador.

Bingo. Meu computador novinho em folha tinha 1.000 “ameaças”. Eu estava perdida.

Só que não. Esse tipo de alerta geralmente é falso, não afeta em nada o computador. Pelo menos de acordo com a minha (longa) experiência no assunto.

Em seguida o técnico tentou me convencer de que eu deveria comprar o suporte “premium” da companhia, que iria me custar 30% do preço pago pelo computador. Por ano. Não me interessei.

Não lembro exatamente como as coisas aconteceram, mas acabei falando no telefone com o supervisor do sujeito. No meu inglês estropiado, reclamei do técnico e dos programas que ele tinha instalado. O supervisor se desculpou, parecendo consternado de verdade, e fui transportada de repente pra dentro de um daqueles filmes indianos que mostram a dura rotina nesses terríveis call centers, onde os tais supervisores mais parecem feitores de escravos. Numa versão mais moderna, obviamente.

Fiquei com a maior pena do técnico, devo confessar. Mas, cá entre nós, eu não podia fazer nada. Tinha meus próprios problemas para resolver.

Para encurtar a história, esta semana tive mais uma sessão remota com o call cen… ops, com o suporte indiano. Dessa vez o técnico passou mais de duas horas no meu computador, e de graça. Agora era uma “questão de honra”. Ele iria consertar minha máquina de qualquer maneira, custasse o que custasse.

Só que não. O sujeito instalou a tal ferramenta “especial”, à qual, imagino, só tem acesso quem tem o tal “suporte premium” caríssimo. O técnico em questão fez um monte de testes, mudou várias configurações, limpou o registro do computador e o escambau. De nada adiantou.

No dia seguinte acordei tão irritada que fui direto pesquisar no Google, onde, como todo mundo sabe, os generosos gênios de computador compartilham seus conhecimentos completamente de graça. E encontrei finalmente uma sugestão para conferir a data do meu driver de wireless.

Verifiquei a versão. Estava ultrapassada. Em menos de um minuto, direto pelo Windows, baixei o driver mais recente, et voilà, meu problema foi resolvido ali, na hora.

Fiquei pensando que tipo de empresa confiaria seu atendimento ao cliente a uma equipe tão incompetente, e por que motivo faria isso.  Para economizar uns trocados? Para eliminar alguns empregos americanos? Ou cometer suicídio empresarial?

Tá bem. Melhor esclarecer de uma vez. Não escrevi esta crônica para criticar todos os centros de suporte indianos, só esse que me atendeu. O suporte da Adobe, por exemplo, é dez, e não é só isso: o atual CEO da empresa é um indiano-americano. Já o Calibre, meu software favorito de conversão digital, que além de tudo tem o atendimento ao cliente mais amigável do planeta, também foi criado por um indiano genial.

Quanto à China, bem, parece que a indústria chinesa não está indo tão bem das pernas, não é mesmo? Melhor deixar pra lá. Para o bem ou para o mal, o tempo vai dar um jeito nessa coisa toda.

Continuei pensando. Pode até ser que alguns desses candidatos radicais à presidência dos Estados Unidos tenham certa razão, no meio de tanta reclamação. Terceirizamos demais da conta, e agora o feitiço tecnológico está se voltando contra o seu feiticeiro, tá doido, sô.

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