A revolução da maioria, ops, deletando

GOP-2016-Trump-1— E aí, Alan, me diga, você acha que esses caras eram mesmo do bem?

Tínhamos acabado de assistir “Trumbo – Lista Negra”, o drama histórico sobre os escritores de Hollywood e o macartismo.

— Quem?

— Dalton Trumbo e sua turma.

Como todo mundo sabe — bem, talvez não — durante a guerra fria, na década de 1950, os melhores roteiristas hollywoodianos foram incluídos numa lista negra, acusados de serem comunistas.

E eram mesmo. Comunistas, digo.

Ser marxista naquela época era quase obrigatório para um artista, intelectual, uma pessoa com valores elevados e um aguçado senso de justiça. Era também crime de traição nos Estados Unidos, uma “ameaça” para a segurança nacional.

Durante esses “bons tempos”, o mundo era preto no branco, praticamente. Não havia espaço para dúvida ou debate: embora fossem perseguidos, acusados de envolvimento criminoso com uma ideologia proibida, era perfeitamente claro para todo mundo com um razoável QI e nível de erudição quem era o mocinho, relegando ao governo o papel de manter as pessoas afastadas do que havia de melhor na criação artística, uma espécie de “lei seca de ideias”. Para o “bem de todos”, para nossa própria “proteção”. Fascistas.

Hoje, na minha opinião, não temos tanta sorte. Para cada questão há uma miríade de interpretações, para cada ideia há mil memes propagados sem hesitação. Além disso, nos sentimos enganados com frequência (eu, pelo menos, me sinto), levados a acreditar que tudo é o oposto do que aparenta ser.

Considerem, por exemplo, os liberais, geralmente associados ao Partido Democrata americano e aos mais elevados ideais tradicionais, tais como liberdade, igualdade para todos, saúde, ajuda para os mais pobres etc. O discurso não mudou nada, desta vez mais deslocado para a esquerda — a esquerda radical representada por Bernie Sanders, cujas ideias, vamos combinar, teriam sido mais do que suficientes para justificar uma existência camuflada na década de 1950. Não é de admirar que, aos 74 anos de idade, com suas auspiciosas promessas de tudo grátis, incluindo universidades e planos de saúde, o candidato esteja contagiando os jovens, levados a embarcar numa onda de idealismo sem precedentes nos últimos anos. Tudo multiplicado por mil nas redes sociais, 24 horas por dia, sete dias por semana.

O mundo mudou, ou mudamos nós? Sim, a gente também era assim, e não faz tanto tempo assim. Gente do tempo de Bernie, digo, como Alan e eu. Bem, mais ou menos, já que sou na verdade 10 anos mais nova. Em todo caso, já vivemos um bocado, alguma coisa devemos ter aprendido, não é mesmo?

A questão é que o programa liberal, querendo garantir o mesmo tratamento para todos os cidadãos — não porque fizesse sentido, mas porque o contrário tornou-se proibido — trancou a chamada “maioria” no quarto dos fundos, colocando sob eterna vigilância a incensada “liberdade de expressão”. Em vez de eliminar a ideia do preconceito, preferiu banir as palavras que o descrevem — uma espécie de “lei seca do vocabulário”. Como, por exemplo, usando o estilo americano, a palavra “N”, a palavra “G”, a palavra “F” — que, por falar nisso, ninguém com uma educação razoável se atreveria a dizer em público há coisa de poucos anos. O resultado, na minha opinião, é que está todo mundo confuso, intoxicado com tanta informação, sem saber o que se pode ou não se pode dizer. Ou pensar. Ou fazer.

E agora? Quem são os fascistas? Hein?

Anda em falta, hoje em dia, uma certa noção de perspectiva histórica. Esta semana, por exemplo, o pobre coitado do John Kasich de Ohio foi massacrado, por ter dito numa entrevista que há muito tempo, em sua campanha para deputado estadual, “as mulheres tinham saído da cozinha para apoiá-lo”. Imaginem quem caiu na pele dele imediatamente? Hillary, é claro! A fã número um de qualquer causa que possa impulsionar sua campanha, não importa o que contém ou vindo de quem.

Mas, gente, Kasich se referia a 1978! Pô, dá um tempo. Bem que eu tentei descobrir que percentagem de mulheres trabalhava fora naquela época, mas não consegui. Eram donas de casa na maioria, e não tinham vergonha disso. Era assim e pronto.

Não me levem a mal. Do lado pessoal, tudo que eu sempre quis foi ter uma profissão, cair no mundo como todo mundo. Mesmo assim, fui criada para casar e ter filhos, nada mais. A ideia de trabalhar fora e cuidar da casa ao mesmo tempo, coisa normal hoje em dia, era desconhecida na época, e cresci enfrentando esse tipo de conflito.

Deve ser por isso que me sinto tão desligada das pessoas na faixa dos quarenta com as quais trabalho no momento, nascidas em meados da década de 1970, por exemplo, já depois da completa mudança de expectativas sociais ocorrida nas duas décadas anteriores, coisa que gente da minha idade encarou de frente durante toda a infância e adolescência. Mais ou menos como está rolando agora, para quem já nasceu no século 21.

Por outro lado, me sinto pressionada, sufocada pelo corretismo político de hoje em dia, pela necessidade de respeitar um tipo de diversidade que a gente desconhecia enquanto crescia num mundo que era, como eu já disse, preto no branco. Com apenas um tipo de telefone e apenas um aparelho em casa — com sorte, com um fio enrolado comprido o bastante para a gente levá-lo até o quarto e ter um pouco de privacidade, até que a mãe mandasse “desligar logo esse telefone” (telefone “fixo”, se é que vocês me entendem).

Imagino que haja um monte de gente como eu no meio da maioria silenciosa que empunha cartazes nos comícios do “fenômeno Trump”, com cabelo e tudo (o cabelo anda meio esquecido). Pode até ser que o candidato tenha alguma resposta, uma solução para a nossa ansiedade, para nossas indefinidas sensações, quando vemos o abismo crescente entre o que se diz e o que se faz, e o que se consegue fazer na vida real. Mas vou ter que confessar, fiquei bastante preocupada com o tom entusiasmado da multidão durante o discurso de Trump em Atlanta, com o estilo bombástico do candidato e sua impressionante habilidade para manipular o povão:

— Vamos ganhar! Vamos ganhar tanto que vocês vão me implorar, “por favor, Mr. Trump, pode parar, estamos cansados de ganhar!”

Então, eis-me aqui, ainda sem nenhum candidato, temendo e, ao mesmo tempo, torcendo escondido por Donald Trump — um pouquinho só, e me sentindo obrigada a me desculpar por isso. Estou pagando pra ver se sua franqueza e transparência, juntamente com o entusiasmo de seus seguidores, conseguem trazer uma mudança efetiva, a mudança em que apostamos em 2008 e que deixou a desejar. E não estou falando em mudança no estilo da Casa Branca, mas em nossas vidas diárias, altamente vigiadas e socialmente censuradas. O que, aliás, é exatamente o oposto de tudo que a gente sonhou na nossa revolução radical na década de 1960.

Mudança para melhor, espero. Melhor para todo mundo.

Ah, tudo bem. Pelo menos ainda não enlouqueci a ponto de afirmar que “a campanha de Trump vai acabar quando ele for assassinado”, como tuitou no outro dia um colunista do NY Times. Em seguida, o sujeito “caiu em si” e se desculpou, deletando seu comentário depois que já tinha se espalhado. Então tá. Tudo resolvido. Certo?

Vocês aí podem me perguntar por que não apoio o Bernie Sanders. Bem, sou velha o suficiente para saber o que está por trás desse tipo de sinceridade, com pouca ou nenhuma possibilidade de se tornar realidade: um tremendo vazio, acachapante, frustrante e frio. Não funcionou no passado, e duvido que funcione agora. Para nem mencionar que Bernie esconde de onde veio, não exatamente uma prova de bom caráter, é o que eu penso. Descendente de poloneses? Então tá. Vou fingir que acredito.

É evidente que esse tipo de reflexão só teria validade num mundo que não tivesse pirado completamente. Principalmente se levarmos em conta como é fácil hoje em dia dar o seu palpite, expressar uma opinião. E em seguida mudar, se arrepender e deletar. E pronto. Acabou-se.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *