A última fatura

faturaHá uns dois anos, quando Alan e eu começamos a “sonhar” — digo, planejar — nosso próximo passo no xadrez da vida, me deparei com uma forma milagrosa de garantir uma boa aposentadoria, algo que aqui nos “Estates” é definido como “hipoteca ao contrário”.

Aí, quando já estávamos do lado de cá, chegou finalmente a hora de começarmos a construção da necessária casa, sem a qual nenhuma hipoteca seria possível. E então decidi que também era a hora de fazer uma visita ao banco e explorar nossas opções.

Bem, preciso esclarecer que já não ando tão animada com a tal hipoteca ao contrário, e não é só por causa de dinheiro. O que ocorre é que o meu antigo, aparentemente inesgotável entusiasmo foi realimentado recentemente por nossa nova editora nos Estados Unidos, e também por algumas valiosas parcerias que devem nos permitir — me permitir — seguir em frente, espero que com algum sucesso, conexões estrangeiras e títulos traduzidos cada vez melhores. Cá entre nós, já estou me conformando com a ideia de que tão cedo essa tal aposentadoria não há de sair.

Com tudo isso, ainda havia assunto para uma ida ao banco, então nos vestimos de acordo e lá fomos nós, com o nosso projeto debaixo do braço:

— Não é que a gente precise de dinheiro agora, mas, bem, eu queria saber quais são as nossas chances.

— Não acho boa ideia vocês pedirem um empréstimo neste momento — disse o gerente. — Vai sair caro, e vocês nem estão precisando. Se em algum momento no futuro o dinheiro faltar, a gente vai dar um jeito de ajudar. Vamos avaliar a obra e arranjar um empréstimo que só cobre os juros durante 12 meses.

Para mim estava de bom tamanho. Fiquei tranquila. Claro que, se estivéssemos no Brasil… daqui a uns quatro ou cinco meses, quando supostamente precisaríamos de apoio, o gerente do banco provavelmente não estaria mais lá, graças à política local de “girar os gerentes” (pelo menos no Itaú), para evitar qualquer proximidade possível com os clientes. As taxas de juros teriam dobrado, ou triplicado, ou pior ainda: os empréstimos disponíveis teriam simplesmente desaparecido da carteira do banco.

Devo confessar que, para fins da minha própria sobrevivência, estou tentando cortar meus laços com o Brasil neste momento — não os emocionais, coisa que não acontecerá jamais, e nem quero que aconteça, mas os de negócios e os que envolvem dinheiro… e expectativas. Francamente, não dá mais para viver constantemente com uma ameaça dessas pairando sobre a cabeça, como ocorreu durante a maior parte da minha vida produtiva. Estou até disposta a abrir mão da minha significativa aposentadoria, que na melhor das hipóteses equivaleria a, hum, digamos, em torno de uns 200 dólares por mês. E ainda nem estou qualificada, teria que trabalhar e pagar por outros cinco anos, pelo menos. Nem pensar!

Agora, enquanto eu estava cá comigo entretendo tais pensamentos de rompimento, meu contador me escreveu dizendo que iria abrir mão da nossa conta, já que devido à (eterna) crise brasileira ele iria parar de atender a pequenas empresas como a nossa, preferindo se limitar a apenas um grande cliente. Em resumo, estava arrumando um emprego, o que sem dúvida era seu direito. Mas tampouco restava nenhuma dúvida de que essa decisão estava me deixando sem pai nem mãe. O que mais eu poderia fazer, a uma distância de 8 mil quilômetros e um monte de novas regras financeiras?

Eu já andava pensando em comunicar minha saída definitiva do país, não que eu tivesse alguma escolha. Depois de 12 meses no exterior, tal comunicação é obrigatória por lei, mas eu estava hesitando, já que isso resultaria em sérias mudanças no regime de tributação da empresa — ser “simples”, por exemplo, não é permitido para quem mora no exterior, para nem mencionar que a multa é uma mixaria. Portanto, o aviso do contador não me pegou desprevenida; pelo contrário, me levou a tocar em frente. Não faz meu gênero adiar as coisas, muito antes pelo contrário. Então, já no dia seguinte, fui ao site da Receita e comecei a preencher o formulário.

Não faço ideia de como isso acontece, mas como todo mundo sabe, nosso estado emocional tem tudo a ver com problemas no computador. Acabei acessando a página do ano errado, e precisei repetir o processo umas duas ou três vezes. Depois que terminei, acabei num quase inexplicável estado de depressão, de triste prostração, sem muita capacidade de reação.

Amigos, passei a semana deprimida. Mas mesmo assim tive que prosseguir, e me impus um prazo para as necessárias mudanças, me comprometendo comigo mesma a não mais emitir nem receber nenhuma nota fiscal para a KBR a partir de 1° de março. E não foi só isso: me apressei a comunicar aos nossos autores — mantendo até o fim a nossa alegada transparência, custasse o que custasse — que a editora estava prestes a ser encampada por sua irmã mais nova, a muito mais estável KBR americana. E apesar de seguir chorando todo santo dia, dei um jeito de manter tudo funcionando enquanto negociava novos acordos de distribuição internacional, tudo convertido para o muito mais estável dólar americano — o real brasileiro se tornando cada vez menos real, pelo menos para mim. Fazer o quê.

O dia tão aguardado e muito temido não custou a chegar. Estava na hora de emitir aquela última nota e eu estava exausta — emocionalmente exausta, pelo menos. E aqui é preciso um parêntese para os meus novos leitores internacionais.

Uma nota fiscal no Brasil não é nada daquilo a que os americanos estão acostumados. Como assim, um simples documento do Word com o nome da empresa e um número inventado? Não no nosso excessivamente controlado, economicamente caótico país latino-americano, não, nada disso. Como se pode ver pelo estado lastimável da nossa corrupção governamental, há um esforço gigantesco no sentido de garantir que tudo e todos fiquem sob a mira de todas essas regras que nos são impostas, e o processo de emissão de notas não é nenhuma exceção.

E não vão vocês se apressando a concluir que uma vez estabelecidas, tais regras estejam convenientemente definidas e a gente pode relaxar. Nada disso. O governo faz absoluta questão não só de alterá-las o tempo todo, mas também de acrescentar outras, de modo que a vida do empresário brasileiro é praticamente impossível sem a valorosa ajuda de um contador especializado e altamente competente.

Agora imaginem vocês esta empresária aqui vivendo em outro país, não exatamente a par das mais recentes alterações em curso no Brasil — convenhamos, a evolução dos fatos na pátria amada é esmagadora, difícil de acompanhar onde quer que a gente esteja —, ainda por cima para alguém que acabou de ser abandonada por seu contador. Fim do parêntese.

Então, no dia marcado, acordei cedo, respirei fundo, peguei o envelope de plástico cor de laranja onde guardo todos os cartões magnéticos, tokens e outras tralhas de segurança brasileiras e me preparei para o grande evento. Preenchi o cadastro de novo cliente, et voilà, por algum motivo do qual eu não estava ciente, não consegui registrar o nome da cidade de jeito nenhum, o “sistema” insistia na mensagem de erro. Resolvi ligar para o SAC, que, milagrosamente, é bastante eficiente, mesmo a 8 mil quilômetros de distância, não que eu fosse dizer de onde estava ligando, não é mesmo?

Pois depois de algumas idas e vindas, tudo foi finalmente resolvido. A nota foi emitida e a última entrega estava a caminho de seu destino; a KBR Brasil estava prestes a deixar de existir, após sete anos de pioneirismo e uma luta que nunca foi pequena. É isso mesmo: para quem não se lembra, esta humilde cronista foi a primeira editora no Brasil a publicar um e-book em português. E agora eu estava livre, depois de uma longa carreira de ser a primeira isso e a primeira aquilo no Brasil, após ser forçada a reagir contra todas as impossibilidades que algum dia me passaram pela cabeça e que precisei superar, não importa em que campo de atuação. Fui designer de móveis, depois designer de joias (Alan com certeza vai reclamar dessa, já que ele não aceita de jeito nenhum que eu tenha sido designer de joias, coisa que ele alega também ter sido um dia), depois diretora de arte, designer gráfica e, finalmente, escritora e editora, quando, pela primeira vez na vida, consegui descrever minha profissão sem nenhuma vergonha ou timidez. E escritora e editora persisto em ser, agora leve e solta, perdida no ar como um balão largado por alguma criança descuidada.

Foi uma sensação terrível, meus amigos, ainda que bastante antecipada. Finalmente eu tinha deixado de ser uma empresária brasileira, profissão que não pretendo praticar novamente. Mas que doeu, doeu. E ainda está doendo. Pela primeira vez na minha problemática existência, estou finalmente disposta a me entregar, a deixar rolar, a “permitir que o universo colabore”, como tantos crentes afirmam que acontece, basta a gente permitir. Sinceramente, espero que assim seja.

Quanto aos nossos mais de 200 e poucos autores, um número que segue crescendo, peço a todos que não se sintam abandonados, deixados de repente sem pai nem mãe. Faço aqui a minha última promessa, e juro fazer de um tudo para mantê-la: tenham certeza de que não estou vos deixando, muito pelo contrário: estou levando vocês comigo para um futuro melhor, mais estável. Somos todos escritores do mundo, e de agora em diante, melhor ainda, pagos em dólar quando houver pagamento.

Podem espalhar por aí a boa nova.

 

***

 

Pois é, a crônica já estava pronta, e a coisa aconteceu tão de repente que me obrigou a acrescentar este pós-escrito. Não dava para publicar sem registrar aqui a mui aguardada luz que acaba de aparecer no fim do túnel escuro da política brasileira, já que Lula da Silva, o ex-herói da classe trabalhadora, foi conduzido à PF para interrogatório e esclarecimentos. Mais sobre isso semana que vem, é o que espero que aconteça, com toda a esperança de que ainda sou capaz.

2 Responses

  1. Clara A. Colotto says:

    Crônica magnífica. Impecável.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *