Agosto, ao gosto

KBR-SC

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Eu estava bem me preparando, pela primeira vez em anos, para compartilhar com vocês que “estou me sentindo feliz”, quando, pimba, interferiu no meu Facebook o espantoso comunicado: ”Noga, rápido, checa o Globonews, Eduardo Campos acaba de morrer”.

Hã?

Como quase todo mundo neste país achei que era brincadeira da oposição, só mau gosto de ocasião, tava tudo bem. Não era. Chequei as fontes habituais e lá estava a impensável quimera: Campos havia acabado de morrer naquele instante mesmo, vítima de um acidente aéreo até agora não esclarecido, tendo como de praxe o improviso brasileiro prevalecido, imaginem que as gravações na caixa-preta não parecem corresponder a diálogos travados perante o perigo da queda fatal.

É de amargar. Vamos ver no que isso vai dar.

E eu que estava tão feliz fui obrigada a me retratar, bem, a pelo menos recuar, no tempo e na intenção, na intenção de festejar e ao tempo em que era eu a filha a lamentar, nossa mãe. Nunca me recuperei. Mas agora não é hora de lembrar.

Imediatamente fui arremetida a um outro momento, na verdade muito engraçado, sorry, folks, há horas em que o humor é uma válvula de escape para o horror.

Não sei se vocês sabem, mas a mulher que sou hoje e que nem toca num dos assuntos que mais a mobilizavam no passado, a ameaça de obesidade, foi um dia realmente obsessiva a respeito. A obsessão muda, o obcecado nunca, sabem como é.

Tanto é que saía eu do dentista, em Ipanema, depois de uma sessão cruel de tratamento de canal, com a mandíbula deslocada de tanto se escancarar para expor o local, quando passei em frente a uma das mais famosas sorveterias do Rio, na Montenegro (ops, assim eu entrego a idade), Vinícius de Morais, e decidi tomar aquele sorvete delicioso, um porre raro de  calorias proibidas. Em seguida, caminhando em direção ao carro estacionado, comentei comigo mesma: Caramba, Noga, você só se permite um sorvete com a boca fortemente anestesiada.

Pois é. E é neste mesmo estado neurótico de espírito que me decido a compartilhar minha alegria com vocês ao cabo de uma semana trágica para todo o povo brasileiro, e creio não estar exagerando, se levarmos em conta o dramático cenário eleitoral que resultou. Talvez assim não chame muito a atenção o fato de eu estar me sentindo indecentemente feliz, por consequência não acarretando inveja, nem maus pensamentos, nem o culpado (ou culposo) colapso dos bons sentimentos como seria de se esperar.

Anestesiados?

Então lá vai: estamos de mudança, é isso mesmo, vendemos finalmente a nossa casa no paraíso. Vamos deixar a preguiça de lado e começar uma nova vida, construir outra num dos “dez melhores locais para se morar nos Estados Unidos”, Paris Mountain, Greenville, Carolina do Sul, aquele mesmo que o Alan descobriu no Google Maps em fevereiro, como já contei. Ou não?

Pronto. Acabo de explicar por que o SC em nosso novo endereço não é Santa Catarina, simples assim. É South Carolina, entenderam?

Quanto aos nossos queridos colaboradores, autores e amigos, e vejam que tornaram-se muitos nesses últimos cinco, seis anos, queremos deixá-los bem tranquilos. A KBR nunca dependeu, não depende e continuará não dependendo da geografia. Estaremos no ar como sempre estivemos, e se eu quisesse mentir como faz tanta gente nas redes sociais, nem precisaria mencionar mudança nenhuma — até um número local teremos, local no Brasil, claro, graças ao avanço da tecnologia, uma das qualidades, aliás, que nos atraem no primeiro mundo — , mas não é meu estilo. Além do mais, mais dia menos dia uma crônica me entregaria, et voilà. Afinal de contas, acima de tudo sou autoficcionista, como esconderia aquilo que estarei vivendo?

— Alan, nosso apê em Greenville vai ter ar condicionado e aquecimento?

— Claro, Noga, é primeiro mundo, tá pensando o quê? Vai ter tudo de que a gente precisa.

Bingo, não sei mesmo o que é viver no primeiro mundo. Mas podem ter certeza de que depois eu conto. Agora, a mentalidade marital, como se pode ver, deixou-se contaminar pelo terceiromundismo, uma praga contagiante se combinada ao proverbial comodismo, mas, peraí, será que  isso rimou de verdade?

— Alan, vamos ter lava-louças no nosso apê alugado?

— Já temos uma lava-louças: você.

Ui. Nem te ligo. Pois é. Felicidade deve ser isso: finalmente, nunca mais ligar para o que falam de você. Ou isso seria  a verdadeira liberdade?

Digo que nada vai mudar, mas será radical, é evidente. Sabe-se lá o efeito de um exílio, ainda que voluntário, no psiquismo e nas emoções, mais ainda quando é o caso de quem se expõe  em  regulares confissões. Vai ter muito assunto novo pela frente, tédio nenhum, isso eu posso garantir.

Mas mesmo antes de partir os efeitos positivos já se fazem sentir, calma, gente, é tudo pessoal, coisas de família, nada tendo a ver com nenhuma ameaça real, como já foi o caso em outros momentos tristes do Brasil.

Alan, por exemplo, nem consegue mais manter seu obrigatório mau humor, se pega cantando sem quê nem por quê, e com chuveiro ou sem, vamos combinar, ele canta muito bem. Claro, depois de dez anos de sobrevivente do lado de baixo do continente, a estrangeira daqui para a frente sempre serei eu.

Ainda bem que não preciso tremer diante da imigração, pois para o bem e para o bem temos um casamento pra valer, que, como vocês se lembram muito bem, também começou no território da internet, e lá se vão dez anos de quase idílio binacional. Já nos encaminhamos para a nossa quinta casa juntos, sexta, a que será construída, quem sabe a última até a partida, ah, é, é aí que a tremedeira começa.

Nem preciso rimar outra vez pra repetir que estou contente à beça, um tremendo alívio o Alan de volta  a seu próprio país, onde existe lei, confiança nas instituições e um telefone para emergências  —  o famoso 911 divulgado pelo cinema, coisa que qualquer criança sabe— ou pelo menos assim espero, que tudo funcione como eu espero, digo. Pelo menos não vou mais precisar odiar a Oi.

Quanto à questão do lar, dizem que “home is where your heart is”, e aonde eu for levo meu coração comigo. No mais, a vida continua como sempre tem sido, isto é, aqui mesmo, no Facebook, entre amigos. Só que postando de Greenville.

E um bom domingo procês.

 

 

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