Agruras e torturas

Susan Gubar em sua casa, em Indiana, US.

Susan Gubar em sua casa, em Indiana, U.S.

Existem semanas, como vocês sabem, carregadas de fatos, como esta, por exemplo, em que em curta sequência de dias um homem é glorificado, traído, abandonado, torturado e morto, para em seguida, antes que a semana termine, tornar-se vivo de novo, ressuscitar, dando novo e maiúsculo significado à ideia de “Transfiguração”. Mas tudo isso é história, porque na vida real, como todo mundo sabe, as coisas se desenrolam, muitas vezes, com considerável lentidão.

Pois é. Morreu e, de tão apegado, levou para a vida eterna o corpo, fonte de tantas agruras, mas, cá entre nós, a melhor coisa que temos, por dentro e por fora, responsável pelas mais incríveis sensações, nele incluído o mistério do cérebro, um cinzento amontoado de tripas enroladas que ainda por cima acumula milhares de recordações. E que às vezes, sem que a gente saiba como, nem por que, deixa descarrilhar o trem da sobrevivência, et voilà, sobrevêm as doenças e a mortificação.

Devo confessar, hoje penei para engrenar neste ato prosaico e cotidiano de escrever crônica, para mim obrigatório, mas também prazeroso e regenerador (e que Alan considera pura perda de tempo e energia, não custa acrescentar), porque ultimamente, vamos combinar, entrei numa espiral de só pensar em doença que, sem trocadilho, está de matar, ou eu deveria dizer que está me matando?

Seria este um sinal de envelhecimento? Ou de progressivo amortecimento de grandes expectativas e planos?

Por outro lado, fui finalmente liberada com louvor pelo dermatologista, “sem malignidade” nenhuma, alívio, tenho até testado de leve o tal ácido rejuvenescedor, desespero de causa, eu sei.

E por falar em beleza, assisti esta semana a um filme que me tocou, “Et si on vivait tous ensemble?”, com uma envelhecida Geraldine Chaplin, embora seja sete anos mais jovem que sua companheira de tela, a linda Jane Fonda — cujo sobrenome alguns americanos prefeririam mudar, tirar dele ao menos o “n” apaziguador, sabem como é: Hanói Jane, entreguista e traidora, uma vadia de arrepiar, mas mesmo assim uma linda e charmosa senhora.

Trata de cinco amigos em franco processo de, hum, deterioração, decadência, decrepitação, todos ainda com a ilusão de estarem por cima da carne seca, literalmente, com a exceção, como logo descobriremos, da já mencionada Jane, uma acadêmica americana radicada na França que no filme se chama Jeanne.

Quando o único amigo solteiro sofre um ataque cardíaco, e é ameaçado pelo filho de ser posto num asilo de velhos (estamos dando às coisas seus nomes reais, já não temos tempo nem disposição para inúteis eufemismos), os cinco decidem ir morar juntos numa bela casa no campo, e para viabilizar a aventura se associam a um enólogo, ops, etnólogo alemão — o excelente Daniel Brühl, que de passeador de cães se transforma num misto de enfermeiro da turma e acadêmico em pesquisa de campo, tendo a velhice como objeto de estudo.

Todos os personagens são extremamente charmosos, como em todo filme francês, vocês se lembram, até no terrível “Amour” os personagens são charmosos, vamos combinar. E, como em quase todo filme francês, o sexo tem prioridade sobre os demais temas (e por que não teria, não é mesmo?). Jeanne, que oculta de todos sua grave condição de saúde — revelada pelo médico, à sua revelia, apenas ao marido, que, para sorte dela, se esquece de tudo o tempo todo —, compartilha com o jovem alemão belas caminhadas no bosque e conversas eivadas de intimidade, “os velhos também têm sexualidade, você sabia?” Conta a ele, calma e transparente, que embora o sexo com seu marido seja raridade, ainda se masturba com frequência, pensando num antigo amante, que, por nenhuma coincidência, é o amigo solteiro que mora com eles. O que me lembrou (como se eu pudesse me esquecer, ainda que por um segundo) uma coisa que vem me incomodando e da qual tampouco se fala publicamente: o ressecamento da vagina com o decorrer da idade (parênteses para o ressecamento da vagina, francamente, nunca imaginei que fosse passar por isso, mas fui tranquilizada pelo ginecologista com a receita de um gel incrível, que uma vez aplicado dura três dias e que, segundo ele me conta, todo animado, “toda a mulherada está usando antes de sair para o final de semana em Búzios”; como é fácil de entender, estando como estou preocupada com morte e doença, ainda não deu para experimentar o moderno milagre da hidratação íntima).

Pois é. Não fica claro o que Jeanne tem, mas desconfio que seja câncer de ovário, minha hipocondria do momento (embora haja boa chance de não passar de uma cistite mal curada ou uma vagina meio ressecada — muito pouco, o médico enfatiza —, isso também tem me incomodado bastante). Quando chega a hora, sente uma dor forte, desmaia, cai de cama, recebe a morfina redentora, o carinho dos amigos e é enterrada num caixão cor-de-rosa encomendado previamente, ao som tilintante das taças de espumante, nesse caso, em se tratando da França, sendo permitido o termo original, “champagne”, que infelizmente não rima na frase com coisa nenhuma.

Devo confessar que, se fosse o caso, é como eu também gostaria de abordar este árido assunto: pessoalmente, sem medicina, e com muito espumante e morfina.

Não sei se conseguiria. Quando se trata da nossa própria morte, a opção por um estilo próprio é quase tão proibida quanto a abertura pra se falar de sexo, sexo real, não aquele praticado em midiáticos clubes pornôs, aí incluídos fotos de revistas, mensagens de celular, vídeos explícitos e conversas em redes sociais, se é que vocês me entendem.

Em áspero contraste com a leveza do filme, estou lendo no meu Kindle o contundente Memoir of a Debulked Woman [algo como Memórias de uma mulher estripada], de Susan Gubar, considerado pelo NY Times um dos 100 melhores livros de 2013 — ou 2012, não sei direito —, alguém aí pode me explicar por que, além de me mortificar, ainda encontrei um jeito de descolar um livro como esse? Duvido. Nem Freud. É de amargar. Mas pode até ser que a própria Susan, afeita ao magistério, viesse a elucidar o mistério, uma boa justificativa para prosseguir lendo o livro: “Talvez sentir intensamente o medo pudesse ser catártico, o obrigando a afrouxar seu aperto”.

Tendo enfrentado torturas terríveis desde o tardio diagnóstico de câncer em 2008, Susan Gubar, pelo que pude apurar, continua viva, ainda bem, ah, agora me lembrei, li na semana passada uma crônica dela sobre câncer de ovário na coluna “Well” do NY Times, que, aliás, nunca publica nada para quem se sente “bem”, tá doido, sô. E pelo que pude verificar também, pouca gente suportou ler o livro, nem mesmo os resenhistas parecem ter passado do primeiro capítulo.

De comum com Susan, além da ascendência judaica, da idílica casa envidraçada, do marido dedicado (embora o meu não tão manso como ela retrata) e do gosto por relatar a rotina esmiuçada, espero não ter mais nada. Ou, minto, compartilho com ela o desejo expresso na última parada, que li no final do seu livro sem ter lido o resto do relato: “que alguém ache um jeito de me administrar uma overdosezinha enquanto o lento movimento de um dos últimos quartetos de Beethoven soa aos meus ouvidos”. É isso aí.

Uma boa Páscoa procês, sem neurose nenhuma para atrapalhar. Chocolate pode ajudar. Tchau!

 

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