Alegria, alegria

Vou ter que começar confessando que sempre achei cafonérrima aquela música que me acompanha praticamente desde o nascimento, acho que vocês todos conhecem, “Hava Naguila”,[1] centenas de vezes dançada em roda em casamentos, bar mitzvás e similares no mundo inteiro. Pois é, se tem uma coisa que suaviza a aporrinhação de se sentir (sempre) estrangeiro é a real possibilidade de encontrar outros judeus em qualquer lugar do mundo — nalguns mais, noutros menos, tá certo — e com eles compartilhar piadas e canções automaticamente.

Foi, por exemplo, o que diminuiu sensivelmente a disparidade cultural existente entre Alan e eu (desculpem, mas “entre Alan e mim” não dá), embora nunca tenhamos dançado ou cantado “Hava Naguila” juntos até hoje. Imaginem se fosse diferente.

Mesmo assim não hesitei um segundo em parar de trabalhar mais cedo e atrasar o jantar de Rosh Hashaná para assistir no canal educativo ao filme sobre “Hava Naguila” que tinha visto anunciado uns dias antes.

Não me arrependi.

Muita coisa do que vi eu vivi, ou tinha ouvido falar, tendo nascido justamente no meio e época onde proliferavam os chalutzim — pioneiros judeus que povoaram o recém declarado Estado de Israel a partir de 1949 — e sido educada por Dona Evinha, uma ex-líder do movimento juvenil de Belo Horizonte, coisa que eu mesma me tornei anos mais tarde. Foi assim que o espírito da música acabou entranhado em mim, mas o que eu nunca tinha sentido na carne era a emoção que sua composição suscitou, e ainda suscita. E se não, se como eu a maioria dos compatriotas a acha enjoada e meio ultrapassada, é porque não sabem de nada.

Hava NagilaNo filme a gente aprende que “Hava Naguila” foi criada para festejar a intrínseca alegria de ser judeu que tem sua perfeita tradução nas tradições hassídicas, mas mais que isso: para contrapor-se a uma história marcada por perdas, exílios, destruição, para provar que um judeu pode perder tudo, até a si próprio de certa maneira, mas nunca sua conexão com a satisfação espiritual. Algo que nada tem a ver com religião, mas tudo com a esperança de uma eterna integração, a mais que humana sensação e necessidade de pertencer a uma família.

Lá pelas tantas no filme o narrador lembra que, no entanto, essa proverbial alegria judaica tem sempre um senso de tragédia, um traço de personalidade que nunca permite a um judeu entregar-se completamente à felicidade (a não ser pelos breves minutos de duração de uma melodia), e isso, vamos combinar, é algo que conheço muito bem.

Embora nunca tenha passado pessoalmente por nenhuma das piores desgraças coletivas que nos afligiram ao longo da história, desde o remoto exílio do Egito e talvez até antes, trago em mim essa propensão ao sofrimento da qual não me livro nunca, uma sensação permanente de catástrofe iminente que aliás, ultimamente, vem se materializando a olhos vistos no Brasil que deixei para trás. E que vem se somar aos meus sofrimentos reais, os tornando exponenciais.

Mas o que me deixou envergonhada e acabou motivando esta crônica que nada tem a ver com nada foi entender que com toda essa minha tendência esquizofrênica de enxergar automaticamente o lado escuro das coisas, mesmo que nunca abra mão de um discreto otimismo marcante o suficiente para me levar sempre para a frente, sejam quais forem as condições que se apresentem, tenho falhado miseravelmente em me deixar levar pela alegria.

Então, nesta semana que não deverá terminar antes que me seja concedido o “perdão” pelas minhas falhas, pelo menos as deste ano que estou quase completando (falando do ano judeu, mas também do meu primeiro ano em território americano), é o que pretendo aprender.

Afinal de contas, aquele Deus que não existe, e que se existisse pouco tempo teria para se ocupar pessoalmente dos meus dramas individuais, vamos combinar, tem sido bom comigo.

E enquanto uma onda de mui justificada tristeza toma conta da terra que deixei, prometo que me esmerarei para entender que, com toda a dificuldade e tamanho dos desafios, estou a salvo dos descalabros, segura, estável, no lugar que escolhi para viver.

Não custa lembrar que aqui neste país é tão significativo ser judeu que “Hava Naguila” passa no canal educativo na Carolina do Sul na noite de Rosh Hashaná, e não é só isso: a fidelidade a Israel e aos judeus, embora tantas vezes ameaçada (somos seis milhões de judeus americanos, fiquei sabendo no outro dia, em resposta à questão proposta pela viciosa Anne Coulter, seis milhões, um número meio cabalístico de renascimento) foi esta semana uma das estrelas (sem trocadilho) do debate republicano entre os candidatos a candidatos à presidência dos Estados Unidos.

Para toda situação nesta vida há sempre ao menos duas maneiras de se enxergar o que está por vir, no meu caso a certeza da morte ou de um norte que se descortina num horizonte pleno, se não de certezas, pelo menos de novas possibilidades. E para isto parece que não tem idade.

Então lá vou eu, cantando o meu caminho em direção ao imponderável que se o futuro quiser, e ele há de querer, será de renovação e  surpresas gentis. Ser otimista não custa, pelo contrário, o pessimismo é que nos mata.

Shalom! Uma boa semana procês!

 

[1] Hava naguila/ hava naguila venismechá/ uru, achim, uru achim belev sameach. [Vamos nos rejubilar/ vamos nos alegrar/ levantem-se, irmãos, com o coração a festejar].

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