Alta ansiedade

julio cesar— Nossa obrigação é mostrar os erros para o torcedor — diz na TV o brilhante locutor, minutos após a sofrida vitória do Brasil na bola oito, digo, nas oitavas de final. Alan, imaginem, quer me obrigar a traduzir simultaneamente, em tempo real e com a bola rolando, o futebol falado que assim se sonha filosofia, não suporta a dificuldade de entender o que está se passando durante a partida. E a cada 90 segundos vem a pergunta fatal, “quanto tempo está faltando para o final?” — final do primeiro tempo, do segundo, término do jogo, e, nesse caso, nossa mãe, da prorrogação —, porque além de não entender ele tampouco enxerga o reduzido contador do nosso monitor, pois é, ainda estamos naquela velha era em que 14 polegadas estava de bom tamanho, vocês se lembram.

Duvido. E não é só com isso que o meu ansioso marido está sempre me perturbando. Tem ainda aquela acusação de eu ser uma pessoa negativa, não importa o que pense ou diga, consigo estar sempre do lado errado do campo, isto é, emitindo a energia errada. Na fatídica tarde de sábado, por exemplo, se algo de mal nos tivesse acontecido, podem acreditar, não importa o que estivessem pensando naquele momento 201.092.713 pessoas em ação, fora os simpatizantes estrangeiros entre os quais ele está incluído — tá certo, chutei um pouco a quantidade de brasileiros nascidos nos últimos 11 meses, a estimativa é do IBGE em agosto do ano passado, tudo bem, sendo o dia do chute oficial, tudo era permitido — eu, somente eu teria sido a culpada, talvez por estar calada, tensa, agitada, sabem como é, estrangeiro não entende nada de futebol, muito menos da vida no lado de baixo do Equador.

Mudou o Brasil ou mudei eu? O Brasil vem mudando aos poucos, digo, para poucos. Já eu, devo confessar, mudei radicalmente, é, essa mania recente de radicalizar me pegou de jeito em todos os quadrantes, e cá me vi na tarde dos derradeiros rompantes angustiada com o jogo demais da conta, gritando gol, arrancando furiosamente as casquinhas da perna e do ombro a cada chute, bem dado ou não, e vibrando a cada novo limite ultrapassado, ô sofrimento bom, sô, me distraí completamente durante aqueles 130 minutos.

Sempre tive uma inveja tremenda de gente que se envolve emocionalmente com a torcida no futebol. Nunca antes tinha me interessado por nada disso, taí, contra o Chile me envolvi, foi contagiante de verdade, logo agora que tudo se encaminha para um desvio descomunal dos rumos da pátria amada e suas licenciosidades, vai entender. E o mais curioso de tudo é que, dada a discussão pregressa, paira ainda sobre nós a ameaça possessa de uma possível vitória da seleção ser desvirtuada no campo político, já estão ensaiando, deus nos livre — olhaí, com tanta rezação em campo até eu já estou dando voltas no clima da fé, imaginem só.

Isso, pra nem mencionar que sem quê nem por que me vejo cantando antes dos jogos hinos variados, desde o “Deutschland über alles” de criminosa memória teimando em me escapar dos lábios (uai, esse hino não tinha sido proibido?) ao obrigatório “the land of the free and the home of the brave”, um patriotismo maluco que muda de pátria conforme muda o talão de embarque, digo, a camisa do time em campo.

Pois é. Se oração ganhasse taça, a Copa terminaria empatada, não importando a quantidade de pênaltis disputados. Por outro lado, vamos combinar, de nada adiantou tantos chilenos cantando à capela no sábado à tarde. Seu fadado final já estava demarcado, mancha sangrenta em meio ao jardim verde-amarelo.

Foi por pura inspiração que adiei para o final da tarde a tarefa de escrever a crônica, isso, pra não dizer que até a última oportunidade ainda não tinha encontrado o meu assunto, ou penava com um cansaço enorme de todos os assuntos, tanto temos todos radicalmente nos mobilizado. O título estava escolhido minutos antes do jogo, mas nada tinha  a ver com a crise que se seguiu, tão marcante e agoniante que a outra pauta caiu.

Depois da nossa vitória retumbante, quem iria se interessar pela eterna alta ansiedade do meu companheiro, da qual eu me preparava para reclamar? Mesmo levando em conta que na “Bolsa dos Torcedores Estrangeiros” a categoria “judeu americano divorciado” tem aparecido em vantagem sobre as demais. Eu, francamente, votaria nos noruegueses, sei lá, nórdicos passam aquela imagem de placidez, tranquilidade, embora no mata-mata do casamento tudo transforme em caos a realidade. Como dentro de campo, aliás.

Mas, como eu ia dizendo, se essa pauta caiu, outra causa mais nobre se alevanta, a da volta por cima, e não estou falando de chute a gol, mas da dureza de ser responsável pelo gol em meio a outra dezena de tensos marmanjos, principalmente para quem carrega na testa um nome imponente de imperador romano, ave! Tu e os brutos. Ui.

Pouco ou nada continuo entendendo de futebol, como todo mundo já percebeu, mas senti na carne o agoniado pranto do herói, Júlio César, quatro anos de guerra responsável pela derrocada do Brasil, ainda bem que ele hoje se vingou. Essas histórias de represália moral mexem fundo comigo, não sei por quê. Vai me subindo por dentro aquela onda de adrenalina,  aquela sensação de “eu sabia o quanto valia” contra o que todo mundo dizia, um desejo de esfregar na cara de múltiplos inimigos uma deliciosa, merecida vitória. Principalmente sendo posterior a algumas derrotas fragorosas.

Pois é. Em minha vida de Brasil temos sido todos uns fortes, acumulando na conta da adversidade incontáveis oportunidades de dar voz e razão a Beckett, se é que vocês me entendem, um fracasso forçado atrás do outro, digo, forçado pelos outros.

Porque se de nós dependesse, já seríamos há muito tempo uma grande nação, o país mais bacana do globo, vitorioso, culto, campeão em tudo e timoneiro absoluto do Primeiro Mundo, mas, relembrando a velha piada, pagamos pra ver a classe política que o destino aqui nos colocou, uai, destino? Mudou de nome agora?

É isso aí. E um bom domingo, tchau procês.

 

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