Amor, casamento, família

"O casamento", óleo sobre tela de Marc Chagall, 1944

“O casamento”, óleo sobre tela de Marc Chagall, 1944

— Meu filho decidiu se casar.

— Que ótimo! Com uma moça?

Há pouco mais de uma semana, vamos combinar, este simples diálogo (real) seria francamente impensável. Casamento, na quadrada acepção daqueles mais caretas entre nós, era aquela antiga instituição destinada a garantir a reprodução da raça humana, uma instituição que há bem pouco tempo, aliás, passou a se basear no amor entre duas pessoas e não num acordo de negócios entre os pais para garantir também uma perpetuação dos bens e de interesses políticos e culturais, ufa. Casamento, na acepção dos mais avançados entre nós, era até bem pouco tempo atrás uma legalização do amor romântico a que nos negávamos terminantemente, a não ser em casos de emergência, como, por exemplo, garantir a estadia num país se um dos nubentes fosse estrangeiro, ou uma gravidez “indesejada”.

“Casar pra quê?”, perguntou minha mãe, quando aos 28 anos, feliz da vida, contei a ela que ia finalmente “desencalhar”, um conceito mineiro por excelência. “Por que vocês não fogem e vão morar juntos?”, ela insistiu, provavelmente com medo de que eu viesse a sofrer, ou, como disse o Alan, para “economizar o dinheiro da festa”. Já morávamos juntos — eu e meu primeiro marido, digo, Alan sendo o terceiro —, mas queríamos nos casar para poder contar com uma ”renda conjunta” e assim nos habilitar à compra de um apartamento. E essa experiência não deixou de ter seu caráter humilhante, quando meu sogro exigiu uma “separação completa de bens em cartório” da qual nunca mais pude me esquecer, embora, no duro mesmo, tenha sido eu com meu trabalho duro quem sustentou o casal enquanto o casal durou, período durante o qual qualquer ajuda matrimonial nos foi sempre negada, nem o dentista do meu marido o pai dele aceitava pagar, e éramos jovens, para sobreviver era preciso lutar.

Nos Estados Unidos, nessa mesma época, bacana mesmo era fugir pra casar sem o “consentimento dos pais”, “elope”, no linguajar local. E mesmo assim só para, talvez, justificar o nascimento de um filho, não faço ideia se sem o papel para garantir o novo humano seria rotulado como um “bastardo” por aqui, outra noção que há muito tempo apagamos do nosso manual de instruções sociais. Felizmente.

Sim, a moral humana evolui, mas muitas vezes deixa para trás valores morais que talvez nos façam falta no futuro, ops, peraí, deixa eu esclarecer o que quero dizer antes que me rotulem de retrógrada, preconceituosa e horrorosa por não estar empolgada, pintando meu rosto com listas coloridas como tanta gente. Acho ótimo que todos os “direitos” — e também os “deveres”, claro — estejam disponíveis para todo mundo como um menu no restaurante da lei, longe de mim ter apreciado em algum momento as terríveis humilhações a que eram submetidos os homossexuais no passado, prisão, condenação a um terrivelmente nocivo tratamento de hormônios (!) e uma mais humilhante ainda exposição pública das inclinações sexuais (!), em violação flagrante do direito à privacidade (!).

Na pacata e careta Belo Horizonte da minha infância, por exemplo, os eventuais homossexuais eram chamados de “solteirões”, isto é, rapazes (as moças na mesma situação sequer eram cogitadas) que por opção não pretendiam se casar nem constituir família (!). Ninguém jamais comentava com quem preferiam se deitar.

Não me levem a mal. A caretice da Minas de minha infância sempre me fez muito mal. E então, quando me mudei para o glorioso Rio de Janeiro, fiz questão de me abrir ao mais amplo leque possível de experiências emocionais, e isso incluiu algumas tintas homossexuais, como um relacionamento amoroso de 10 anos com um rapaz gay e um breve caso com uma moça lésbica — para usar, espero que corretamente, o jargão oficial LGBT, o que, inutilmente talvez, espero que me livre do rótulo de “preconceituosa”. Quero dizer, não fiz questão nenhuma disso, apenas aconteceu, não custa acrescentar que eram pessoas interessantes, brilhantes até. E este não é o assunto desta crônica, embora assim possa parecer e a determinação da Suprema Corte pareça estabelecer.

Fato é que acabei sucumbindo à minha heterossexualidade impositiva e contundente, e me envolvi em mais dois casamentos, ambos com homens, um deles motivado por aquela questão de nacionalidade que já mencionei e o outro restrito ao âmbito religioso, para evitar “que eu pusesse as mãos nos bens do meu marido”, isso é que é amor e confiança, não é mesmo?

Pois é. Casamento, esse maravilhoso papel passado que tanta gente está festejando no momento como um direito civil primordial, era algo que considerávamos um tipo de “morte certa” para um relacionamento passional, e ainda hoje persiste uma certa impressão de que casou, avacalhou, sabem como é. Quem entre nós não tem um caso pra contar de um casal que se amava apaixonadamente e depois do casamento oficial passou imediatamente a se detestar? E a sonhar ardentemente com o direito de se divorciar?

O divórcio também já foi condenado entre nós, e que tremendo avanço! Embora, por outro lado, essa conquista civil tenha estimulado muitos casais a desistir de seu amor conjugal, lutar pra quê, não é mesmo? Amar é uma questão somente de prazer imediato, então desgostou, a fila anda mesmo sem querer. Não se usa mais “construir uma relação”.

Já quanto à família, que antigamente era aquela coisa sensabor de pai e mãe e filhos dos mesmos pais (e das mesmas mães) morando juntos enquanto cresciam e se posicionavam perante a vida, também se enriqueceu com essa pletora de novos direitos adquiridos: família boa agora tem dois pais, ou duas mães, ou quatro pais e quatro mães mais uma dezena de filhos de combinações diferentes, numa progressão geométrica dos amores humanos! Pra nem mencionar a excitante possibilidade da “produção independente”.

Tá bem. Vamos logo ao assunto da crônica, que como o próprio termo sugere apenas registra a evolução dos costumes durante uma vida, a minha, que para mim pode parecer bastante longa, embora não passe de uma piscadela na história da raça humana, e como tal, seja irrelevante.

O caso é que depois de velha me apeguei realmente a esse menino que não vi crescer e que quando conheci já tinha dezessete anos, batalhando em seu próprio íntimo para se haver com dois pais uma mãe meias irmãs diversas culturas e “um eu no meio disso tudo”. Como será que ele se sentiu? Não sei, e não fica bem perguntar.

Como era forte, sobreviveu. Os humanos têm disso, tenho visto muitas vezes crianças criadas em condições adversas que se tornaram adultos equilibrados, embora, claro, sejam exceção. E porque esse “meu filho” existe, comecei a sentir que estava formando uma família, bem além do que ditaria o meu relógio no caso de ser apenas biológico — uma coisa que nem mamãe esperaria que jamais me acontecesse —, e lá vem mais um elemento complicando uma equação social já bastante complexa antes de seu advento. Como sou muito consciente de todos esses fatores nada matemáticos que envolvem a emoção humana, estou sempre alerta para não me entregar inteiramente, se é que vocês me entendem. E aponho a mim mesma esse rótulo de “mãe postiça”, faço questão.

Pois então meu menino, ao mesmo tempo um íntimo e um estranho completo, decidiu se casar, imaginem, no mesmo dia do casamento dos meus pais. E não é só isso: a noiva — uma moça! —, a quem conheci somente esta semana por meio de uma “conference call” no Skype porque mora em outro país, me lembrou eu mesma, filha de um pai e de uma mãe morando em casa com eles, inteligente, culta, viajada, criada a pão de­ ló, com os cabelos cacheados sem escova progressiva e um grande e belo nariz, amante de música clássica e das tradições hebraicas, só bem diferente de mim por não ser massacrada pela timidez na “vida ao vivo”, ponto pra ela.

Como boa parte das emoções humanas se processa na base da imaginação e da livre associação de memórias, tive que cortar um dobrado para evitar viajar na maionese, por exemplo, sair por aí comentando aquela noção de que um filho sempre procura para se casar uma mulher semelhante à sua mãe, o que no nosso caso é obviamente ridículo, pois nem o noivo é meu filho nem eu sou mãe dele. Mas fiquei contente do mesmo jeito.

Então, bem do meu jeito, e por pura coincidência ou “trama do destino”, também estou neste período vital para a revalorização do casamento festejando intimamente esta tantas vezes inútil, e muitas vezes execrada antiquíssima instituição humana e, me perdoem os reformadores, feliz além do meu próprio controle racional porque provavelmente teremos um casamento judaico tradicional, com chupá e tudo — a tenda abençoada que torna o casamento uma cerimônia sagrada, não acredito em religião, mas que é bonito, é —, de acordo com a herança cultural “separatista” na qual fui criada, uma conquista e uma enorme delícia, mazal tov pra gente e estamos conversados.

Teremos netos que serão criados num meio semelhante ao da nossa própria infância e com valores parecidos, oxalá formaremos uma família às antigas, é o que esperamos, e se isso for pura caretice e preconceito, paciência. É o que eu sinto e pronto.

Shalom![1]

 

[1] Uma nota para os queridos leitores: esta semana iniciei uma nova e arriscada jornada que deverá ser assunto de uma próxima crônica. Enquanto esse dia não vem, explico que numa tacada de “internacionalização” mudei meu cumprimento habitual ao final da crônica para “shalom”, que em hebraico é uma palavra de uso universal, significando “oi”, “tchau”, “como vai” e também… “paz”, um lembrete do que verdadeiramente importa em tempos de um crescente antissemitismo.

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