Amor, duro amor

Eddie Redmayne em "A garota dinamarquesa".

Eddie Redmayne em “A garota dinamarquesa”.

Há exatos quatro anos, no dia 18 de abril, mamãe faleceu depois de uma longa luta contra o alzheimer (sem maiúsculas, por favor).

Ainda estou sofrendo. Ainda recordo, como se fosse hoje, seus ásperos comentários, um provável reflexo de seus medos mais profundos de que eu e meu irmão a detestássemos. Um medo sem sentido: apesar de nossa relação nem sempre ter sido fácil, tanto eu como ele tomamos conta dela com muito carinho até o fim. O que nem sempre acontece, como todo mundo sabe. Uma pessoa que conheço viajou de férias para Nova York poucas horas depois de sua mãe ter tido um grave derrame e ser internada no hospital. Outros creem não ter nenhuma obrigação de cuidar de seus “velhos”, ao ponto de também aconselharem seus conhecidos neste sentido, como li num blog recentemente.

Minha mãe não dava moleza. Mesmo assim, não tenho nenhuma dúvida de seu amor. Mesmo ela amando mais o meu irmão, como sempre acontece nas famílias judias. Brincadeira.

O cérebro tem essa sabida habilidade de nos pregar peças, e graças a isso, no caso de alguma doença ou sob a influência de algum tipo de droga, podemos vir a maltratar as pessoas que mais amamos, e que nos correspondem na mesma medida. Não pretendemos machucá-las, mas machucamos mesmo assim.

E esta semana isso aconteceu comigo, é, mais uma vez. Na verdade, continua acontecendo. Meu marido, acostumado a tomar todo dia uma pílula para dormir, foi submetido sem querer, por conta de um implante dentário, a uma nociva mistura de remédios — “iatrogenia”, me ensinou uma amiga médica. Ele estava muito ansioso, com certo receio da cirurgia, o que dá pra entender. Não apenas sua aparência, mas também sua dentada estava ameaçada, não por causa da idade nem nada disso, mas por conta de uma raiz fraturada e a consequente perda de uma coroa “vencida”, passando da hora de ser substituída. O dente mesmo ele já tinha perdido numa queda de bicicleta quando era criança, mas na nossa idade, sabem como é, esse tipo de coisa perturba de verdade, provocando um alerta, um anúncio assustador de que o “fim está próximo”, podendo ocorrer a qualquer momento. Daí, quando um sedativo poderoso e um analgésico perigoso, ambos receitados pelo dentista, foram adicionados à sua “habitual receita de drogas”, o resultado foi um desastre. Alan entrou numa espécie de surto e ficou três noites sem dormir, falando sozinho, quase delirante, com breves intervalos de consciência. Já testemunhei um punhado de cérebros danificados nesta vida e lidei com eles. Mas fraquejei de verdade quando, antes de entender o que estava acontecendo, comecei a suspeitar de que Alan estivesse com alzheimer como a minha mãe.

Quando descobri a mistura acidental de remédios, tive um sutil momento de alívio. Então, agora, estou na esperança de que ele se recupere depressa, uma esperança que se fortaleceu ontem à tarde, quando ele teve uns lampejos de consciência e conseguiu conversar com o filho. Mas aí, infelizmente, ele abusou dos comprimidos novamente, et voilà, mergulhou na psicose de novo. E é claro que o alvo de sua raiva foi aquela pessoa que ele mais ama (é o que eu espero) e que mais corresponde ao seu amor.

Tenho lidado com coisas demais ultimamente. Além das minhas preocupações de sempre, ainda estou muito abalada pela crise no Brasil, cuja causadora mor, sob o efeito suspeito de drogas poderosas, anda posando de vítima e agindo erraticamente. O velho cérebro aprontando novamente! Não causa nenhuma surpresa o fato de a presidente Dilma reagir desse jeito, totalmente alheia às suas obrigações como “mãe da nação” e demonstrando um total desprezo pelo povo “sob sua proteção”. Quem sabe também seja o caso de sua raiva ser dirigida às pessoas que… etc. etc.

Tenho plena consciência de que, de uma certa maneira, nossa própria dor interior pode fazer com que abracemos com fervor determinadas causas. O que explicaria, por exemplo, o fato de eu estar dedicando tanta energia à política brasileira — e à americana também, por falar nisso —, talvez devido aos meus próprios traumas e medos. Mas será que isso seria possível no caso de mais de cinquenta milhões de brasileiros (56% da população adulta mais ou menos) ao mesmo tempo? Pouca chance!

De volta ao “amor maternal”. Faz bem pouco tempo, como vocês sabem, que comecei a me considerar mãe de alguém, colocando para funcionar os meus instintos maternos. Então enfrentei uma séria dúvida quando meu filho foi aceito como advogado no Marine Corps americano. Deveria cumprimentá-lo por seu sucesso? Seus amigos estavam empolgados, sua noiva toda orgulhosa, mas, honestamente, como mãe dele, embora com algum esforço eu até pudesse também me sentir orgulhosa, a verdade é que eu estava com medo, preocupada com a sua segurança, fazer o quê. Será que eu deveria mentir para ele? Decidi que não era o caso. Falaria simplesmente a verdade, como sempre faço, a minha verdade, pelo menos.

Amor, duro amor. Em inglês existe uma expressão para isso, para este amor que age com dureza no sentido de evitar algum sério problema ou sofrimento para o ser amado: “tough love”, o tipo de amor que fala a verdade, uma verdade que pode doer, e geralmente dói mesmo. Um amor desse tipo é o que anda faltando na nossa civilização conectada, onde todo mundo anda em busca de aprovação e é consenso geral que devemos concedê-la.

Acredito que isso também faça parte da imposição de um “modelo liberal”, como, por exemplo, no caso dos banheiros para os transgêneros. Ando tão incomodada com esse assunto que até já lhe dediquei uma crônica há algumas semanas. Honestamente, quantas pessoas com problemas de gênero podem existir neste mundo? Nos Estados Unidos, onde o movimento adquiriu uma força inaudita? No seu bairro, na sua cidade? A condição existe. Mas é extremamente rara, a ciência já reafirmou isso.

Fiquei muito impressionada com um filme que assisti na semana passada, antes de o mundo que me cerca, nacional e pessoalmente, descarrilhar completamente. “A garota dinamarquesa” conta a história da primeira mulher transgênero (ou homem, sei lá) de que se tem notícia a se submeter a uma cirurgia de “reatribuição de gênero”, ou qualquer coisa nesse sentido. Einar Wegener (magistralmente interpretado por Eddie Redmayne) era (ou parecia ser) um jovem pintor de bem com a vida, um homem casado e apaixonado pela esposa. As coisas começam a degringolar quando essa jovem, que também é pintora, pede para ele posar para uma tela vestido de mulher.

A situação se transforma rapidamente, e de repente, o que era para ser um divertido episódio de “cross-dressing” — em termos mais chulos, “travesti” — acaba levando Wegener a acreditar que ele seria uma mulher “internamente”, e começar a agir como tal. Há uma cena impressionante, na qual o rapaz, habilmente, esconde seu lindo pênis (desculpem, não consegui me controlar) entre as coxas, tentando se comportar “femininamente” em frente ao espelho no camarim de um teatro. O que me irritou de verdade foi que, em vez de tentar evitar que isso acontecesse, sua adorada esposa e um par de amigos fazem questão de apoia-lo explicitamente.

Lili, a “nova mulher” — trata-se de uma história verdadeira, e Lili Elbe é considerada pioneira, uma espécie de ícone do movimento transgênero — decide enfrentar uma série de cirurgias cada vez mais arriscadas (e não testadas) para “corrigir” seu “defeito”. Não apenas o lindo pênis foi morto e sepultado. A coisa vai bem mais longe quando, devido às ambições desmedidas do doutor e da própria Lili, que sonhava em “ser mãe”, o primeiro decide, além de criar uma falsa vagina, tentar transplantar um útero — num verdadeiro e antecipado tributo ao Dr. Mengele.

O paciente morreu.

Não estou nem aí para o fato de que, como afirmaram diversos críticos, faltam vários detalhes e a história fracassa em ser fiel à verdade. O mais doloroso de se ver, contudo, foi que a nova mulher, ao tentar sufocar o homem que (agora) vivia dentro dela, sufoca também seu amor pela arte. Como o fato de ser artista famoso tinha a ver com “ele”, mas não com “ela”, Lili decide ir trabalhar numa loja enquanto aguarda seu longamente planejado suicídio. E isso eu não consegui perdoar.

Lembro ainda o desespero de mamãe quando soube que eu estava namorando um homem gay. Ela gritou comigo, duvidou da minha inteligência, fiquei com tanta raiva dela! Como ela podia ser assim tão insensível, sem o menor respeito pelos meus sentimentos? Duro amor. Ela tinha razão. Sofri um bocado com esse relacionamento.

Agora imaginem quantos pais dedicados e respeitosos têm incentivado o “desconforto de gênero” demonstrado por seus filhos, ministrando a eles drogas pesadas e até mesmo permitindo e providenciando suas cirurgias mutiladoras?

Devo confessar que, como adolescente, eu mesma tive minhas dúvidas quanto ao acerto “do meu sexo”. Cérebro traiçoeiro. Tive uma menstruação tardia. Meus seios praticamente inexistiam quando eu já era “velha demais” para continuar tão chapada. Mais tarde, quando comecei minha carreira de arquiteta e designer de móveis, fui considerada muito “abusada”, ousada demais para “uma mulher”. Cortei um dobrado buscando encontrar em mim uma óbvia feminilidade, tanto assim que até dei um jeito de me tornar “frígida”. Agora imaginem a receita perfeita para o desastre que resultaria de tudo isso, caso naquela época houvesse essa permissividade que tanto festejamos hoje em dia.

Precisei de um bocado de paciência, persistência e capacidade de resistência até encontrar o Alan na internet, depois de vários relacionamentos fracassados e um par de casamentos. Foi quando, finalmente, consegui experimentar um orgasmo de verdade, aos 53 anos de idade. Depois disso, não somente a minha vagina se provou bastante ativa e eficiente, como os meus seios cresceram exponencialmente!

Meus amigos, espero que me desculpem a rudeza “masculina” que ficou evidente nesta crônica. Estou certa de que vocês me entenderão. Hoje em dia, afinal de contas, ninguém hesita nem um segundo antes de exibir suas particularidades sexuais para todo mundo, não é mesmo?

Lembrem-se, por favor: um duro amor é altamente preferível a amor nenhum, ou a um amor distorcido, do tipo que reage e age de acordo com a propaganda “liberal”, fracassando redondamente no seu objetivo de fazer o que é certo, afinal. Um amor duro como este que aqui descrevi pode, de fato e de direito, salvar muitas vidas.

2 Responses

  1. Clara A. Colotto says:

    Texto pungente, honesto e virtuoso.

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