Apocalipse, aqui e agora

apocalipseMais uma vez vou ter que começar a versão da crônica em português com uma explicação. O ritmo dos acontecimentos está tão vertiginoso que um texto escrito há 3 dias deveria, a bem da atualidade, ser jogado no lixo. Mas como ele contém ideias nas quais sincera e verdadeiramente acredito, resolvi preservá-lo. Deem, portanto, os descontos necessários, principalmente tenho em vista a enxurrada de mulheres abusadas por Trump que despertaram do anonimato como por encanto nas últimas 24 horas e se fizeram públicas. Se são sinceras ou não, na verdade pouco importa. O dano à nossa consciência moral já foi feito, e pelo visto ninguém está se incomodando, pois “um valor mais alto se alevanta”: a vitória do Partido Democrata nas próximas eleições americanas.

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Honestamente, estou perplexa demais para me posicionar tão cedo, principalmente considerando que não tenho uma noção completa do que está ocorrendo.

Apesar de seu acachapante sucesso em enganar o povo americano, levando-o a acreditar que Hillary Clinton é a nossa “salvação definitiva”, o indispensável New York Times (e aqui não estou sendo irônica de jeito nenhum) e outros poderosos canais midiáticos acabam de lançar sua última (ou mais recente) cartada, num movimento desesperado, anunciando em suas manchetes a ameaça apocalíptica da “Hillary Clinton dos Últimos Dias”: “A derradeira proteção de vocês contra o Apocalipse sou eu”. Eu sei, parece piada. Mas não é. A foto da manchete está aí para provar que ela um dia existiu. Resta-me perguntar: por que essa gente está fazendo isso?

Pô. Peraí. Essa coisa de Apocalipse na verdade não existe, não passa de uma datada fantasia bíblica que já deu o que tinha que dar em meio à grossura que impera na nossa contemporânea “sociedade da informação”, ops, quase escrevi “deformação”. Ou talvez, quem sabe, apenas algo um pouco pior do que esse estado de coisas que nos empurraram goela abaixo, graças a uma envolvente incompetência política, e que inclui obrigatoriamente o ISIS, a Síria e outros aborrecimentos desse calibre.

Estamos vivendo num verdadeiro inferno, meus amigos, embora, de certa forma, o inferno pareça estar longe para quem mora, por exemplo, nos Estados Unidos. Vou ter que confessar que, especialmente depois das mais recentes perorações de porão publicadas online por Robert de Niro esta semana, somadas às chocantes revelações dos comentários sexistas de Donald Trump emitidos pelo bilionário (11 anos atrás), eu estava quase a ponto de acatar tais argumentos assustadores, enfiar a viola no saco e descartar Trump de uma vez por todas. E ainda por cima me desculpar pelo meu lamentável equívoco.

Mais aí essa descabida retórica apocalíptica me fez acordar. Que diabos eu achei que iria acontecer?

Passei a semana inteira penosamente discutindo comigo mesma sobre se deveria me posicionar a favor ou contra a “machidade” (bem, sei muito bem que esta palavra não existe, acabei de inventá-la, ok?). Pouco mais da metade dos machos da nossa espécie se distanciou convenientemente dos rudes comentários de Trump, “agarrá-la pela xoxota” ou algo do gênero. A outra metade e pouca confessou que, embora possa ter verbalizado tais inconvenientes palavras em algum ponto remoto de sua vida de machos, certamente não fez nada nem de longe parecido recentemente, e não planeja fazê-lo nunca mais.

Cem por cento dos maridos dedicados no mundo inteiro fizeram o possível para se mostrarem sensatamente alheios a esta ultrajante evocação dos genitais femininos. Menos o meu (marido, digo). Cem por cento das fielmente felizes esposas fizeram questão de afirmar que seus maridos “nunca, jamais”. Com a exceção desta que vos escreve.

Tá bem. Talvez tenha sido ingenuidade de minha parte mostrar sem nenhum pudor, no meu romance Sem graus de separação (agora em inglês), como o meu agora marido (de 12 anos) e eu conseguimos nos conquistar mutuamente, incluindo almas e corações, e, por que não dizer, xoxota e pau, através de um diálogo sexual na internet. Imaginem se fôssemos “pessoas que contam” no nosso invasivo, constantemente hackeado mundo atual, o tipo de pessoas que têm nas mãos o destino de bilhões, mãos com frequência bastante sujas, vamos combinar. Nossa “conversa suja” teria, com certeza, caído nas mãos erradas, mal-intencionadas, e nós estaríamos, literalmente, fodidos. Mas essa íntima conversa suja na verdade salvou nossas vidas, impelindo nossas solitárias, culpadas e lamentáveis naturezas humanas em direção a um futuro amoroso.

No início, quando o encontrei ao vivo e comecei de fato a conviver com ele sob o mesmo teto, estranhei e até me choquei um bocado com sua masculinidade “sem refinamento”. Nada demais, sério, apenas a força da energia dele pairando no ar e dominando o lugar, sua disposição, seu poder de pensamento (e ação), algo que eu nunca tinha visto ou sentido antes, nem muito menos esperado de meus maridos anteriores, que embora não fossem exatamente “maricas” (nossa, palavrinha antiga, mas não me veio à mente nenhuma outra), eram certamente mais garotos que propriamente homens, apesar da idade. E com certa deficiência cultural em sua masculinidade.

Meu marido me conta com seu estilo sem firulas que, como praticava esportes quando jovem, ouviu um bocado dessa “conversa de vestiário” conforme a descreveu Trump, outra expressão que acaba de cair em desgraça no nosso linguajar cotidiano. De minha parte, escutei-o dizer muitas vezes as palavras malditas sobre a anatomia feminina, e até escrevê-las vezes sem conta.

O que eu penso é que estamos precisando, com a máxima urgência, de redefinir nossas abandonadas noções de “público” e “privado”. Para o nosso próprio bem e sanidade mental.

Deixo bem claro que, como homem, Donald Trump não me atrai em absoluto. Eu nunca permitiria que ele me tocasse “lá embaixo” só porque ele é famoso, ou um bilionário que não se pode ou se deve mencionar, ou até mesmo um presidente americano em potencial. São coisas que, francamente, não têm a menor importância para mim, e eu jamais as usaria tampouco em benefício próprio, em nenhuma circunstância. Mesmo assim, aprecio o serviço que Trump está nos prestando ao apontar uma por uma, intencionalmente ou não, as hipocrisias de nosso tempo, coisas que estão verdadeira e inexoravelmente nos matando, nos colocando em perigo. Seja apocalíptico ou não.

Depois de todos esses anos de feminismo, as mulheres de hoje parecem ter se transformado em “gatinhas manhosas” ridículas, que chamam tanta atenção para suas próprias xoxotas, e são tão frequentemente vítimas de abuso que nada mais que lhes diga respeito parece ter importância. O que aconteceu com nossa linda revolução sexual? Com o amor livre? Com garotas podendo escolher à vontade com quem queriam se deitar? Muito do que se ouve e diz sobre esse assunto é realmente doloroso e digno de vergonha. Mas, por outro lado, boa parte das queixas descreve atos que na verdade não passam de… sexo humano como ele é, um homem e uma mulher numa troca física essencial para a preservação da nossa espécie. E me parece urgente que não apenas aprendamos, mas também que enfatizemos a diferença entre as duas coisas o quanto antes.

Hoje, depois da revelação muito clara de que uma “agenda do medo” está realmente em curso, e operando a todo vapor — o que, vamos combinar, dá até um certo alívio, porque agora podemos não apenas senti-la, mas também vê-la e ler sobre ela —, estou sentindo muita raiva, e muito medo também.

Mas preciso ser muito clara: não é dos Donalds Trumps desta vida que sinto medo, mas dos seus detratores, daqueles que estão fazendo tudo o que podem e o que não podem para tornar-nos mais fracos, dependentes e adormecidos.

É preciso acordar, América. É preciso acordar, todo mundo. E devemos fazê-lo neste exato momento, ou será finalmente tarde demais para voltar atrás.

 

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