Apocalipse ontem

Arara+azul+Candisani di

Dedicada a todos aqueles que acham que tudo vale nada, tudo se resolve e nada vale o incômodo.

 

Acordo sobressaltada e leio pelo celular no Facebook de uma amiga, que mora em Nova York, que a “MSNBC estava mostrando o ataque em tempo real na TV da academia onde ela corria”.

Meu deus, gritei por dentro (para não acordar o Alan, que depois de passar a noite em claro, esperando a mais recente vingança pelo 11 de setembro pós-discurso-de-Obama, acabara adormecendo), será que a guerra começou mesmo? Me arrepiei, pois foi exatamente assim que vi ao vivo o ataque às Torres Gêmeas em 2001: pela TV da academia. Pois é. Me confundi com o “tempo real” da minha amiga como muita gente vem se confundindo com tanta coisa ultimamente, real ou não.

Vamos combinar, a pior coisa que aconteceu recentemente ao Brasil foi não ter havido uma hecatombe durante  a Copa do Mundo, cair a arquibancada da Arena Corinthians,  por exemplo (se eu tiver esquecido o nome popular do estádio da abertura, me perdoem, já apaguei a Copa da minha mente), ou a presidente Dilma ter sido assassinada em pleno jogo com o mundo inteiro por testemunha, toc toc toc.

Só assim teríamos acordado. Ao invés disso, provou-se novamente aquele velho adágio brasileiro de que “não importa o que a gente faça, tudo dá certo no final”. Deu certo na Copa, que estava aquele caos, por que não daria certo nas eleições? E vamos que vamos, gente esclarecida e inteligente relaxada, pouco ligando.

Uma conhecida e popularíssima colunista d’O Globo declarou em sua crônica que gostaria de viajar e só voltar depois das eleições. Um amigo, que como eu é das antigas, declarou fazendo graça no Face que a gente não deve esquentar a cabeça com nada disso, “é melhor assistir ao futebol, deixa que o Brasil sobrevive, conheci Getúlio, Jango, Jânio, JK, Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma…”, misturando ovos e tomates no mesmo cesto sem a menor cerimônia ou preocupação.

Tá certo. Uma autora da KBR comenta no Face que eu “me aflijo à toa”, no caso dela nada a ver com as eleições no Brasil, mas com o atraso na entrega de alguns livros que me deixou superconstrangida. É isso, como sou careta e responsável além da conta, costumo me preocupar com o resultado das coisas que contam, o meu trabalho, por exemplo. E nesse caso das eleições, como estou aflitíssima, assumi a candidatura Aécio como o “meu trabalho”, embora ele não me dê por óbvio a menor pelota. Melhor assim, a boca é minha e não recebo propina de ninguém, nem sequer um mísero pagamento pelas minhas crônicas semanais. E é melhor enfatizar, não estou obrigando ninguém a nada, a escolher nada se assim não quiser, embora o voto seja por lei obrigatório — momento informação cívica: a multa por não votar é de apenas R$5 .  Só não acho que a coisa esteja para brincadeira, e muito menos para a nossa proverbial pasmaceira.

Imaginem que até Joseph Goebbels (phfpt, bleargh) foi invocado no fim de semana por certo vice da “oposição”, nem eu teria chegado tão longe,  confesso, mesmo com o antissemitismo latente que anda me amedrontando e em certo momento recente caracterizou o nosso governo. Achei demais da conta.

Alan já está de saco cheio de me ver chorando pelos cantos, pensa que é por causa do trabalho, da agonia do autoexílio se aproximando ou porque ele tem andando ansioso com as questões do nosso futuro, gritando por cada mínima coisa e me angustiando o dia inteiro. Mas lá no fundinho de sua “gestalt” percebe mais ou menos o que está se passando:

— Se você adora tanto este país (o “de merda” ele pensa, mas não diz, para não parecer um gringo filho da puta e ressentido cuspindo no prato em que comeu, muito bem, por sinal, por quase 10 anos), por que não fica aqui? A gente se divorcia, divide o dinheiro da casa, vou embora e pronto, nunca mais você me vê.

Nem morta, deus me livre, ah, é, não acredito em deus.

Uma coisa que o Alan sempre repetia quando a gente namorava na internet era que eu não precisava “pôr fogo ao Brasil por causa disso”, bem, é, eu tenho antecedentes, “telhado de vidro”, como disse a Dilma. Além do mais, o Brasil não está precisando de mim para pôr fogo a si mesmo, a inércia do povo e a inépcia dos políticos vai dando conta disso mais rápido que incêndio no morro por causa da seca de inverno. Pobre Brasil.

À boca pequena aqui em casa tenho chamado Marina de “Obaminha”, e pra não deixar nenhuma dúvida quanto aos meus motivos vou logo dizendo por quê: em 2008, Obama foi a minha derradeira aposta nos “sonhos de menina”, nova era, amor, paz na Terra, essas coisas. Depois, foi o que se viu: levou o Nobel sem fazer nadinha e hoje está até o pescoço lidando com a pior cepa de terroristas jamais enfrentada, que Osama que nada. Marina, é claro, mesmo se for eleita presidente do Brasil não estará com essa bola toda: para ameaçar o futuro da humanidade por isolamento e incompetência, só mesmo vendendo a Floresta Amazônica para os chineses, ui, com o perdão do exagero desta cronista, mas, francamente, essa Marina que estão nos empurrando nem dá margem a muitas ilusões, pois mente demais da conta e fica muito fácil desvendar suas mentiras, é uma invenção da mídia esta Marina que está aí na sua telinha — assim como era Obama, Alan na época bem que tentou me convencer.

Agora, cá entre nós, devo confessar, esta será uma crônica partida: entre o começo e o fim minha disposição de espírito mudou completamente, fazer o quê. Talvez por isso ela acabe tendo uma incongruência intrínseca e irônica em que editor nenhum poderia dar jeito: enquanto eu ia armando o meu circo eleitoral literário tocou o telefone, e foi finalmente marcada para amanhã a escritura de venda da nossa casa. Meu “dane-se” já agendado começou, sem que eu pudesse controlar, a se adiantar na minha psique nacionalista — “eternamente no berço esplêndido” que até hoje conseguiu me ancorar direitinho…  et voilà, na hora agá, estou indo, vou deixando para trás o país do jeitinho.

Pois é, me desculpem, minha “liberação moral” estava marcada para o domingo, dia 5 de outubro, mas, pelo visto, não vai querer esperar tanto, e devo a partir de hoje mudar de assunto: estou partindo para uma nova vida e tenho muito mais com que me preocupar, no fundo no fundo a única coisa que importa é a vida privada de cada um, sabem como é.

Em tempo, melhor explicar tudo bem explicadinho: meu desabafo não é para vocês, amigos que eu adoro e que sempre me escutam, me fazem crescer e nunca ficam putos, nem muito menos para a terra onde (não) nasci , onde escutei incontáveis sabiás e curti os bosques, várzeas, flores, o pacote todo — ainda não dá pra saber se vou morrer sem voltar para cá, se é que vocês me entendem —, mas para essa gente mesquinha que fez de um tudo para acabar com o nosso país e acabou quase conseguindo, caramba, como é difícil ser sincera e ainda agradar a todo mundo.

Depois que eu me for, a História certamente se encarregará desses desgraçados, e não passarão de uma nota mal traçada nos nossos livros “de uso obrigatório”, sorte deles que as traças não comem os blogs nem muito menos as edições digitais, ou não lhes sobraria nenhuma posteridade, vamos combinar.

E um bom domingo procês.

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