Avis rara

Pássaro do paraíso

Pássaro do paraíso

Tenho orgulho de ser heterossexual.

Pronto. Falei.

O desabafo está preso na minha garganta, devo confessar, desde que Tim Cook, o super CEO da Apple post-Steven Jobs houve por bem declarar em público sua opção sexual. Fiquei ansiosa por declarar a minha também, embora desconfie que pelo teor sexoconfessional dos primeiros livros que publiquei, não deve ser novidade pra ninguém.

Minto, ou, no mínimo, suavizo. Tal desabafo está preso na minha garganta faz muito mais tempo… desde que o ativismo gay começou nos anos 1980, não sei bem se a década está correta, mas na minha vida foi quando aconteceu.

Naquele tempo as coisas eram meio confusas, não sei se vocês se lembram, principalmente no meio artístico que eu frequentava, e a verdade é que na época, recém-saída do meu primeiro divórcio, eu não tinha ainda um HPCM, “homem pra chamar de meu”, sigla roubada do novo livro de Madalena Costa que sai pela KBR no final de novembro, Passional, o nome diz tudo.

E já que estamos pra falar bem à vontade, meu primeiro embate com um homem de verdade ainda iria demorar. Meus ex-maridos que me perdoem, mas eram do gênero “homens-meninos”, sabem como é. Hoje em dia isso é muito comum, não tem nada a ver com a idade. Então meu primeiro encontro com um pacote de testosterona legítimo foi com o Alan mesmo, pasmem, no próximo 15 de novembro faz 10 anos que nos encontramos e ainda estou batalhando para me acostumar a ele, é um pacote muito ruidoso, mesmo em silêncio total, se é que vocês me entendem, quem teve em casa um homem de fato com toda a certeza irá me entender.

Eu já disse que acredito em coincidências, e que las hay, las hay, mas também não precisava ter passado este mês das minhas bodas (dizem que) de zinco editando dois livros, um meio acadêmico e o outro recreacional (parece uma droga, e é mesmo, esse amor heterossexual), que lidam sem pudor, não só com o erotismo amoroso feminino — e o contexto amoroso é fundamental, embora hoje em dia desprezado no projeto sensual —, mas com as diferenças entre os sexos, esse eterno desencontro que dá samba, valsa, tudo. Vida. Faísca.

Gozos da mulher, do qual espero falar mais extensamente em outra ocasião, é um livro espantoso. Lêda Guimarães, como esta que vos escreve, faz da própria vida laboratório da sua escrita, o que resulta numa força inaudita. E com o suporte teórico de Lacan, desmonta peça por peça esse puzzle enrolado em que se transformou nosso lado animal, que exerce em parte  a função sexual, já que a sexualidade humana, vamos combinar, é muito mais que um cio, requer lirismo, entrega, desafio, e numa instância mais elevada o máximo deleite da literatura erótica.

Lêda descreve fielmente a perplexidade, a teia complexa de ataques da sociedade contra esse instituto da “mulher que goza”, que vem ultimamente  oscilando entre dois polos: ganhar poder por autoconsciência de sua força, ou perder a chance de usufruir plenamente de sua intrínseca “usina de prazer”, todas estas palavras minhas, mixando às avançadas ideias de Lêda as minhas próprias ousadias. Gozos, cujos relatos se baseiam em pacientes reais,  demonstra com clareza como o homem moderno também hesita, muitas vezes optando por se furtar àquilo que seria um inebriante amplexo por mera comodidade, estranheza ao que dele diverge por natureza, embora caso arriscasse pudesse se completar. Tem preferido viver sozinho, sem tantas demandas e crises, eis um “case” apresentado no livro: “(…) se deu conta de que sentia um desejo enlouquecido pelas mulheres, enquanto o que sentia pelos homens, comparativamente, era apenas uma coisinha”.

Lêda, evidentemente, vai muito mais fundo, desvenda a inclemente máquina em curso que leva a mulher moderna a optar por relacionamentos pouco profundos, e a  considerar-se “mundana” apenas por querer ir fundo na própria xana. Uma tristeza.

E antes que eu retome o meu ritmo habitual, como vocês sabem sempre tendendo para o circunstancial, vai um delicioso comentário de Lêda Guimarães sobre uma das (pro)posições de Jacques Lacan, um grande teórico do prazer feminino: “Dar ao homem o epíteto de ‘pássaro raro’ [no original em francês, drôle d’oiseau] é para mim algo muito engenhoso, muito especial, pois convoca as mulheres a uma gentil curiosidade, no sentido de buscar entender o que se passa com eles”. E isso, minhas amigas, é tarefa para as mais fortes, um desafio e tanto, e também para eles. E como todo desafio, nos faz crescer.

O que me leva a explorar um outro ponto: o verdadeiro gozo com G maiúsculo é um brinquedo de adultos, de seres completos, daqueles que desejam o outro sem dele nunca depender, bandeira também levantada em seu romance erótico por Madalena Costa.

Bem. Chegamos agora ao impasse desta crônica, porque pra arrumar coragem de se meter numa briga de cachorro grande como esta da valorização pública da heterossexualidade, é preciso muito peito, e só temos desenvolvido duas maneiras, as quais de preferência devemos evitar: a vertente do falso erotismo (da qual a passional Madalena, felizmente, mantém boa distância), comum em romances “baratos”, comercialmente bem-sucedidos; e a tendência a escapar pela sempre bem-vinda tangente do humor, como fez Elio Gaspari recentemente ao comentar o adequado “casamento” carcerário entre a parricida e a sequestradora — uma dupla do crime estarrecedora —, já que até na prisão se pratica esse tipo de preconceito ao avesso contra aquilo que se desconsidera apenas por ser o “normal”:  “Eremildo [o idiota heterossexual] soube que os presos heterossexuais só têm direito a visitas semanais, por algumas horas [enquanto os homossexuais têm direito a viver juntos numa ‘cela matrimonial’]. Mesmo sendo um idiota, ficou com a impressão de que optou pela orientação sexual errada”.

Vocês me desculpem, mas nossa recente experiência eleitoral radical foi um bom laboratório moral para a gente aprender que se não decidir se defender, tudo aquilo que a gente mais preza, em termos de valores, discernimento, e até do mais íntimo entretenimento, será varrido desta terra pela força da ditadura, ops, do marketing das “minorias”, e não podemos permitir que isso aconteça. Nesse contexto, um dos instrumentos com o qual mais se abusa do povo é a mordaça sufocante do politicamente correto, sinceramente, a vida era bem mais divertida antigamente.

Quanto ao “orgulho” da minha opção sexual, vou explicar melhor: me orgulho de ser capaz de harmonizar e compartilhar minha vida com um outro que diverge de mim em tudo, do odor corporal ao sabor de seu órgão sexual, isso, sem mencionar o funcionamento do cérebro, os caminhos da emoção e a maneira de expressar tesão. E se você achar que essa minha declaração de opção saiu meio sem jeito, não se espante, não, é a falta de hábito de se expressar sem medo.

E um bom domingo procês!

 

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