Bafafá em Brasília

safe_image— Estou adorando esse bafafá todo em Brasília — disse uma amiga no Facebook na manhã de terça-feira.

Não curti nem um pouco. Ao contrário, entrei em pânico.

Eu já vinha progressivamente cortando meus laços com o Brasil nas últimas semanas, não sem pagar meu preço — emocional, pelo menos. Como já contei, tinha decidido encerrar as operações da KBR no país e transferir as atividades para os EUA. Era meu último mês de uma vida dupla. Estava planejando fechar todas as contas no dia 31.

Não sei se vocês se lembram, mas nossa mudança para os Estados Unidos só se tornou possível quando, após um ano de tentativas, conseguimos vender nossa linda casa no Vale do Sossego. Depois foi a vez de lutar para transferir o dinheiro — legalmente, claro, com o câmbio oscilando loucamente numa gangorra, para cima e para baixo — para um banco em Greenville, onde planejávamos construir outra casa. Continuamos planejando.

Muitos anos atrás, quando eu ainda tinha “fé”, um amigo astrólogo me disse que eu contava com algum tipo de “proteção divina”, que me impedia de me machucar, ou de exagerar nos meus negócios aventureiros. Não me lembro do meu sonho daquela época, talvez escrever um livro de receitas ou abrir um restaurante vegetariano, sei lá, por um tempo gostei de me imaginar como uma espécie de “gênio alternativo da cozinha”.

Então, basicamente, eu estava a salvo. E, honestamente, não sei o que deu em mim naquela terça-feira terrível.

Talvez, como afirmou uma outra amiga, que também mora aqui há alguns anos, meu medo tenha sido desencadeado por um velho “gene de pânico” herdado de antepassados obrigados a fugir dos pogroms da Europa Oriental de uma hora para outra… embora, sinceramente, apesar de meu pai ter vindo recém-nascido da Polônia para o Brasil em 1929, eu não me lembre de nenhuma história do tipo na nossa família. Enfim, como parte do povo judeu, a gente nunca sabe.

Acho que minha memória, na verdade, não vai tão longe em minha própria história. Conscientemente não sei de nada, mas posso muito bem ter guardado algum tipo de lembrança doída do golpe militar de 1964, delicadamente apelidado de “revolução”. Eu tinha 12 anos naquela época, e após um curto período de tanques nas ruas, tudo voltou ao normal, ou assim eu acreditava. Só na manhã de terça pude imaginar de verdade o medo que meus pais devem ter sentido, ambos na flor de seus trinta anos com dois filhos para criar.

Minha adolescência se desenrolou durante os “anos de chumbo”, mas como cresci com certo grau de conveniente alienação, tive uma vida normal. Eventualmente, a pressão da ditadura diminuiu, e estávamos de volta à democracia. Mesmo tendo que enfrentar as frequentes e radicais crises econômicas que o país atravessou, a vida mudou.

Lembro-me ainda de todas as dificuldades que tive de superar, tentando ser empreendedora e “ligeiramente artística” a vida toda, mas tudo isso já ficou no passado, melhor que continue por lá.

Enfim, quando acordei na manhã de terça com uma terrível dor de cabeça — o segundo ataque de enxaqueca em menos de sete dias — e fui direto para o computador para checar as últimas notícias, dois dias depois da “maior manifestação popular da história contra o governo”, minha intermitente sensação de alarme se revelou completamente justificada: depois de ser indiciado por crimes de lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e ocultação de patrimônio na recente onda de escândalos de corrupção, o ex-presidente Lula tinha sido convidado para ocupar a Casa Civil pela próxima-da fila-a-ser-indiciada presidente Dilma, o que oficialmente faria dele uma espécie de primeiro-ministro “não-reconhecido”, transformando Dilma oficialmente no fantoche que ela sempre foi desde o início de seu governo, com ênfase para o segundo mandato. Isso iria, em tese, proteger Lula de ir a julgamento — e, talvez, para a cadeia — como um cidadão normal. Um mandado de prisão já estava em andamento, mas isso não era da missa nem a metade: com esse ato altamente irregular, possivelmente ilegal, Lula seria elevado à posição de líder de fato do Brasil.

De acordo com a mídia, o homem já tinha posto na mesa as suas exigências: o Brasil deveria voltar-se integralmente para as velhas e populistas políticas econômicas e protecionistas, isso mesmo, aquelas mesmas que puseram em marcha a destruição do país; o governo deveria aumentar seus gastos e começar imediatamente a “estimular” a economia, a fim de recuperar seu declinante prestígio junto aos pobres. Ninguém parecia se importar com o fato de que o país estava totalmente falido, com a maior taxa de desemprego em muitos anos, a inflação em ascensão, empresas falindo e lojas fechando. Além disso, não estavam dando a mínima para a vontade do povo, claramente expressa na enorme multidão que tinha protestado contra este governo em todo o país. Há apenas dois dias.

A “ditadura do PT” tinha sido instituída oficialmente. Estávamos perdidos.

Minha última obrigação no Brasil era a declaração de saída do imposto de renda, em seguida à comunicação oficial da saída do país. Eu tinha até pensado em pedir ao meu contador para fazer, como sempre, e havia tempo suficiente, já que faltava mais de um mês para o prazo se esgotar. Mas tendo em vista as últimas notícias, decidi fazer sozinha mesmo. Imediatamente.

Alan já estava meio preocupado com as novas leis de “repatriação de bens”. Eu garanti que não tinha nada a ver, mas a verdade é que, no Brasil, a gente nunca sabe.

Primeiro tentei baixar o software da receita no meu computador novo, mas por algum motivo não consegui. Era preciso instalar o Java, mas ao que parece esse computador de última geração já não aceitava o “script”. Peguei meu Dell antigo, já fora de uso há um bom tempo, mas estava tão ansiosa que dei um jeito de provocar a tela azul da morte. Desta vez, para sempre. Não consegui reiniciar o computador. Aí tentei o computador do Alan, um pouco menos moderno que o meu, e felizmente esse funcionou.

Depois de meia hora de extrema tensão, completei o formulário e enviei a declaração online (cá entre nós, o sistema de declaração de impostos no Brasil é bom à beça, de dar inveja aos americanos, que lutam com o enrolado sistema deles, mais ou menos na mesma época do ano). Salvei e depois imprimi o recibo e pronto. Estava feito.

Enfrentei toda essa “pequena” crise pessoal sem nenhum apoio moral. Alan tinha ido ao dentista e eu estava sozinha em casa. Quando acabei, respirei fundo, calcei o tênis e fui correr na academia do condomínio, de frente para a piscina e para as árvores recém floridas, anunciando a primavera iminente. Eu estava longe, à mercê de uma inevitável saudade ocasional. Mas estava sã e salva.

Enquanto eu terminava de escrever a crônica, a confirmação de Lula como ministro da Casa Civil estava em compasso de espera por conta de outro escândalo, dessa vez se referindo a Aloísio Mercadante. Lula, o chefe indiscutível da quadrilha, o mentor “intelectual” da morte do Brasil, não queria compartilhar as manchetes com criminosos menores, sabem como é.

Hoje, quando publico, a mesma nomeação está sendo submetida a um vaivém na Justiça. O povo protesta, mas Lula e Dilma não estão nem aí, um descaso agora comprovado pela linguagem rude e pensamentos ainda mais rudes exibidos pelas gravações de conversas ao telefone, divulgadas, em meio à crise por eles mesmos provocada, pelo dublê de juiz e salvador da pátria Sérgio Moro, exaltado do nosso lado e execrado do lado oposto como seria de esperar.

Não faz mal. O que resta de tudo isso é a nossa plena consciência do grau de baixeza com que estamos lidando, com que temos lidado todos esses anos sem saber com certeza.

E agora chega.

 

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