Bananas is my business

carmen_mirandaNão sei se vocês notaram, mas há duas semanas venho tentando curtir as minhas férias anuais de cronista, obrigatórias para relaxar a tensão memorialista, mas a vida não está me deixando.

A cada tentativa de um ensaio mais otimista, como o da nossa autora Priscila Ferraz — a crônica é excelente, mas a ilusão da coitada dá até pena, e não a culpo, em todos nós há esse desejo latente de uma reviravolta potente, ninguém mais aguenta o deserto moral em que estamos metidos, nada a ver com a falta de chuvas, minha gente, mesmo porque, embora tenham falhado as previsões mais alarmistas, um status quo que tem sido comum em todas as mídias ao redor do mundo, apocalipse geral e coisa e tal, tem chovido a cântaros ultimamente no Brasil, ufa, fim do travessão —, a realidade nos atropela sem a menor piedade, nem a rima salva.

Agora, por exemplo, nessa tão aguardada sucessão da podre Petrobras, tudo o que fizeram foi trocar seis por meia dúzia, tá doido, sô, como diria o mineiro, pena que acabou deixado para escanteio.

Publiquei o seguinte comentário no Facebook indagorinha: “O que me espanta é a falta total de senso moral, cara de pau, falta de vergonha na cara, mesmo. Reaja, povo brasileiro!” Mas, cá na encolha, que ninguém nos ouça, não vejo como o povo poderia reagir, o “povo” está esmagado, irmanado na sua raiva, tudo bem, pouco ou nada aliviada com a apreensão dos bens daquele pujante empresário que foi nomeado um dia “o retrato do Brasil”, e, cão entre nós — ok, desculpem, foi erro de digitação, mas acabou caindo muito bem como um trocadilho infame, então deixei —, continua sendo! Pobre povo brasileiro!

Pois é. Lógica algébrica à parte, o Brasil do PT = Eike Batistan (safadeza e falsidade elevadas à enésima potência). É de amargar.

Enquanto isso, do lado de cá da perdida humanidade, estou tendo breves férias de marido, que foi curtir sua cria adulta num “fim de semana do Bolinha”, menina não entra, sabem como é.

E cá estou, seduzida e abandonada na América com um Mercedes parado na porta, mas não troco o desprazer do meu autoexílio por um tostão furado (tá bem, sou velha, mas nem tanto assim, não se usavam tostões furados há mais de um século quando nasci) de amor pela pátria, toc toc toc.

Na verdade, estou no meu mês “entre a cruz e a caldeirinha” oficial, crucial para o meu utópico projeto de primeiro mundo e a exatos 58 dias de me tornar prisioneira do sonho americano, porque voltar, nem morta, mesmo porque, morta, daria um trabalhão e custaria uma fortuna. Além do mais, a discussão é exatamente esta: estou cortando um dobrado para convencer meu “patrocinador natural” a se “responsabilizar” por mim enquanto ainda estou viva, então por que morta ele daria a mínima?

Traduzindo: ou Alan me patrocina um Green Card imediatamente ou em breve me tornarei prisioneira dos Estados Unidos da América, porque daqui não saio, daqui ninguém me tira, o que me lembra o Samuca, amigo das antigas, que descrevia há muitos anos a qualidade de vida dos condomínios de Alphaville, SP: “É uma prisão de luxo com todos os criminosos soltos do lado de fora”. Exatamente como me sinto, isto é, me sentirei se isso não for logo resolvido.

E para dar uma nota de alento, Alan acabou concordando que está mais do que na hora, principalmente depois que o ameacei de pedir asilo sob a alegação de “crueldade mental”, em cuja descrição “para fins de imigração”… tá bem, deixa pra lá, é tudo brincadeira de casal.

Mas, como sempre, com um fundo de verdade. Como Alan lembrou bem, a “crueldade mental” aqui em casa se verifica alternadamente por parte de ambos os componentes, ele mais do que eu, claro, pelo menos agora no território em que ele é rei e eu a estrangeira deslocada. E estamos conversados.

O impressionante é como a lista legal da tal crueldade mental é um catálogo internacional das maldades íntimas ditas normais perpetradas quase diariamente por antigos casais, aqueles que escapam ao litígio que contamina quase todos os nossos amigos, ok, divórcio amigável, vá lá. Dez anos chega a ser uma glória, um relacionamento merecedor de constar nos anais de qualquer história, nada daqueles eternos casamentos protagonizados a ferro e fogo pela geração de mamãe.

Ok. Coloquemos na conta do carnaval. Este ano, tá combinado, nós vamos brincar separados. Resta torcer pra tudo terminar antes de quarta-feira, quando teremos reunião com o arquiteto e o empreiteiro.

Quanto ao Brasil, sinceramente, não sei não. Preciso confessar, embora isso me enfie para sempre no pavilhão dos traidores da pátria, que não só tenho pena, como, de longe, falta-me a esperança de que haja um jeito em breve para essa Pensão da Dona Estela em que o Brasil se transformou, com linguiça e chuchu à vontade pra quem quiser comer de graça, isto é, às custas da galinha morta em que a democracia petista nos transtornou, como cantava a americanizada Carmem Miranda, nem marchinha de carnaval se faz mais como antigamente. Triste.

E um bom domingo procês.

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