Bate-papo no paraíso

Do good. . .you can do no wrong. . . (o Tzadik, Alan Sklar)

Do good. . .you can do no wrong. . . (o Tzadik, Alan Sklar)

Se tem uma coisa que a gente imagina no paraíso — isto é, se é que esse negócio de paraíso existe —, além de tórridas e intermináveis noites de gozo sem nenhum cansaço ou enjoo, é passar uma tarde inteira jogando conversa fora com amigos. Ao vivo, é, porque hoje em dia, sabem como é, esta distinção é fundamental.

De uns tempos para cá, eu, que tinha um permanente complexo de rejeitadinha, passei a me sentir poderosa, popular, com mais de três mil amigos — embora nunca ao vivo, claro —, mas antes que isso acontecesse, recém chegada ao Vale e estando bastante isolada sem ter muito para inventar, via com gula inexplicável aquele casal com quem cruzava de vez em quando, nas minhas caminhadas exploratórias em nosso paraíso real — não espalhem: não moramos no Brasil, mas…

Disse para o Alan, “Ainda vou ser amiga daquela mulher”, ah, é, vocês não sabem como é difícil para mim sair da toca, ainda mais pra “bater um papo assim gostoso com alguém”, coisa que não faço nunca e tenho feito cada vez menos, com o perdão da contradição.

Muita coisa se passou desde então. Virei meio workaholic e enfiei na editora toda a minha frustração, frustração social, é claro, porque de resto a KBR só me dá alegria, mas deixa isso pra lá. E a vontade de uma amizade acabou engolida pelas gracinhas virtuais diariamente praticadas, que raramente, fechando um ciclo, resultam em encontros reais, tá certo, quem sou eu para reclamar, estando casada há dez anos com aquele sujeito que encontrei na internet como todo mundo sabe e sem o qual eu seria o dobro do que sou hoje. O dobro de gorda, e de solitária, além de não ter nada de bom pra fazer, porque até a existência da KBR de certa maneira devo a ele. Pra nem mencionar minha carreira literária e nossa casa no… paraíso, isso aí.

Pois imaginem que há coisa de umas duas ou três semanas toca o telefone — ou o sinal de mensagem no Facebook, não lembro direito: “Oi, Noga, tudo bem? Aqui é o Alfredo, marido da Márcia. Tenho um livro para publicar e queria conversar”.

O Alfredo vocês já conhecem, publicou uma crônica no outro dia, e muito em breve irão conhecê-lo ainda melhor, mas não, não vão ficar aí imaginando coisas, embora seja um romance de estreia o autor garante que é tudo ficção, salvo qualquer indiscrição em contrário, bem, isso fica mais lá na frente, e além do mais o referido autor está para se tornar nosso colunista.

Nesse meio tempo, pelas mãos benevolentes de sua esposa socializadora, o escritor, que no passado era gastroenterologista, já tinha ajudado o Alan com uma dor de barriga, então o casal não nos era exatamente estranho, além de ter nos recomendado o cardiologista que até hoje frequentamos, um nicho de “segurança médica” encravado no meio do mato em Petrópolis.

Fechamos acordo e comecei a trabalhar no livro, atualmente na mesa de edição. Ainda é cedo pra falar n’O parque, mas não sobre seu autor, que quis me encontrar ao vivo para ter certeza de que eu realmente existia, realmente editava, digo, o que hoje em dia (conforme chororô no NY Times na última sexta-feira) é uma coisa cada vez mais complicada, embora à primeira vista possa parecer cada vez mais simples. Eu fui.

A história poderia parar por aqui, mas se parasse, não renderia crônica, apenas uma conversa informal de bastidores literários, sabem como é. Terminada a reunião, regada a chá inglês acompanhado de queijos e pãezinhos variados com uma generosidade de resort — eu de olho no relógio, quase uma imposição na casa dos Caminada, indo lá vocês entenderiam por que, além do que, sendo tão ocupada, já estava imaginando o que Alan estaria aprontando, sozinho em casa — Alfredo fez questão de me levar ao seu “estúdio”, onde se dedica não somente à música, como também à entomologia, astronomia, meditação… um da Vinci brasileiro, e ainda por cima meu vizinho (quase) do lado! O que seria da vida sem as boas surpresas que ela nos apronta de vez em quando, não é mesmo?

(Se vocês ainda não somaram a com b, Márcia e Alfredo, ela leitora e amiga “de Facebook”, são aquele casal que há vários anos eu olhava com gula, entenderam agora?)

Liguei para o Alan, eu sabia que com tantos violões, macro e micro escopias, bons uísques e insetos empalhados havia boa chance de aquilo tudo dar liga. “Tudo bem por aí? A conversa está boa, não quer vir aqui?”, perguntei, vagamente esperançosa, sendo Alan ainda menos sociável do que eu. Ele concordou, e em poucos minutos chegou dirigindo o nosso gasto VW preto, já que eu tinha vindo a pé.

O que se seguiu foi uma daquelas tardes de elite BCC — boa bebida, boa comida, boa conversa —, difíceis de descrever por absoluta falta de prática: arte, filosofia e fantásticas ideias, ideais, tão deliciosas quanto raras — somos todos únicos, lembra Alfredo, qualificado mais tarde pelo exigentíssimo Alan como “uma das pessoas mais interessantes que já conheceu” —, tendo nosso mútuo paraíso como cenário, o inglês falado reforçando o fado de estarmos fora do cotidiano brasileiro, onde, em nossa ausência, o pau comia solto como de costume, quem seria irreal, eles ou nós?

Voltei relaxada, depois de um dia inteiro, imaginem eu, desligada da rotina virtual, graças à qual, sem que a gente exatamente perceba, uma espécie de “mal” vem insidiosamente se imiscuindo em nosso meio social, uma coisa que a princípio parecia ser tão boa.

Chegando em casa e ao computador conectado fui surpreendida pelo desabafo da jornalista Cora Rónai, que havia sido bloqueada por um amigo também jornalista por causa de uma opinião divertida a respeito do engano publicado de outro jornalista — que mundo é este, onde até jornalistas “do maior jornal do país” estão mutuamente se mordendo em público, sendo a Cora notadamente uma das mais “humanas” entre eles —, muito normal, por sinal, dias depois de ela mesma ter descrito online sua rotina de “bloqueamento preventivo”, vamos combinar, ninguém está mais suportando essa nossa mania de radicalizar, é melhor escapar, nem parar para comentar. Eu também fui limada esta semana por um “famoso” a quem nunca fiz nenhum mal, a não ser por meu sarcasmo habitual, achei melhor nem citar seu nome no apoio à Cora. Passei batido.

Pra não perder o bonde da tecnologia, ia até comentar o Firefly [Vaga-lume, meu filho mais velho sempre adorou vaga-lumes e os colecionava num vidro, mas, hoje em dia, morando no paraíso havaiano, abomina qualquer tipo de celular, estamos saudosos, filho], novo paradigma de consumo lançado pela Amazon e grande novidade do Fire Phone, mas a pauta caiu, ficou só na intenção de “sucumbir ao desejo”, uma coisa que ainda segundo o Alfredo não nos faz bem nenhum, muito pelo contrário, embora eu jure que um dia ainda hei de ter um.

Pois é, como já dizia o Tzadik, alter ego mais sábio do meu caseiro marido — e o Alfredo parece enfatizar —, a vida não se resume numa rede virtual, mas num ditado, à primeira vista bastante banal, que nos garante por si a qualidade humana da vida real, sendo muito mais do que uma “pretensão moral”: Do good [Faça o bem]. Nem precisa ver a quem.

E um bom domingo procês.

 

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