Bye-bye, Brasil

bye-byeEu sei, pega até mal o título dessa crônica com o navio afundando do jeito que está, parece que estou me regozijando, feliz por ter escapado a tempo, mas, gente, garanto que não é nada disso.

Fui pega de surpresa também, quando descobri que querendo ou não, doze meses depois de ter carimbado meu passaporte na saída sem ter voltado ao país, voilà, perderei daqui a exatos seis dias o status de residente no Brasil. Já estava até cuidando de encontrar um pequeno apartamento em Petrópolis, sei lá, para manter um ponto local e preservar minha identidade nacional quando a lei me atropelou, quer dizer, tropecei na lei que até então ignorava por absoluta falta de prática, nunca tendo me afastado da pátria por mais de um ano de uma só vez.

Pois é, meus amigos, mamãe sempre me aconselhou a ir viver fora do país. Para o Fred, um amigo já falecido que gostava de mim de verdade (saudade!) eu só ficaria feliz se me casasse com um estrangeiro, pois para ele o meu intelecto, meu alto grau de sofisticação cultural (brincadeira, tá, mas com fundo de verdade, chega de falsa humildade) só seria satisfeito dessa forma. Não viveu para me ver satisfeita com o tal marido estrangeiro na terceira tentativa, mas, acaba de me alertar uma amiga… xô, depressão! Focar nos bons aspectos da vida! Ela, que também deixou o Brasil pouco tempo depois de mim e passou por um período bem pesado até encontrar a “alegria do exílio”, acaba de me dizer: “Tivemos a maior sorte do mundo!”

Voltando a mamãe, que meio sem querer era uma especialista no jogo duplo, me incentivava a sair e ao mesmo tempo me provava que não podia ir. E realmente, enquanto viveu, me senti de certa maneira presa ao país, ao amor filial, digam aí.

Então a vida sofreu certa correção de rumo, como sempre acontece se a gente esperar o suficiente, e eu estava livre para partir, Alan sofrendo pela distância dos filhos, embora curtindo sua vidinha mansa no trópico paradisíaco entre tucanos, sapos, beija-flores e micos (tô falando de bichos, tá?)… Levou certo tempo, mas o convenci, até então movida pura e simplesmente, como tantas vezes já escrevi, pelo bem-estar do meu companheiro, e por que não dizer, por minha própria necessidade de partilhar com alguém a carga da velhice a caminho, dele e minha também.

Mas enquanto nossa casa estava à venda, meio inexplicavelmente, um sentimento foi crescendo em mim, uma espécie de mal-estar indefinido que aumentava a cada dia sem um diagnóstico preciso, algo que vovó chamaria em seu iídiche estropiado de “nishguit” — “nada bom”. Nada naquela época, eu juro (isso, a partir de fevereiro de 2013 mais ou menos), indicava que viveríamos esse pesadelo que está aí. Como nunca rezei pela cartilha do PT, só via clara no horizonte a possibilidade de votar contra nas próximas eleições, porque não simpatizava com o estilo da presidente. E isso era tudo, parecia ser tudo na mente consciente, mas não naquela instância superior que nem sei se existe mas que a gente costuma chamar de “intuição”, sabem como é.

Aí as eleições foram se aproximando e o nishguit aumentando e nada da casa vender. Quando vendeu, em dois meses estávamos empacotados e prontos para embarcar, catapultados para fora do nosso paraíso que a gente nem sabia, mas de qualquer maneira estaria perdido em poucos dias. Pontualmente na véspera do segundo turno (perdoem, amigos, não votei, colaborei para isto que está aí) cruzávamos os céus na direção do estrangeiro, estrangeiro só para mim, é claro. O que no nosso caso facilitou não só a decisão, mas também as condições de futura residência, o que não é fácil para ninguém.

Agora preciso confessar que nem em sonhos, quer dizer, nem nos mais sombrios pesadelos imaginei que o Brasil chegaria ao ponto em que está hoje. Nossa sofrida geração, como têm dito outros inspirados cronistas do nosso drama cotidiano, passou por tantos descalabros que deveríamos estar vacinados, mas o Brasil não deixa barato. Passamos incólumes por tudo, meus amigos, pelos porões da ditadura, pelos cruzados da bancarrota, pelos Jardins da Babilônia… quem viveu, sabe. Não houve obstáculo que nos derrotasse em nossa “heroica” trajetória como “empresários da vanguarda brasileira”.

Eram outros tempos. Agora me sinto velha, cansada, desesperançada… desesperada a cada derrocada que nos impõe o Brasil. Mesmo fisicamente longe, sofro pelos amigos, pela família que deixei para trás, por minha própria identidade brasileira tão entranhada que não tenho mais vida útil para me livrar de toda essa trapalhada.

Alan me consola, lembrando o sofrimento por que devem ter passado nossos antepassados tantas vezes levados a emigrar para preservar não só a esperança de vida, mas a própria vida, deixando para trás num exílio forçado tudo e todos que lhes eram conhecidos, nem precisa ir tão longe, basta ler os jornais a cada manhã com as ondas de migrantes atuais.

Claro que por um lado esse tipo de comparação é até certa falta de respeito com o sofrimento alheio, já que no Brasil nunca sofremos nenhum tipo de preconceito real, apenas a pressão da queda do real, desculpem aí o trocadilho, não resisti, foi só para aliviar mesmo. O que nos empurrou para fora não foi a ameaça de extermínio racista que sufocou os judeus na Alemanha nazista, por exemplo, ou os xiitas ou sunitas de hoje na Síria, não sei, perdoem a confusão (Alan simplifica, diz que são cristãos), mas pura e simplesmente uma exaustão econômica, nada mais que isso.

Mas, por outro lado, quando vejo meu amigo Caetano descrever como o brasileiro das ruas anda acabrunhado, quando vejo os editoriais despejarem desesperança por todo lado, quando uma amiga descreve que “a crise me pegou como a milhões de outros, tudo por culpa de ladrões sem-vergonha na cara” (enquanto vou escrevendo meus amigos me mandam subsídios por todos os meios conhecidos, no Skype, no Facebook e por email, e eu vou ajuntando), quando aquele meu amigo empresário importante sempre tão calmo e ponderado grita no telefone que “não quer colaborar em nada com esse bando de ladrões” e que o ministro da fazenda (com minúsculas, por favor) “não passa de um imbecil”, percebo que no Brasil o buraco é mais embaixo.

Perdoem-me a comparação, mas enquanto na Alemanha nazista o governo encontrou um bode expiatório e o explorou da maneira mais abjeta possível para aumentar a autoestima de sua população “nativa” imersa na ruína (não estou sugerindo nada, pelo amor de Deus), eliminando seis milhões, no Brasil o governo faz de refém uma população inteira, destruindo as esperanças de mais de 200 milhões.

No nosso caso, felizmente, a consciência moral ainda não atingiu uma derrocada definitiva, não afetou (ainda) nossos princípios fundamentalmente humanos como nos países dominados pelo terrorismo e outros ismos detestáveis. Nossos males são só financeiros, quiçá passageiros, ainda somos em certa medida o país do Carnaval, um povo afável, um sonho de consumo do turista estival (que ainda não sabe da missa a metade, por incrível que pareça), e para manter isso, esse fio mínimo e quase esgarçado de esperança de um próximo resgate da alegria e felicidade que todos merecemos, vejo apenas uma solução: eliminar o mais rápido possível a corja que nos denigre, mancha a nossa reputação e rouba o futuro não apenas nosso, mas de nossos filhos e netos.

Espero que todos vocês, brasileiros que estão aí, com a força moral, que é o que podemos mandar daqui, encontrem em breve uma solução para os nossos problemas, antes que eles aumentem ainda mais, porque na verdade ninguém sabe até onde o desespero pode nos levar, e a sombra humana, não custa lembrar, é abjeta, não conhece limites. Tudo sempre pode piorar, e se nada fizermos ninguém sabe onde tudo isso vai parar.

Impeachment já.

Desculpem o destempero, é do temperamento da cronista, tá?

 

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