Caça ao câncer

Crioterapia, a prima malvada do lança-perfume.

Crioterapia, a prima malvada do lança-perfume.

Esta semana li no NY Times um artigo horroroso intitulado “Por que todo mundo parece ter câncer”. Nele, explica-se como a maior longevidade acaba desembocando numa escolha prenhe de malignidade: na velhice avançada, sem escapatória, a gente oscilaria entre morrer de câncer ou devido às complicações do alzheimer, com minúscula, por favor. Tá doido, sô (sem trocadilho).

Nem dá vontade de conquistar a promessa final do ensaio, que termina nos “consolando” com a possibilidade de em breve atingirmos os 200 anos de idade — a humanidade, digo, os mais afortunados entre nós, porque, francamente, haja dinheiro para usufruir das novas tecnologias.

De minha parte, como todo mundo sabe, já fiz as pazes com a alta probabilidade de num futuro próximo ter que enfrentar o “alemão”, como outro dia no Facebook uma de nossas autoras apelidou a doença. Afinal de contas, a herança genética me condena, fazer o quê. E não acredito, como disse aquela outra escritora, que “quando a gente chegar lá a ciência já terá solução para todas essas coisas”, pois tenho plena consciência de que, aos 62 anos, “já estou lá”.

Mas, no que diz respeito ao CA — como no outro dia o nomeou outra autora, ih, desta vez na coletânea No divã com as esteticistas, talvez para evitar “a maldição da palavra dita alto e bom som”, sei lá —, minha disposição já não é a mesma. Embora soletre seu nome com todas as letras, tenho um medo que me pelo da coisa em si, tanto que evito o máximo que posso o contemporâneo hábito de buscá-la por todos os cantos do corpo, bem antes que ela se decida a dar as caras. Tô fora. Até ontem à tarde, por exemplo, já estava há seis anos sem pisar no consultório do ginecologista, afinal de contas, o que a gente faz numa consulta ao ginecologista? Isso mesmo. Procura câncer a cada seis meses, conforme recomenda a boa prática médica.

Antes de mais nada, deixa eu explicar que sou uma antítese perfeita de certos bons exemplos da sociedade, Angelina Jolie, por exemplo. Ela é alta, eu sou baixa; ela é linda (até no nome), já eu… deixa pra lá. Meus lábios com o tempo se tornaram quase uma linha crispada rasgando o rosto, já os dela… Não tenho filhos para criar, e os postiços que tenho já são adultos, não preciso me preocupar (embora por vício viva preocupada com os dois bonitões, dois metros de altura cada um). E, last but not least, ainda por cima sou há nove anos casada com a antítese perfeita de Brad Pitt — tá bom, vou poupar-lhes a penosa descrição (revoltado por se ver comparado a Brad Pitt, Alan se vinga lá de dentro, contando que viu pela internet Angelina e seus lábios avantajados embarcando com destino desconhecido num ônibus lotado, em frente ao Beverly Wilshire Hotel, quase na altura de Rodeo Drive).

Agora, no que se refere a partes do meu corpo, devo confessar, o contraste entre Angelina e eu é ainda mais marcante: sou superapegada até mesmo ao menor pedacinho de matéria deteriorada, como aqueles que cortei fora ontem à tarde, muito contra a minha vontade.

A coisa começou não me lembro bem quando, quando uma daquelas manchas típicas de pele clara — para não dizer “de velhice” — evoluiu para uma coisa mínima, mínima mas escura, quase negra, irregular, bem debaixo da minha mandíbula. Via-se pouco, via de regra escondida pela volumosa rebeldia da grisalha cabeleira. Mas Alan não parava de ver. E de mostrar. Já me via desfigurada, desqueixada como a falecida Lucy Grealy, coitada.

Melodramático, chegou ao cúmulo, imaginem, de me levar ao Rio para um encontro com a minha prima, que há pouco extirpara da costas um melanoma mínimo, mas invasivo pra caramba.

“Todas as coisas começam pequenas”, vaticinou o dermatologista. Não pude escapar. Marquei a consulta para dali a duas semanas com o especialista que diagnosticara a minha prima, salvando sua vida, ainda bem. Se fosse o caso, eu deveria ser salva também.

Foram semanas infernais. Entre histérico e consternado, Alan chegou, imaginem, a adiar nosso trato com relação ao terreno de Greenville que eu tanto queria: “Minha mulher vai ao oncologista no dia 3, fazer umas biópsias”, disse, exagerando, ao estressado corretor da Carolina do Sul. Evangélico e solidário, o coitado nada pôde fazer a não ser prometer que haveria de “rezar por mim”. Amém.

Pois bem. Depois de várias noites maldormidas, chegou o fatídico dia. Eu tinha aproveitado para marcar também uma revisão na ginecologia — já que estaria na chuva, melhor seria molhar tudo de uma vez. Do dia 3 de abril o maldito câncer não passaria, digo, a maldita ameaça de câncer enfim desapareceria.

Cá entre nós, devo confessar que ao termo e ao cabo de angustiadas investidas no Google eu já havia concluído que a coisa não passava de uma ceratose mal acabada, até diminuindo já estava — claro que com isso, sim, eu estava preocupada, pois 25% das ceratoses desaparecem sem que se faça nada para isso, embora, infelizmente, sejam do tipo que no restante da percentagem podem evoluir para um tumor maligno.

Enfim, para encurtar a história, tive três pequenas seções de pele eliminadas pelo dermatopatologista, uma delas quase imperceptível, mas altamente suspeita — vou colocar esta aí na conta de “ter salvo a minha vida”, estava no meio das costas e sem ajuda nunca seria vista. No mais, além da dor no bolso tive que me submeter em mais de vinte pontos espalhados pelo corpo aos efeitos colaterais indesejados do primo malvado do lança-perfume , vocês conhecem, aquele spray geladíssimo de nitrogênio líquido com que o médico me perseguiu até a saída do consultório em Botafogo, transbordando de energia como um Dr. Jekyll tupiniquim.

Na despedida, o competente especialista ainda tentou me empurrar um futuro peeling de última geração, que “me deixaria muito feliz”. Mal sabe ele que não ligo para isso, são bem outras as coisas que me proporcionam momentos de felicidade, como um reconhecimento literário, por exemplo. Mas me deixei contaminar e comprei na farmácia logo ao lado uma cara bisnaga de ácido retinoico, que, provavelmente, com toda aquela lista de sequelas deprimentes jamais me dotará de uma “cútis ideal”, principalmente depois de eu ter sido isentada do crime de “usar desodorante no rosto” de que Alan sempre me acusa: o tradicional Creme Nívea foi liberado pelo doutor. Ufa. Ainda bem.

E um bom domingo procês.

 

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