Café com leite no Starbucks

20100627coffee-bucksEra domingo de manhã, o primeiro domingo de primavera em Greenville, na Carolina do Sul.

Eu tinha acabado de receber um e-mail com uma resposta ardentemente esperada. Resposta negativa. Fiquei decepcionada.

Ok. Sendo uma adulta, eu não tinha o direito de ficar assim tão desesperada com cada sonho abortado. Tinha um marido com quem me preocupar, portanto convidei o Alan para um café.

Sinceramente. Se eu tivesse a menor intenção de seguir vivendo, ia precisar de uma mudança radical, só não sabia como começar. Talvez saindo para o café da manhã num belo domingo de primavera. Talvez parando de escrever sobre meus repetidos fracassos, ou começando a me concentrar no “meu sucesso”.

Eu poderia com certeza contar como é lindo o início da primavera aqui nos Estados Unidos. Por todo lado se pode ver pinceladas recentes de cor, como se um talentoso pintor tivesse acabado de acordar e posto mãos à obra. “Natureza”, diriam alguns. “Deus”, pregariam outros. Animador, por qualquer lado que se olhe.

Fomos até nossa cafeteria favorita, a cinco minutos de carro do nosso apartamento. “Nosso apartamento”, não “nossa casa”.

— Odeio esse apartamento — Alan acabara de admitir, me lembrando Caetano: “Eu quero é botar fogo nesse apartamento… você não acredita”. Tive que concordar, eu também detesto. Moramos aqui há tempo demais, já passou da hora de a gente se mudar.

A cafeteria estava lotada, tinha meia hora de espera. Era tarde demais para tomar café; ou, por outro lado, a hora certa para as pessoas saindo da missa, que são grande maioria neste canto do mundo, apelidado “cinturão da Bíblia”. Era bem provável que outros restaurantes também estivessem lotados, então adiamos o café por um tempo e fomos até o nosso lote, que nos obrigamos a visitar duas vezes por semana a fim de imaginar como vai ser bom morar lá. O que deve acontecer eventualmente.

Confesso não ter a menor ideia de como alcançar o sucesso. De qualquer forma, há um excesso de receitas eficientes por aí para quem planeja seriamente vir a fazer parte do “clube dos felizardos”, embora eu sinta com bastante convicção que é o fracasso que nos torna humanos, ou nos aproxima de pessoas que são “simplesmente humanas”. O Olimpo é em algum outro lugar, e seus deuses ungidos não agem como o homem do povo. Além do mais, tenho certeza de que existem alguns truques sagrados que eles não desejam compartilhar, apesar dos milhões de dólares gastos e ganhos na publicação de livros sobre o tema.

Mas estou divagando. Voltando de Paris Mountain, decidimos parar no Starbucks perto do supermercado. À primeira vista, por estar localizado num estacionamento, parece mais um café vagabundo num posto de gasolina qualquer. Mas quando entramos, trata-se de um Starbucks, com o mesmo projeto e esquema de cores de todo Starbucks em qualquer lugar no mundo, sem tirar nem pôr. Seria essa uniformidade toda, cuidadosamente planejada, o segredo para o sucesso desse negócio em particular? Devo acrescentar que o café no Starbucks é sempre excelente, embora a comida possa não ser tão boa assim.

O que eu mais detesto no Starbucks é que não importa onde você esteja, seja no Rio, em Paris ou Nova Iorque, é preciso saber exatamente o que fazer para alcançar seu objetivo, e não existe manual de instruções. Então, peguei meu café e o do Alan — ele ficou esperando a comida — e fui direto para o balcão de leite & açúcar, onde descobri que a garrafa térmica de leite estava praticamente vazia. Tentando agir como quem está por dentro, avisei a garota no balcão de café e fui mais longe ainda: levei até lá a garrafa vazia e a deixei bem ao alcance dela antes de procurar um lugar para sentar.

Sobre a mesa havia um exemplar do New York Times, e Alan começou a ler com o maior interesse, algo para mim difícil de entender. A menos de uma hora atrás ele estava criticando duramente o jornal, pela postura política e por todas as “mentiras” que eles publicam todos os dias. Eu não estava a fim de ficar discutindo, tampouco de ficar insistindo no fato de achar o jornal importante. Menos ainda nessa primaveril manhã de domingo, tendo sido rejeitada pela enésima vez.

Precisava urgentemente me distrair dos meus pensamentos negativos, então comecei a observar os clientes, enquanto minha mente simultaneamente viajava para o passado, tentando resumir tudo que conquistei até este momento. Embora, claro, tendo mudado de rota tão violentamente quando saí do Brasil, minhas chances de obter resultados positivos tinham diminuído incrivelmente. Para o resto da vida. Eu nunca seria capaz de me encaixar.

A garrafa térmica de leite continuava lá, em cima do balcão, exatamente onde eu a tinha deixado. Intocada. Alan, todo contente de volta em casa depois de seu próprio autoimposto exílio, foi direto ao ponto, digo, à garrafa certa de leite, e dela eficientemente se serviu, enquanto o melhor que pude fazer foi pedir à pessoa errada para encher a garrafa errada colocada no balcão errado.

Em minhas idas e vindas mentais, comecei a refletir sobre o fenômeno Trump e sobre a multidão que segue atrás do candidato presidencial, qualificada pela mídia como um bando de desajustados, de analfabetos “descartáveis”. Dava para perceber a impecável ironia implícita no fato de que um bem-sucedido bilionário, um possível leitor obstinado dos discursos desenfreados de Hitler — Alan e eu tínhamos conversado sobre isso mais cedo, com base num artigo publicado no Times —, tinha conseguido conquistar surpreendentemente os corações da tal turba despossuída, barulhenta, exigente. Ou seria exatamente por isso, digo, por conta de sua retórica exagerada?

Carinhoso como sempre naquela sombria manhã de primavera, Alan decidiu me consolar dizendo que eu deveria simplesmente me arquivar: não havia a menor chance de eu me tornar uma escritora conhecida no mundo altamente competitivo dos praticantes da língua inglesa, em meio a uma multidão de gente gabaritada, graduada nas universidades de elite. Talvez eu devesse me limitar ao meu português nativo, me contentar com o modesto círculo de admiradores terceiro-mundistas que já conseguira granjear, parar de “cortejar gente que não me aprecia e aprender a valorizar quem o faz”. Em outras palavras, eu deveria facilitar a vida e me dar uma folga, parar de mirar o céu (e começar a encarar meu túmulo, tive vontade de acrescentar).

Tudo bem. Tempo para uma pausa bem-merecida.

— Estou captando a vibração de que você quer ir embora — disse o Alan, pondo de lado o caderno literário do New York Times. Em seguida se levantou, foi até o lixo ao lado da mesa e jogou fora os copos vazios, antes de nos dirigirmos para a saída. A garrafa de leite continuava intocada em cima do balcão de café, e aposto que ali ficaria até que chegasse o faxineiro noturno para limpar o estabelecimento — um empregado estrangeiro, com certeza.

2 Responses

  1. Clara A. Colotto says:

    Crônica linda. Espirituosa e cheia de graça. O sucesso almejado vai chegar. Tenho certeza. Vai acontecer de repente.

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