Cantar pra subir

matzosEu estava à cata de inspiração, vou logo confessando, quando me deparei com um texto maravilhoso de David Brooks sobre o profundo significado de Pessach, a Páscoa judaica, ainda mais profundo do que o sentimento e desejo de liberdade, que é a capacidade de vencer o medo, segundo ele, através de “beijos, conversa e cantoria”, tradução livre.

Sou fã de David Brooks, o colunista do NY Times, outra confissão, sou até meio apaixonada por ele. Outro dia ele disse na TV que era divorciado, solitário, e estava à cata de uma companheira, tentação! Alan que se cuide! Mas só depois do Green Card concedido, é claro. Afinal de contas, como todo mundo sabe, é o único motivo pelo qual suporto meu marido americano há mais de dez anos, planejamento em longo prazo, sabem como é. Pronto! Falei!

De uma certa maneira, esse Green Card quase a caminho vai representar para mim um degrau de liberdade a mais, não me pergunte qual, talvez a liberdade de optar por ficar cá ou lá ao sabor das loucuras políticas e financeiras de cada nação, temperadas de decisões na contramão. Assim que eu descobrir, eu conto.

Se tem uma coisa que é muito bacana aqui nos EUA é a ideia de uma sociedade pluralista. No outro dia, esperando para ser registrada no sistema de identificação americano, vi um vídeo oficial informando que nenhuma pessoa pode ser discriminada com base em sua aparência, procedência ou sotaque (viu, Alan?), desde que consiga uma permissão legal para residir e trabalhar no país, é claro. O que não é tão fácil como pode parecer, como, por exemplo, a tranquilidade para se manter as tradições judaicas — e as tradições chinesas, vietnamitas e mexicanas, entre outras, todas na mesma gôndola do supermercado, sob a denominação “comidas étnicas”.

Em Petrópolis, por exemplo, não tinha matzá (o pão ázimo de Pessach) para comprar; ou a gente descia pro Rio só pra isso ou metia a mão na massa, literalmente, o que fiz por dois anos exatamente. Era bem divertido até, mas aqui é mais gostoso e dá menos trabalho. Mas, afinal de contas, nós viemos pra cá pra comer ou para o Alan se acalmar?

É muito bacana ser judeu nos Estados Unidos, porque, cá entre nós, sem a intenção de humilhar ninguém, boa parte da intelligentsia americana, principalmente a nova-iorquina, é composta de… intelectuais judeus. Como David Brooks, por exemplo, tá bem, tô com o teclado sem nenhuma vergonha hoje, deve ser efeito da coragem de Pessach, ou do vinho, e olhem que nem comecei a beber, só desandei a escrever. Voltando aos nova-iorquinos, tem até umas palavras em iídiche incorporadas ao léxico local e até nacional, como “schmuck” [idiota] e “kvetch” [reclamar].

Por outro lado, digo, aqui do outro lado, é a primeira vez em muitos anos que passo um Pessach — sem trocadilho, sem nem considerar que a palavra “pessach” vem do hebraico “passagem”, de uma vidinha sacrificada para outra mais sacrificada ainda, embora com alguma esperança de melhora — em plena floração. E posso, finalmente, associar a tradicional limpeza do “chametz” à decantada “limpeza de primavera”, motivo de promoções na Amazon.

Chametz”, para quem não sabe, é toda comida feita de farinha proibida para Pessach, pois durante a semana inteira só se come a matzá, uma espécie de bolacha com furinhos e meio sem gosto feita sem fermento e depois moída para fazer a farinha de matzá, que é usada em todas as demais receitas, entenderam?

Tá certo. É difícil. Imaginem que o Alan, que sabe tudo, não sabia, por exemplo, que é de lei recolher o chametz e “vendê-lo” bem baratinho para um não judeu que possa dele usufruir sem nenhuma limitação ideológica, mas eu joguei os restos de pão na lixeira, mesmo.

Outra coisa que achei fascinante e bacanérrima foi que o NY Times publicou um texto de uma garota aí comentando as tradições de Pessach ao longo de sua vida, e até me emocionei de verdade quando vi que essa judeuzada espalhada pelo mundo desde o exílio da Babilônia — que, por sinal, virou o Iraque de hoje em dia — mantém suas receitas onde estiver, receitas de vida, receitas de comida. Mesmo em locais onde muita improvisação seja necessária, afinal de contas, que improvisação pode ser mais radical do que um estoque de pão formado da noite para o dia e preparado para durar 40 anos?

Tudo bem, ninguém pensou que a travessia do deserto sob a batuta de Moisés e a proteção de Adonai — “Nosso Senhor” — fosse demorar tanto (nem que a manutenção da terra prometida duramente conquistada fosse se revelar tão enrolada, cá entre nós), 40 anos, caramba! A meditação de Jesus só durou 40 dias!

Quanto à insegurança crescente que no dia a dia nos perturba, melhor nem mencionar. Mudar de país é muito mais complicado do que as pessoas costumam confessar, quase como uma cirurgia plástica, por exemplo. Ninguém confessa que dói à beça e te deixa arrebentada por várias semanas, meses, anos, a vida toda no caso de um exílio, ainda que voluntário, sub-repticiamente motivado por um sentimento não exatamente expresso ou mal compreendido, como a sutil aflição que me catapultou para fora do Brasil no dia exato das eleições. Quem diria que chegaríamos a esse ponto!

Tá bem, agora entrei em contradição. Mas a verdade é que a aventura da emigração, que começou com o desejo de deixar o Alan mais à vontade e mais feliz da vida em sua própria terra, depois de dez anos perdido num país (para ele) estrangeiro, acabou descambando sem que a gente planejasse numa verdadeira salvação da pátria, ou contra a (minha) pátria. Mas não pensem que aqui nos Estados Unidos estamos a salvo de todas as ameaças que a vida contemporânea nos oferece tão generosamente, como, aliás, sempre foi.

Esta semana, por exemplo, tive que tentar explicar uma piada em inglês sobre o acordo nuclear, pensem bem. E apesar de todo o meu medo de nunca mais ser capaz de improvisar nem fazer rir sem precisar traduzir meus pensamentos um a um para o idioma local, imaginem que comecei sem querer a me aprimorar no inglês, Alan até me cumprimentou no outro dia:

— Olha só, estão dizendo exatamente aquilo que você percebeu na sua crônica!

Bem, melhor nem enfatizar que com todo esse esforço ainda não consegui encontrar uma boa tradução para o que se tornou nos últimos anos o meu ofício do coração: escrever “crônica”, uma tradição carioca com toda certeza, mesmo quando praticada por escritores mineiros. No meu caso, em busca de uma frustrante e quase impossível internacionalização: se antes eu sonhava ser publicada n’O Globo, agora sonho aparecer no incensado NY Times, ih, piorou.

O jeito é cantar pra subir.

Boa Páscoa! E bom domingo procês!

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