Caos e confusão

paris-ch_00000Quando a gente decide que quer dedicar a vida a escrever para outro ler, um dos primeiros conselhos que se ouve é que se deve “escrever sobre aquilo que se conhece”.

Faz sentido. Se tem uma coisa da qual qualquer pessoa entende, é aquilo que com o tempo se transforma em nossa “experiência de vida”, certo?

A melhor, mais profunda filosofia é baseada em reflexões sobre a própria vida, ou sobre a vida de cada um, e espera-se que a qualidade do resultado, não sei se por causa ou consequência, venha a refletir a inteligência, o conhecimento e a sensibilidade de quem escreve, atingindo idealmente o entendimento de quem lê. Um bom começo.

Só que hoje essas regras simples estão tão em desuso quanto o fato de que antigamente a pessoa nascia, crescia e muitas vezes morria sem tirar o pé de seu povoado onde todos a conheciam. As instruções eram claras, diretas, e somada a um pequeno arsenal de conhecimento humano acumulado, existia a certeza de uma vida tranquila no seio da família. Poucos se atreviam a extrapolar esse limite, e além dele havia sempre um risco. O risco da aventura. O risco do sucesso. Ou do fracasso. O risco do desconhecido. E o risco de uma desconhecida e ambicionada felicidade.

A atração pelo desconhecido era, então, motor e motivo da expansão do conhecimento. Cada arcabouço de ideias tinha seu tempo natural de maturação, e caso se provasse o valor daquela reflexão, ela poderia ser registrada em livro e acrescentada ao arsenal de ideias existente e assim se voltava ao ponto de partida com a humanidade um pouco mais enriquecida.

Era um mundo em que se sabia pouco, mas em que esse pouco era bem sabido, sem a consciência dolorosa do quanto era limitado.

Separados desse cotidiano tranquilo viviam os grandes líderes e seus heroicos comandados, cujo cotidiano era a guerra da qual retornavam de tempos em tempos para “férias” em família, caso ainda estivessem vivos. Volta e meia se podia esperar que uma tragédia ocorresse, uma falha dramática na defesa do burgo, invasão, morte, destruição.

Nada nem ninguém era indiscutivelmente bom nem indiscutivelmente ruim. Tudo variava de acordo com a circunstância, e com o povo que se colocava em primeira instância. Os outros se arranjavam como conseguiam.

Havia a noite. Havia o dia. Deus os havia separado há muito tempo atrás, o livro explicava, dando início a um movimento de constante evolução, melhoria, civilização. Sobre tudo isso, pairava uma certeza ainda maior, infinita, envolvente, capaz de explicar todas as incertezas restantes: a fé num ser que nos amava e protegia e que tudo sabia e que, sob as circunstâncias corretas, compartilharia de tempos em tempos o seu saber. Tudo o que não era explicável pela via racional o era pela via espiritual.

E aqui estamos. Tudo isso tem pouco a ver com o nosso mundo atual, onde somos obrigados a viver seguindo regras que desconhecemos e que mudam a cada dia, onde a comunidade na qual convivemos dissolveu suas fronteiras numa realidade virtual, transformando o mundo na tão decantada “aldeia global”. Na qual, negando os prognósticos mais idealistas, não somos todos irmãos. Ao contrário, somos todos estrangeiros. E a cada dia mais estrangeiros nos tornamos, nosso cotidiano organizado cada vez mais mergulhado em caos e confusão, todos falando ao mesmo tempo com pouca propriedade sobre aquilo que dizem, ou pretendem dizer, numa língua comum na qual, infelizmente, ninguém mais se entende. Todos tentam se guiar como podem pelos parâmetros mais avançados, modernas palavras de ordem divulgadas em tempo real pelos canais de notícias, ininterruptamente, noite e dia, hashtags criadas ainda ontem nos tuites mais recentes. Numa competição sem precedentes, buscam os sentimentos mais elevados, o humanismo mais exacerbado. Que com não pouca frequência desemboca no seu oposto exato.

Há um amplo desentendimento em curso. Seria a prova de que o futuro é na verdade o passado? Estaria o universo se encolhendo de volta ao ponto concentrado onde tudo teria começado?

E frente aos terríveis últimos acontecimentos, por que escolhi de repente me refugiar na profundidade dos pensamentos, tão radicalmente distanciada dos fatos?

Num primeiro momento, reconheço, não deu muito certo para mim expressar por escrito meus mais sinceros sentimentos. Eles eram de ódio, revolta, impedimento, próximos de mim e no entanto terríveis desconhecidos. Cheguei ao cúmulo de ver minha crônica sobre o atentado, escrita às cegas no escuro dos fatos, a mente tropeçando num líquido que parecia água morna, mas era sangue sendo derramado, ser censurada por um grande portal alegando um conteúdo “ofensivo e perigoso”.

Ofensiva e perigosa, eu? Fiquei chocada. Não se enganem, como se enganou o robô que me bloqueou. Tratava-se apenas de uma “infeliz” escolha de palavras, “infeliz” para os parâmetros atuais, é claro, porque no mundo hoje em dia muitas palavras são lidas fora de seu contexto, divorciadas, portanto, de seu verdadeiro significado, ou melhor, confundidas num léxico forçado, de tal sorte que a honestidade de propósitos pode ser facilmente empurrada em direção a uma mensagem manipulada.

Muito se tem falado e comentado da boca para fora, um discurso controlado pelas regras desconhecidas de um totalitarismo ideológico ora em curso, embora soe como apenas direto, honesto, derramado. E nisto me incluo. Tudo está desembocando em seu contrário, e da mesma forma que o conhecimento foi visto um dia como pecado, nos obrigando ao exílio do paraíso desinformado, saber de tudo o tempo todo sem tempo para digerir os fatos está se revelando como o apocalipse conectado.

Comecei esta crônica, confesso, com um final definido em vista. Pretendia conduzi-los por um labirinto histórico positivista para ancorar numa conclusão premeditada e bastante óbvia contra o domínio insensato da religião, das religiões, fatalmente desviadas de seu objetivo etimológico original, “religare”, reconexão.  Pretendia condenar a falsa ideia de que um deus criado à nossa imagem nos norteia para tentar entender como uma mensagem de amor e compreensão pôde enfim ter resultado em seu exato oposto, ódio e destruição, como um movimento de expansão pode estar inevitavelmente nos levando à máxima contração, ao momento originário onde todo universo organizado se tornaria o seu contrário, tohu vavohu, caos e confusão.

No meio do caminho, no entanto, me deparei com uma verdade humana muito mais simples, mais direta, mais sujeita à inteira compreensão, e por aqui parei.

Estamos todos, cada um a seu modo, e alguns mais fortemente que outros, incrivelmente distanciados de nosso próprio centro de gravidade, daquele ponto interno de equilíbrio que nos garante a humanidade e a vida possível sobre a terra, daquela realidade que nos mantém de pé e capazes de caminhar, levando o nosso organismo a funcionar sem que dele tenhamos controle consciente e que, por contraste, nos faz conscientes de ter um corpo e uma mente, um resultado que não se deve a uma entidade fora de nós que nos movimenta como se fantoches fôssemos, mas à força evolutiva da natureza que, no nosso caso específico, se baseia no fato de que existe um centro de gravidade, uma força natural que não sabemos de onde vem e que, no entanto, nos define.

Esta força, meus amigos, não está fora de nós. Não está naquilo que outros dizem que é o correto, o desejável, algo que nos forçamos a aceitar para “parecermos” conectados, embora no âmago sintamos que aquilo é descabido, não faz nenhum sentido, e que neste momento está atingindo as raias do incontrolável absurdo, tudo devendo ser tentado para alterar isso.

Não devemos a vida a um ser indescritível que, paradoxalmente, parece-se exatamente a um humano como nós, só que maior, mais imponente e onipresente como talvez desejaríamos ser, pior, mais grave, que se deixa representar à vontade pelo que a humanidade (ou a falta dela) tem de mais abjeto e desprezível. E em nome do qual, infelizmente, tanta destruição tem sido perpetrada.

Sou ateia, não acredito em Deus. Mas não à toa meu marido Alan descreve Deus como a força da gravidade, e parece que finalmente estou a ponto de compreender o sentido disso. A ideia ideal de Deus é não apenas a força da gravidade, mas o nosso próprio centro de gravidade, ao qual precisamos com urgência retornar, cada um de nós.

Uma palavra de cada vez.

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