Carnaval de emoções

valentineAlan ainda não sabe, mas vai ganhar um cartão de Valentine’s que comprei no supermercado sem que ele visse.

Ele merece. Afinal de contas, é nosso primeiro Valentine’s de verdade, nesta terra estranha onde o amor é tão festejado, e quero acreditar que também tão valorizado, que trocam-se cartões não apenas entre os amantes, mas pais com filhos, entre parentes, ou simplesmente entre amigos mesmo, coisa que até hoje eu só tinha visto no cinema, um país em que embora a insistência e o tom de falsidade dos anúncios de remédios e seguros de vida sejam bastante irritantes, os pais dos humanos adultos são classificados oficialmente como “the loved ones” [os amados].

O amor é uma instituição formal, quase tão entranhada na sociedade americana quanto o capitalismo ou a competição — eu ia escrever gratidão, mas acabei na dúvida.

Tem gente que odeia, mas, vamos combinar, descontado o feriado onde buquês de flores em forma de coração, balões em forma de coração e caixas de chocolate em forma de coração fazem a festa dos comerciantes (e se brincar, dos cardiologistas), não há nada de errado em celebrar o amor. E o meu cartão não fugirá ao impositivo figurino da data impactante, muito pelo contrário, virá no modelo clássico, cafonérrimo, fulgurante, com corações vermelhos transbordando purpurinas de seu envelope vermelho também, sendo o vermelho oficialmente nomeado a cor dos apaixonados.

Por que não navegar a favor do pensamento corrente só para variar, não é mesmo? Além do que, vivendo nos Estados Unidos a gente percebe rapidamente por que este país é o paraíso do consumo. Basta se conectar de qualquer maneira com o exterior da sua mente, seja pelo celular, computador, televisão, ou até mesmo uma breve visita ao supermercado conforme a ocasião, para se submeter involuntária e obrigatoriamente a uma lavagem moral que recobre o cérebro consciente, impetuosa e inevitável como qualquer onda emocional que se apresente. Então, que venha o Valentine’s.

De todo jeito e maneira, amar, amor, em todo tempo verbal que se conjugue, qualquer conexão profunda com o outro é tudo de bom, alimenta e faz crescer, mesmo que sejam pontinhos cintilantes de carinho quase perdidos em meio às miríades de conflitos que enfrentamos quase todo dia, afinal de contas, o outro é sempre um universo estranho que devemos enfrentar, caso haja a decisão de se entregar, relaxar, pois no fundo no fundo ninguém é igual, ou somos todos tão iguais que a reação normal é negar-se a reconhecer isso, é sempre chocante o espelho de Psiquê.

Quanto a mim, estou num momento crucial da minha história de amor, um turning point que depois de ultrapassado terá determinado se terei liberdade pelo resto da minha vida ou se terei que me conformar com bem menos do que almejei.

Enquanto estou aqui sentada escrevendo a crônica, que, teimosa como de hábito, está se recusando a seguir seu plano previamente traçado, não me sinto inclinada à óbvia piada, à ironia (nesse caso) insossa com o único objetivo de  evitar me mostrar em público como uma sonsa amorosa, romântica, agradecida, por breves momentos preciosos até mesmo ainda apaixonada pelo próprio marido, algo que não pega nada bem, porque nenhuma dessas desqualidades de uma persona suave e carinhosa combina com a aridez de uma elevada mente de escritora, no meu caso, pelo menos.

Alan e eu cortamos um dobrado desde que aqui chegamos, e a mais dura de todas as rusgas que enfrentamos, pelo menos para mim, foi a hesitação dele em “peticionar” o meu Green Card, a que acredito ter pleno direito, confirmado item por item no detalhado formulário da imigração.

Amigos, sofri. À medida que se aproximava a data fatal — que ainda está até longe, felizmente, mas, vocês sabem, caso batêssemos (ou viermos a bater, porque o processo ainda não foi enviado) de frente com qualquer grau de má vontade ou funcionário incompetente, como ocorreu, por exemplo, no mal afamado Detran local, meu destino estaria traçado: ou seria a ilegalidade ou a impensável deportação, embora o mais provável nesse caso extremo seria que eu optasse por partir para… Nossa. Nem quero pensar na resposta a esta pergunta. Talvez para Paris, para me consolar do maior fracasso que jamais teria enfrentado nesta vida, percebam que estou confusa toda vida, não sei se coloco o parágrafo no futuro ou no passado porque como nada ainda aconteceu, tudo pode acontecer, e qualquer especulação diferente disso é nada mais do que exatamente isso: especulação.

É estressante, meus amigos, confesso. Já fiz tudo que estava ao meu alcance, inclusive me submeter a um exame médico que, além de um teste de tuberculose e de sífilis que se fossem detectadas seria no mínimo humilhante — por que será que até nas coisas mais improváveis a gente duvida de que seguirá adiante? — e das obrigatórias vacinas contra gripe e tétano, incluiu a curiosa confirmação de que “sou mesmo uma menina”. Meio patético, tudo bem, mas a tudo enfrento com disposição e alegria.

Agora, cá entre nós, a coisa que tem me deixado mais calma e quase feliz — porque feliz mesmo, nessa altura dos acontecimentos, com tanta coisa prestes a passar do ponto, seria um tremendo exagero —, é que Alan em determinado dia, há coisa de uns 10 dias, acordou mudado, tranquilo, dedicado, e de uma hora para outra começou a colaborar comigo, a tempo, felizmente, de podermos celebrar o Valentine’s sem aquele ódio recíproco.

Francamente. É tudo medo. Noventa por cento dos problemas de desencontro ocorrem por causa do medo, é o que tenho entendido. E uma vez que esse limite é ultrapassado e esquecido, o alívio que a gente sente é capaz de mudar um mundo, nosso mundo particular com toda certeza. O que se segue é pura energia criativa.

Quando existe um amor toda dor vale a pena, isso, para nem mencionar os inevitáveis momentos prazerosos, a simples satisfação por se sentir amparado, diariamente observado por alguém cuja mera existência ao nosso lado nos dá a maior força.

Recomendo. Enfaticamente.

Um bom domingo procês, desculpem aí se acabei nem mencionando o prometido carnaval, fiquei apenas entregue à emoção viral, mas assim o espírito rebelde da crônica determinou, fazer o quê.

 

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