Carnaval eleitoral

KEENE, NH - FEBRUARY 02: Audience members cheer for Democratic Presidential candidate Sen. Bernie Sanders (I-VT) at a "Get Out the Vote" rally at the Colonial Theater on February 2, 2016 in Keene, Sanders is in New Hampshire campaigning ahead of the state's primary on February 9. (Photo by Andrew Burton/Getty Images)

Photo by Andrew Burton/Getty Images

No Brasil, como todo mundo sabe, o ano só começa depois do carnaval. Ou talvez ainda um pouquinho mais para frente, por que não estender a folga até a segunda seguinte, certo?

Verdade. Brasileiro adora carnaval, o feriado prolongado, o samba na rua, o porre, o sexo proverbialmente liberado. Até quem não gosta na verdade curte, graças à chance de escapar por uma semana inteirinha de tudo o que você mais detesta, sem ligar para as consequências.

Então, terça passada, enquanto assistia aos discursos de vitória nas primárias de New Hampshire — vamos combinar, até os derrotados fizeramseus “discursos de vitória” — me bateu um insight: americanos adoram tanto as eleições quanto os brasileiros adoram carnaval. Tive que comparar a ruidosa aglomeração em New Hampshire àquela outra ruidosa multidão, distante mais de oito mil quilômetros.

Com raras exceções, como o incrível carnaval que passei certa vez em Salvador, Bahia, cheio de paixão e alegria — pra não deixar de lado o aspecto picante, devo confessar que incluiu até mesmo aquele gozo altamente desaconselhável este ano pelas autoridades, por conta da ameaça da zika — carnaval não faz o meu gênero, nunca fez. Ainda mais agora, quando algo profundo está mudando fundo dentro de mim.

Nunca fiz o tipo de me deixar levar pelo orgulho nacional, tampouco. E nem deveria mencionar, tudo bem, mas isso talvez seja devido ao fato de ter vivido tanto tempo num país onde há muito pouco do que se orgulhar, e cada vez menos. Melhor deixar pra lá.

Tanto é que me vi surpresa demais da conta no domingo à noite, quando, só pra curtir o show de abertura — ok, não gosto de esportes tampouco, foi mal, me desculpem por ser tão enjoada —, eu assistia o Super Bowl na TV, ao mesmo tempo em que, na pátria distante, as melhores escolas de samba disputavam seu troféu usual.

Era o Super Bowl número 50, um marco. E embora como estrangeira eu não entenda nada de futebol americano, pude entender muito bem a emoção que pairava sobre o estádio lotado, as performances perfeitamente coreografadas, culminando numa Lady Gaga muito-mais-careta-do que-o-normal, vestindo um terninho vermelho, cantando o hino nacional — o orgulho, a esmagadora devoção expressada por mãos sobre o peito e olhos marejados.

Incluindo os meus. Isso mesmo. Quando dei por mim, estava em pé num canto da sala muito emocionada, lágrimas represadas por uma terra (e um jogo) a que não pertenço de jeito nenhum.

Que diabo estava rolando? Coisa mais esquisita!

Francamente, eu nunca tinha experimentado essa sensação “patriótica”, nem nada parecido. Como escritora criada no Brasil, acabei desenvolvendo um estilo meio “defensivo”, tá certo, raramente compreendido no exterior, sempre irônico, buscando o trocadilho e o lado mais detestável de tudo o que acontece, provavelmente para evitar a possível, provável decepção. Quem sabe um tipo de superstição para evitar o fracasso, sei lá, não que eu acredite nessas bobagens, longe de mim. O que sei é que meus colegas aí no Brasil também cultivam esse jeito depreciativo, uma certeza interna de que, apesar de muito cool, nosso país é muito condenado também: tudo que puder dar errado, certamente dará, e se em algum momento estivemos numa boa isso jamais poderia durar, iria piorar com certeza num futuro próximo.

E assim foi, voilà, desta vez bem pior do que nunca antes na história desta minha vida, e tive sorte bastante para ter dado o fora a tempo de me salvar.

Nada é tão simples, claro. Quem vive no exílio sabe muito bem que saudade faz parte do jogo, e o fato de se viver longe não nos protege da vergonha que a gente sente de tantos desastres ao mesmo tempo.

Ainda que, em algum momento, uma mudança psicológica comece a operar.

Sempre me vi como um animal político, e para um escritor, especialmente para um escritor brasileiro, é muito mais inspirador estar na oposição — no lado da reclamação, se é que vocês me entendem. Para nem mencionar que esse tal lado reclamador tem crescido além da conta, abrangendo uma boa parcela da população em geral — as redes sociais sendo o terreno ideal para todo tipo de queixa ou protesto. Agora, em se tratando de um animal político como eu, para quem a política é muito mais contagiante do que qualquer samba, a temporada eleitoral americana é um verdadeiro festival.

E cá estou, curtindo de montão os discursos vazios, os comícios apaixonados, a multidão mutante, mesmo não sentindo de verdade o que eles sentem, não sabendo o que eles sabem, não votando como eles votam. Me sinto infectada a ponto de me convencer que tantas horas em frente da TV, ouvindo as intermináveis discussões e mutáveis opiniões dos chamados “especialistas” no assunto vão me ajudar a melhorar o meu inglês de uma vez por todas. Pelo menos, pareço ter aprendido o suficiente para escutar os erros que essa gente faz no ar e dar umas boas gargalhadas:

— Alan, como é que essa gente iluminada faz tantos erros em inglês? Que língua difícil, pelo amor de Deus! Nem mesmo os melhores sabem falar corretamente!

Se servir de consolo, uma boa risada. E isso também passará.

Diferente dos brasileiros bem-informados, que cultivam diariamente seu desprezo nacional — justificado, até —, os americanos em geral são bem enfáticos quando se trata de amor pelo seu país. E cá entre nós, isso é muito bom. E muito único também, sob o ponto de vista de uma estrangeira como eu.

Bem, pode até ser que estou realmente mudando, no final das contas. E pensem bem: estou morando num lugar onde o jogo democrático leva um jeito de carnaval local, um espetáculo dos mais apreciados. Dura muito mais do que um fim de semana prolongado, quase um ano inteiro, de três em três anos. E mesmo se o trabalho não para, e os feriados são raros, é na verdade muito divertido. Apesar das gravíssimas consequências.

 

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