Casa nova, vida nova

(ou de como um projeto Bauhaus adquiriu um inusitado telhado sulista)

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É inacreditável como a gente não se livra nunca de um preconceito arraigado, enfiado na infância, ou, segundo psicólogos mais abalizados, antes dos três anos de idade.

Eu, por exemplo, determinei a mim mesma que trabalhar no Natal seria demais da conta, e em seguida decidi que era o dia ideal para escrever a crônica da semana, afinal de contas, “escrever não é profissão”, o que não espanta nadinha num país onde o Ministro da Educação declarou publicamente no passado seu desprezo pelos professores: “Professor é profissão para quem não quer ganhar dinheiro”. Aos bons entendedores, deixo em suspenso a obrigatória comparação.

É. Decididamente, no Brasil o passado não condena, muito antes pelo contrário. Ao que parece, recomenda, mas não vão vocês pensando que estou falando de meritocracia, não, nada disso. Pelo visto, a condição sine qua non para estar por cima da carne seca neste novo governo que se inicia em primeiro de janeiro (ui, arrepio) é um certo grau de intenção criminosa no passado, de ignorância, gosto pelo atraso, isso, para nem mencionar a institucionalização (puta palavrão) da pura e simples roubalheira.

Mas o que é isso! É temporada de festas, minha gente, e embora o passado remoto em nada recomende  a data para os descendentes da fé mosaica como eu, hoje em dia essa diferença já não vale mais nada. O Natal tornou-se impositivo, não uma questão de crença, como antigamente, mas do marketing da alegria e da solidariedade, ops, desculpem, muito inadequado esse meu comentário, mas no Brasil, convenhamos, comentário inadequado tornou-se uma “segunda natureza”, pena que nos outros casos seja prova de vileza, não de transparência e pensamento honesto, ainda que “politicamente incorreto”.

Pois cá estou eu, no meu primeiro “Natal americano”, mais grave, “sulista”. E por falar em marketing consumista, Alan acaba de me dizer que o “Natal é uma festa americana”, pode?

Pior que é verdade, os americanos não só inventaram este Natal que está aí hoje em dia, como também uma longa lista de outras coisas sem as quais aparentemente já não podemos sobreviver.

Embora assim pareça pelo tom aí em cima, não sou nada saudosista, muito pelo contrário. Quando era espiritualista, fui muitas vezes criticada por “mudar radicalmente e queimar as pontes para o passado”, tudo isso, dizem, por causa de um grande quadrado no meu mapa astrológico, ou por outro lado, de uma linha da vida bem longa, porém várias vezes interrompida, sei lá.

Fato é que me reinventar completamente de vez em quando é no meu caso a tal “segunda natureza”. E essa coisa cansa, devo confessar. Embora depois que a crise passa sempre me encontre num ponto melhor para continuar, fazendo do passado não muito mais do que um livro publicado, algo sem grande valor real como já determinamos nos prolegômenos desta crônica, ainda por cima em se tratando de literatura “confessional”, gênero solenemente ignorado em território nacional.

Entre altos e baixos, tempo bom e tempo ruim, devo reconhecer que estou muito bem aqui, e que qualquer possível incômodo provocado por meu choque de realidade em breve não passará de um livro como todos os outros. A noite passada, por exemplo, sonhei que tinha voltado para o Brasil, e para o Rio 40°, imaginem só (já não se fazem 40 graus à sombra como antigamente, agora é “uma sensação térmica de 50°”). Estava procurando apartamento para alugar, e muito misteriosamente, como só os sonhos soem ser, todos os lugares considerados eram locais onde já morei no passado. Pouco antes de acordar, a corretora estava me oferecendo a minha velha cobertura na Padre Leonel Franca (vulgo Autoestrada Lagoa-Barra), com vista para o túnel Dois Irmãos, hoje Zuzu Angel — nome estranho para mim, pois conheci Zuzu pessoalmente, antes de sua luta perdida contra a ditadura militar, Deus, como ela era de elite (leia-se “muito chique”).

E muito encalorada, sem carro e quase sem nada, me mostrei altamente interessada, enquanto revia na mente o apartamento em seus mínimos detalhes ruins (uma “hurveh”, desgraça, ruína, como o rotulou mamãe, antes da extensa reforma que o tornou lindo), algumas coisas, é claro, tendo dado uma boa piorada, como o trânsito intenso para a Barra, por exemplo. Ui.

Ah, é, quase sem querer já fui cedendo ao impulso “natural” — naturalmente imposto pela mídia e bastante agravado pelo advento das redes sociais — de fazer um balanço no fim de cada ano.

Não vou perder meu tempo com as tais resoluções, que mais não são do que meras distrações para nos aliviar do medo dos desafios sempre à nossa espera, a não ser que tenhamos decidido não mudar e não evoluir nunca, como, aliás, parece ser o movimento em certos segmentos de grande expressão atualmente no Brasil.

E para que não me venham com as maledicências da inveja, vou logo contando que de todos os lugares dos Estados Unidos, vim logo cair neste “sul profundo”, onde a misoginia de plantão, imaginem, faz todo o esforço do mundo para “manter a mulher em seu devido lugar”, embora, claro, devido à intensa divulgação dos nossos direitos em todo o planeta — menos nos países muçulmanos, não custa comparar —, estejam fadados a fracassar.

Quando percebi que certos profissionais locais só se dirigiam ao Alan, como se eu nem ali estivesse, e nunca apertavam a minha mão, como se eu tivesse uma espécie de doença muito contagiosa (talvez bastasse essa mania de igualdade entre os sexos — com uma leve superioridade feminina, obviamente — que não me larga nem me dá uma trégua, me colocando numa eterna guerra), pensei, sinceramente, que estava “viajando”. Mas numa conversa no domingo passado tive confirmada essa minha impressão: “A Carolina do Sul”, me contou uma nova amiga, “é um dos estados mais retrógrados dos Estados Unidos”, mas só, deixem-me esclarecer, no que diz respeito à independência da mulher — frontalmente combatida pela igreja e pela educação familiar, apesar do fato de uma realidade acachapante de que  um homem sozinho, “vítima um tanto confusa”, como lembra a minha amiga, “de seu próprio  condicionamento limitante”, já não seja capaz de se sustentar, que dirá a uma família de muitos filhos, pois imagino que o controle da natalidade deva ser igualmente desestimulado —, tendo uma economia em crescimento e uma conexão em expansão, ainda que um pouco mais lenta do que seria de se desejar.

É, não se faz mais primeiro mundo como antigamente, se é que vocês me entendem. Nada é absoluto nesta vida, mas, não reparem, tudo isso não passa de uma vingança boba por estar sendo obrigada a colocar um inusitado telhado no projeto Bauhaus da nossa nova casa, nada de “form follows function” desta vez, como sonhavam as mais modernas mentes… no início do século XX! Retrocesso é tudo de bom, e eu (finjo que) gosto!

De toda maneira, “everything’s fake in America”, dos tijolos “aparentes” às falsas telhas. No frigir dos ovos sem colesterol, tenho certeza de que a tradição provará ter ao menos um pingo de razão, ao menos nos dias de neve e furacão.

No mais, é tudo alegria! Muita bebida e pouca nostalgia! Há males que vem para bem, e muita reviravolta também, como, para fechar com brilho, o fracasso retumbante dos ciberterroristas no “affair Entrevista”. Oba.

Bom domingo e um feliz 2015!

 

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