Cataclismas, carnavais

Caetano_612_div_(1)Para C.

 

Eu já ia com a crônica a meio caminho quando o assunto se perdeu, tinha até título já, muitas vezes a parte mais difícil: “O crepúsculo de Caetano”.

Vou explicar. Como não moro mais no Brasil, de duas uma: ou fico por fora dos temas mais atuais, aqueles que nem sempre estão nos jornais, ou me sinto já desligada de uma desgraça ou outra, e sabe deus que desgraça pouca não tem sido nenhuma bobagem ultimamente. Vai daí que vez por outra um amigo mais chegado me manda um recado, um problema mais sério que pode ter me passado despercebido, ou que saiba que é de meu máximo interesse, como, por exemplo, o caso de Caetano no último fim de semana.

Pelo que ouvi, Caetano teria recebido um polêmico pedido de Roger Waters para cancelar sua participação num show em Israel no final de julho. Como todo mundo sabe, os liberais deste mundo acham bonito advogar de graça (ou muito bem pagos) do alto de seus palcos iluminados e camarotes recheados em favor das vítimas e minorias, e para eles, no caso do conflito Israel x palestinos, estes (des)favorecidos seriam obviamente os palestinos.

Não poderiam estar mais errados, mas não ligam para o conhecimento, uma atitude que tem se tornado cada vez mais corriqueira. O grande escândalo da semana nos Estados Unidos, por exemplo, é que, motivado aparentemente por algum escuso motivo financeiro, um sujeito aí, persona non grata na Casa Branca, influenciou por email as decisões de Hillary Clinton à época da intervenção americana na Líbia que resultou na morte de Muammar Khadafi, ufa, não vou entrar nesse mérito que vocês já devem estar bodeados com essa confusão estrangeira.

A questão é que a figura citada de Líbia não entendia nada, e também aparentemente (porque hoje em dia ninguém pode ter certeza de nada) a morte de Khadafi foi mais uma dessas desgraças de Pandora que acabam resultando no efeito oposto ao desejado, como o enforcamento de Saddam, outro exemplo, que ao final da maldita guerra do Iraque liberou os cachorros que hoje conhecemos por ISIS, todos farinha, embora de sacos muito diferentes.

É. O mundo está muito complicado. Cada vez mais menos gente sabe do que está falando, e nem por isso deixa de falar pelos cotovelos. O lado triste é que muita gente sensata acaba dando para trás, como uma amiga minha, por exemplo, que no ano passado não resistiu à pressão contra suas opiniões na internet e acabou se retirando, nunca mais a ouvi brilhantemente ponderando. Uma perda.

Esta semana, por exemplo, o ícone do conservadorismo americano Bill O’Reilly declarou em seu programa diário que a internet é um esgoto do qual faz questão de se manter afastado, não sem logo em seguida informar ao telespectador que poderá visitá-lo em seu site billoreilly.com e mais uma meia dúzia de endereços na web, contraditório, não?

Eu, por mim, devo boa parcela das minhas atividades diárias às oportunidades abertas pelo advento da internet, e embora esteja no momento muito necessitada de uns dias de férias longe do computador, dificilmente me recolherei ao silêncio de uma privacidade desconectada num futuro próximo. Resisto. A vida, como vocês sabem, é combate, que aos fracos abate, que aos fortes, aos bravos, só pode exaltar. Mas isso tem sido exagerado demais ultimamente, vamos combinar.

Voltando a Caetano que ficou lá para trás. Meu amigo estava muito indignado, porque, cobrado a respeito do pedido de Waters, Caetano teria chegado a declarar em seu show em São Paulo “Israel, não, Palestina, sim” para milhares de pessoas, e a imprensa teria dado destaque à notícia numa atitude claramente anti-Israel como se tornou moda nos últimos tempos. Mas no dia seguinte li a carta que o cantor escreveu a Waters dizendo que “tinha muitas dúvidas a respeito de tema tão complexo”. Meu amigo insistiu, disse que Caetano se acovardou, mas na verdade não sei a sequência exata, ovo-galinha, show-carta, então concedi a ele o benefício da dúvida.

Sua declaração na carta, a meu ver, foi muito adequada, pois o tema é realmente complexo, e dificilmente alguém que não esteja envolvido emocionalmente, como eu e também o meu amigo, vai querer se aprofundar para entender o que acontece realmente naquele pedaço explosivo de mundo onde está encravado um núcleo de primeiro mundo, que conta com a maior criatividade tecnológica que este planeta já viu, é, estou falando de Israel, um país democrático onde cada um fala o que quiser, onde e como quiser, na lata, doa a quem doer, porque como todo mundo sabe, onde há dois judeus há três partidos políticos, eita povinho politizado, sô, e eu não nego a raça.

Isso não impede ninguém, é claro, de se manifestar violentamente contra algumas coisas e a favor de outras, ao sabor da manipulação da mídia que, como pouca gente sabe, não serve à verdade, mas ao dinheiro, como tudo o mais. O que me preocupa é que está todo mundo, e nisso me incluo, ficando viciado numa realidade hiperpolarizada. Não passa uma semana como vocês têm visto sem que eu tenha um assunto polêmico e trágico para discutir, serão os fatos ou serei eu? Sei lá. A vida está mudando e (não) somos obrigados a acompanhar.

Enfim, vou contar uma historinha. Fazia todo o sentido eu ter intitulado a crônica, aquela outra, “O crepúsculo de Caetano”, uma clara referência à icônica ópera de Richard Wagner de nome bem parecido. Wagner, como todo mundo sabe, era adorado por Hitler, considerado pelo nazista como a verdadeira alma da cultura alemã, e era mesmo. O problema é que depois da guerra, com o espirito imensuravelmente ferido, os judeus que sobreviveram e foram para Israel — ah, é, Israel, na época um protetorado britânico, foi entregue aos judeus para que tivessem um lar depois de terem sido dizimados num dos episódios mais vergonhosos de que a raça humana tem notícia, embora oficialmente o Irã diga que é tudo intriga da oposição, e que o tal “Holocausto” nunca teria ocorrido, as ossadas  empilhadas de Auschwitz devem ter sido algum precoce efeito especial, sei lá — pois os judeus de Israel, não custa repetir, houveram por bem tomar alhos por bugalhos e boicotar tudo que fosse ligado à cultura alemã, e vamos combinar, não era pouca coisa, Goethe, Wagner, Volkswagen e otras cositas más, tudo proibido na Terra Prometida.

Era um sofrimento. Além de terem que lidar com suas memórias torturadas os europeus exilados deviam se privar de sua cultura elevada em nome de uma ideologia, e ai de quem ousasse duvidar de que era a coisa certa a fazer.

Pois bem. O tempo, felizmente ou não, cura todas as feridas, pelo menos na superfície. Vai daí que na minha última visita a Israel, ainda com mamãe, para os 50 anos da “nossa” independência, houve um concerto celebratório no parque ao ar livre, se não me falha a memória sob a batuta de Barenboim, e no programa, pela primeira vez em 53 anos, os israelenses ouviriam Wagner, muita gente naquela plateia nunca o tinha escutado ao vivo. Foi emocionante.

Meu ponto, como vocês podem ver, não é exatamente o perdão, mas o perdão daquilo que no final nos machuca mais do que àquele a quem não podemos perdoar, porque não se pode passar uma vida inteira odiando.

Mesmo acreditando que Caetano havia feito realmente aquela nojenta e mal informada declaração antissemita (dando os nomes aos bois) em seu concerto em São Paulo para centenas de milhares de ouvintes engolirem, eu já estava intimamente predisposta a perdoá-lo, se é que vocês me entendem. Caetano é um ícone da minha geração, embalou tantos momentos preciosos nos quais prevaleceu a emoção, e além do mais percorreu aquela trajetória clássica dos nossos heróis da ditadura, exílio, censura etc. e tal, é meu Wagner de certa forma, desculpado o exagero da comparação. Certamente em sua solidão londrina terá aproveitado o excesso de tempo livre para estudar melhor os funcionamentos deste mundo cruel, e isso o qualifica um pouquinho mais a se comportar como um verdadeiro humanista, não um cego e surdo mas nunca mudo esquerdista radical como temos tantos nesta maldita vida conectada.

Para sobreviver, e isso digo a mim mesma, vamos ter que aprender a relevar um pouco este cotidiano violento a que estamos constantemente expostos, muitos cataclismas e quase nenhum carnaval.

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