Chapados na América

stoned-kids_vice_640x360“Vamos nos matar!”,  Alan me envia uma mensagem pelo skype.

“Você primeiro!”

“Não. Vamos juntos, pular do alto de Paris Mountain.”

Ele está na sala, teclando em seu computador no chão, em “decúbito ventral”. Eu estou no banheiro, mas não estou (…) para vocês, nada disso. É apenas o único lugar que encontrei para me sentar com um conforto relativo em nosso apartamento pelado, tendo à minha frente o computador apoiado numa mesa (no caso, a bancada da pia).

On the bright side, temos um apartamento! Mas isso acho que já contei, não é? Quanto aos móveis, compramos ontem alguma coisa genérica na Amazon (meu coração de designer sangra!), e no máximo daqui a uma semana  the books will be on the table, not in the tablet, hahaha. E estarei super antenada no trabalho, super atrasada, digo.

Nosso apartamento em Haywood Road é supertranquilo, superpequeno. Não há montanhas imponentes lá fora como no Vale do Sossego que abandonamos, apenas outros sobrados como o nosso (é um condomínio de casas de dois andares, com quatro “apartamentos” cada). Mas todo mundo é educado, em geral bastante calado, e as árvores começam a se tingir daquele espetacular tom laranja que no Brasil a gente só conhece de filmes, ou de viagens ao exterior. Em breve teremos neve!

O laranja — minha cor favorita, aliás — está por todo lado, oba, é o “novo preto”.

Quando descemos de Pelham Road pela “nossa” Haywood indo para casa, as montanhas azuis ao redor são ainda mais lindas que as da descida de Itaipava vindo do Rio na BR 040, quem vai lá nos fins de semana sabe do que estou falando.

Greenville é uma cidade linda, vamos combinar, de qualquer ângulo que a gente se dispuser a olhar. No alto da Pelham tem aquele horizonte amplo, azulado, 360º de montanhas onduladas abaixo de nós. Uma beleza. O downtown, onde já almoçamos umas quatro vezes, é muito charmoso, mesas na rua, cozinha internacional. A comida é sempre boa, e os preços idem, chego a pensar que sai mais barato comer na rua. E é mais lúdico também, não precisa lavar a louça!

Mas Alan está mais neurótico do que nunca, vê Ebola e outros vírus por todos os lados: nas mãos dos cozinheiros, nas máquinas que cortam frios no supermercado, no espirro das garçonetes, viva-se com uma paúra dessas! Já avisei a ele que com 10 anos de Brasil ele está imunizado para o que lhe resta de vida, mas não adianta, ele não acredita, fazer o quê.

A pura verdade, meus amigos, é que há 15 dias no país (ou fora do país, dependendo do ponto de referência), ainda estou, estamos em choque. Melhorando, mas em choque. Alan confirma a minha impressão, não dizendo que é preciso muita coragem para fazer o que fizemos, mas muita “energia”.

Estamos esgotados. Ele, por falar nisso, nem parece que está de volta a seu próprio país, acho que se tornou abrasileirado de uma vez. Ah, e tem o problema do crédito, claro, que se não me engano já mencionei — tá bem, neste ponto parei, e fui conferir na crônica passada, porque com toda essa canseira nem precisa de alzheimer para esquecer um tanto de coisas. Na mesma linha de pensamento até pesadelos tenho tido, onde perco meus documentos e sou arrastada por desconhecidos com a ameaça de ser drogada, afogada, imaginem que na noite passada acordei gritando, algo que só me aconteceu umas duas vezes na vida, e fui salva, isto é, despertada por Alan do meu pesadelo (mais uma vez, hahaha).

Voltando ao crédito. Enquanto no Brasil a gente foge do crédito como o diabo da cruz, aqui nos EUA todo mundo foge de quem não tem crédito, dever é uma obrigação do cidadão, digamos assim, sem trocadilho por favor. E a nossa situação, pão-pão, queijo-queijo, é a seguinte: eu, estrangeira, obviamente não tenho histórico nenhum como já disse, e Alan, por ter ficado dez anos ausente, tampouco. Seria melhor termos crédito ruim, passagem pela cadeia, sei lá, talvez facilitasse as coisas, ao menos não seríamos tão “invisíveis”.

Imaginem que depois de transferirmos quase todo o nosso patrimônio para um banco local, de bom prestígio na Forbes segundo o Alan que o escolheu, descobrimos que não nos dariam nada em troca, nadinha, estão se lixando para o “saldo médio”, conceito que desconhecem. Por outro lado, descobrimos meio tarde que o Bank of America nos daria tudo sem exigir quase nada, até cartão de crédito, et voilà, em uma semana estaremos escapando aos fatídicos 6% do PT (tá bem, foi maldade minha, duvido muito de que uma vez no poder  o PSDB cancele esses 6% de IOF dos cartões de crédito brasileiros), oba. E daqui a um ano… teremos crédito!! Um ano passa rapidinho, não é? Pois é. Prometi a vocês que minhas “crônicas de Greenville”, isto é, de gringa, diriam a verdade sobre emigrar, nada mais que a verdade, sem anestesia. E aí está.

Esses erros iniciais são comuns num país estranho, eu sei, leva tempo até acertar a marca de manteiga com o “melhor custo-benefício”, hahaha. Só rindo! Outro erro hilário que cometi (reparem que escrevi no singular, pois Alan “não se mete com essas coisas mais banais”, cai tudo em cima de mim) foi com a smart TV, que eu já tinha comprado no Walmart por uns poucos trocados quando pedi socorro ao meu irmão do outro lado do Atlântico (ui, em breve já não fará sentido mencionar essas bobagens de Lula, graças a deus).

Meu irmão sabe tudo, é muito bem-informado, e disse que a TV ser smart não ajudava em nada, o que eu precisava mesmo era do incrível, extraordinário Chromecast, aquele usbzinho baratinho do Google que transmite internet para a TV. Fiquei jururu, me sentido bem menos smart do que o aparelho, devo confessar, tudo por preguiça de ler o manual! Tenho certeza de que vocês me entendem! O negocinho, comprado na Amazon, chegou bem depressa, e depois de instalado… decepção! Os filmes não passavam, pois há incompatibilidade com o Silverlight, sistema do Windows usado pelos vídeos da Amazon.

E as lágrimas rolavam, rolavam (depois de velha e exilada dei pra chorar por tudo, até por optar pela direção errada numa rua que desconheço, Alan fica desesperado), até que descobri um botãozinho em forma de “V” bem no centro do controle remoto da smart TV, que, maravilha das maravilhas, é tão inteligente que já vem com o app da Amazon instalado, imaginem! E habemus filmes, pois! Os mais recentes e mais legais que a gente quiser escolher, na telona da nossa TV sem nenhum intermediário a mais, a não ser um punhado de dólares, é claro. E lá se foi o Chromecast para a gaveta dos gadgets abandonados, onde com certeza não ficará sozinho!

Bem, já estou me alongando, devo estar entendiando vocês, desculpem aí. Só preciso contar mais uma coisinha importante: acabo de receber um email de boas-vindas da nossa verdadeira comunidade, para onde nos mudaremos se deus quiser o mais rápido possível, isto é, assim que conseguirmos construir nossa nova casa: Stoneridge, em Paris Mountain. Fomos convocados para a nossa primeira reunião de condomínio, delícia, me imaginem indo com prazer a uma reunião de condomínio! É, as coisas mudam.

E sabem como somos chamados, nós, os afortunados proprietários daquele pedaço de Paraíso? “Stonies”. É isso mesmo. Para quem anda stoned [chapado] o tempo todo mesmo sem ter fumado, soa muito adequado! Paris Mountain, afinal de contas, é mesmo inebriante, e tchau procês!

Bom fim de semana! E sendo esta a minha última crônica antes das fatídicas eleições, não se esqueçam: Aécio neles! E estamos conversados!

 

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