Chromeprometida

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A crise desta semana, ainda sob o impacto do último édito do amado Mágico de Oz aliviando o peso da vigilância do Estado americano sobre seus cidadãos e até governos estrangeiros, aí incluída a ofendida Dilminha, vem complementar nossa nítida impressão, nossa crescente conscientização de que “não estamos mais no Kansas”, plural majestático, é claro.

Não me levem a mal. Não é que eu seja contra a maior liberdade e menor vigilância, nada disso, mas, cá entre nós, hoje em dia tudo tem um preço caro que devemos pagar.

Enquanto os compatriotas se horrorizam com a incontrolável derrama de escândalos na Pátria Abandonada, do lado de cá fiquei horrorizada com a ingerência e violência deste Estado inflado contra Aaron Swartz, um geniozinho judeu de Harvard desses que com um estalar de dedos revolucionam nossa experiência diária, no caso uma espécie de “hacker” bem-intencionado, “hacktivista”, se é que isso existe. O filme que assisti quer nos convencer que sim.

A grande contribuição de Swartz para a liberdade na internet, que acabou sendo igualmente a sua sentença de morte, foi perceber que estudos financiados pelo governo terminavam irremediavelmente distantes do acesso público, intermediados por sanguessugas conectados que cobravam uma taxa considerável por algo que em tese (sem trocadilho) já teríamos pago, visto que os recursos para tais pesquisas aqui nos Estados Unidos são gerados pelos impostos, altíssimos, aliás, o leão local é voraz. Daí que numa ação ao mesmo tempo ousada e transgressora, mas também ligeiramente criminosa (a fronteira é tênue), Swartz baixou em seu computador centenas, milhares de teses armazenadas no JSTOR — biblioteca digital acadêmica americana — e as disponibilizou para quem quisesse ler. De graça.

Outra coisa meio bacana foi ter impedido o congresso americano de pôr, uma não, várias moscas na nossa SOPA, trocadilho terrível que só faz sentido em português, para variar: SOPA (Stop Online Piracy Act) foi um projeto de lei enjeitado devido ao ativismo de Swartz que pretendia “controlar” a violação de direitos autorais online, pelo que entendi controlar demais, de um jeito que inviabilizaria vários sites que amamos, como a Wikipedia, por exemplo, da qual Swartz foi editor.

O caso é que nem todos esses meninos com sabedoria de hackers são pessoas do bem como esse aparentemente ingênuo Aaron Swartz, que sob o peso da investigação oficial acabou se enforcando aos 27 anos em seu apartamento do Brooklyn, Nova York, em 2013. Na verdade, muito poucos, e aprendi isso esta semana do jeito mais difícil.

Claro que essa farra toda de ter escapado a tempo do crescente descalabro tupiniquim para usufruir do primeiro mundo tem seu custo elevado, e não estou falando do aluguel do apartamento nem da construção civil, muito menos dos honorários de advogados dos quais até hoje consegui escapar com louvor.

Aqui chegando, minha primeira providência foi me desforrar daquela frustração comum a quase todos os brasileiros: o preço alto de um computador. Como meu Dell já andava meio mal das pernas, travando a toda hora, entrei no Staples da esquina e adquiri um super Toshiba, mas isso eu já contei. Ainda na primeira semana, instalando os softwares e aplicativos e preparando a “máquina” para o batente, decidi baixar da web umas fontes que estavam faltando na nova versão do inDesign.

Ah, pra quê. Logo fui tomada de assalto por uma praga que se não esfaqueia, esfola, o tal vírus “Tiny Wallet”. A coisa se enfia nos intestinos da máquina de uma tal maneira que você nunca mais consegue se livrar, pensa que apagou tudo, mas de repente, voilà, a praga incubada ataca. Foi meu “desvirginamento” internacional, e até hoje venho lidando com as consequências desse estupro virtual, que como ensinou mamãe, “botei nas costas” e tentei esquecer.

Sete meses depois, na semana passada, meu computador começou a ter um comportamento errático, e eu não sabia por quê. A busca no Google volta e meia era interrompida, e de repente recebi um aviso de que “havia me excedido nas pesquisas”, uai, que negócio seria esse? Tais pesquisas são a pièce de resistance do meu trabalho diário, já que carinhosamente intitulo a minha técnica “edição Google”, algo impossível há poucos anos.

Consultei meu mano Caetano, que é também meu “mestre de web” mineiro e a quem recorro nas piores emergências da internet. Ele me aconselhou a tomar algumas medidas de segurança, desconectar do Chrome, desligar o computador, entrar de novo, mas nada ajudou. Fui levando, com a máquina a cada dia mais estranha, até o iconezinho do Chrome na barra de ferramentas tinha sumido.

Ontem de manhã percebi que meu Word estava igualmente esquisito. Começaram a aparecer uns caracteres orientais na barra de fontes, e quando eu contava as palavras vinham discriminadas as “palavras em caracteres asiáticos”, mas o que seria isso? A definitiva invasão da modernidade pela China?

Não era o pior. Descobri que nem o Skype nem o Word estavam permitindo conexão com a web, e isso estava me atrapalhando, pois impedia as constantes atualizações e até a instalação de uma ferramenta de revisão em grego de que eu estava precisando.

E então o Chrome, aparentemente fracassando numa tentativa de atualização, me convidou a conhecer as “novas instalações de segurança do Google”.

Surprise, surprise: havia três computadores usando a minha conta! Três! Todos em território americano!

Bem, para encurtar a história, fiz tudo o que me foi recomendado e no momento os invasores foram defenestrados. Tudo voltou ao normal, e reinstalando o Word a invasão chinesa também foi combatida. Foi uma trabalheira danada, todas as senhas tiveram que ser trocadas, dia típico do “inferno virtual”, fora o medo de todo o meu pecúlio ter-se evaporado, pensam que estou exagerando? Como disse uma amiga aí de Facebook, comentando o esfaqueamento da estilista no Rio, “pensam que estou vendo Big Brother demais”?

Pois saibam que aqui nos Estados Unidos o “roubo de identidade” é um crime tão comum que o seguro contra tal modalidade é anunciado na televisão. Alan, que já era histérico no Brasil no que se refere à atividade online, está muito pior, pois vários de seus medos estão justificados.

Agora me pergunto, será que Obama foi mesmo um sábio justo ao diminuir a vigilância online sobre os cidadãos? Será que o filme criticando como bárbaro abuso da lei o triste fim de Aaron Swartz está mesmo fazendo a coisa certa? Ou tudo não passa de incompetência oficial, de um vasto equívoco com tintas de justiça, como a fracassada e perigosa atuação americana no Oriente Médio?

Não sei. O que sei é que embora haja a cotidiana possibilidade de agora trilharmos sem muitos sobressaltos a famosa estrada de pedrinhas amarelas, cada vez se tem menos certeza de quem amealhará o pote de ouro debaixo do arco-íris.

Parafraseando Riobaldo, viver é muito perigoso, tá doido, sô, ai que cansaço.

E um bom domingo procês!

***

Para ser justa, enquanto escrevíamos (!) a crônica o NY Times anunciou como “última notícia” que a administração Obama, secretamente e “sem consultas públicas”, na verdade ampliou suas atividades anti-hackers através da N.S.A. Por outro lado, os chineses estão sendo acusados de fazer uma maxi-invasão nos computadores do governo dos Estados Unidos, roubando dados registrados desde 1985, imaginem. Que mundo!

Isso, pra nem confessar que descobrimos que os malditos do Oregon (mas Caetano disse que também podem ser da China, profética, eu) usaram meu email ilegalmente e fui bloqueada como spammer!

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