Circunflexões

dancers-by-bertil-nilsson-01Mais vale um mau acordo que uma boa demanda.

Provérbio português

 

Devo começar esta crônica com uma confissão para variar: escolhi deliberadamente escrevê-la antes da hora, enquanto me encontro num dos pontos mais baixos da minha “curva de humor”. Isso, porque acredito, de certa forma, que a depressão — talvez no meu caso fosse mais adequado dizer “a mais completa exaustão” — seja bastante prolífica quando se trata de literatura. Então, deixo de lado por breves momentos de prazer (ui, contradição) minhas múltiplas personas obrigatórias e me concentro na cronista, na cronista deprimida, digo.

Volta e meia me lembro de mamãe me ensinando a entender que “quando eu estava com fome ou muito cansada, eu sentava e chorava”. Pois ontem à noite me sentei e chorei, e sigo chorando desde então, um legítimo colapso nervoso.

Não importa quão grande seja um desafio que encontramos nesta vida, não se incomodem, sempre haverá pela frente desafio maior. A não ser no Brasil, é claro, onde tudo o que é dito pode ser desdito sem maiores consequências e todo crime — os financeiros, pelo menos, com toda certeza — pode ser perdoado com a força da lei… e o apoio inconteste do Congresso Nacional.

Não moro mais no Brasil, taí, esta é uma possibilidade que apesar de tão impositiva ainda não adquiriu para mim status de realidade, essas coisas demoram, costumam levar bastante mais tempo do que a gente sempre espera, pelo menos. E são bem mais difíceis do que o esperado também, mesmo que a mudança seja para melhor, no caso, muito melhor, sorry, folks.

E aqui estou, num país novo, uma mentalidade nova e tudo o mais que confere ao ambiente que me cerca uma estranheza só, com a qual só consigo lidar por enquanto em doses bastante homeopáticas (com uma queda ou outra no buraco negro da consciência), que nem a falta de cê cedilha e o circunflexo deslocado no teclado do novo computador, é, agora ainda por cima com um notebook desconhecido, algo que é sempre assustador: tenho que me ajustar ao fato de que, embora veja dois pontos e ponto e vírgula numa tecla sob meus dedos e aspas na outra, trata-se na verdade, indubitavelmente, de um cê cedilha e de um circunflexo respectivamente “em português”! E por aí vai. Mal imagino o que Alan terá passado em dez anos de Brasil, durante os quais nem sequer conseguia atender o telefone.

Nem sei como dirigi até aqui no final desta manhã, de volta “pra casa”, digo, voltando de uma reunião com o “comitê de arquitetura” de nosso novo condomínio, e embora sejam muitos os ajustes necessários creio que temos, finalmente, um plano de ação, no plano teórico, pelo menos.

Na reunião, tentei descrever como vivi 60 anos de minha vida sob um clima de instabilidade e insegurança econômica que os americanos, embora reclamem tanto de seu governo sob a liderança de Obama, estão longe de serem capazes de compreender. Francamente, eles não fazem a menor ideia, assim como não faço ideia de como conseguem viver com toda essa confiança nas instituições que os caracteriza — bem, não há motivo para tanta confiança assim, eu, pelo menos, não consegui fazer valer meus direitos de consumidora com aquela camiseta nova da Zara em cuja manga direita, sem que eu soubesse como, apareceram dois buracos na primeira vez em que a usei. Alan diz que é porque “não sei como fazê-los valer”, os direitos, digo — tudo bem, acredito que seja isso mesmo, mas, enfim, eis-me aqui remendando (pacientemente ou não, isso agora é o que menos importa) os buracos da nova camiseta, hum, boa metáfora, não?

Metáforas, devo confessar de novo, não têm faltado em minha vida diária, eu diria “luta”, mas o primeiro mundo não deixa. Ontem mesmo, imaginem, passei parte do dia para conseguir instalar um aplicativo de segurança do Banco Itaú que, simplesmente, não funciona no “ambiente Windows 8” do novo computador. Isso, para nem mencionar o problema do dicionário Houaiss, até anteontem a minha escolha favorita em termos de dicionário: o novo computador, pasmem, não vem mais com drive de CD (device em pleno processo de extinção, como extintos já foram, respectivamente, o disquete redondo e em seguida o disquete quadrado também, disquete? Hã?), o que torna meu CD original, comprado na caixa e tudo por um bom dinheiro, completamente obsoleto. Ainda bem que há mais de um ano optei pelo Adobe Creative Cloud, que contém todos os softwares mais importantes que uso diariamente — pelo menos uma coisa a menos pela qual chorar, já passei por esse sufoco há algum tempo, então, felizmente, não estou totalmente crua nesse quesito de “nuvem”. Mas crua o suficiente para sofrer um bocado.

Cá entre nós, ainda estou com sorte, pois os computadores mais modernos, mas mais modernos mesmo, se é que vocês me entendem, nem sequer têm um HD pra chamar de seu! É tudo, tudo na nuvem, softwares, dados, tudo! E põe (in)segurança nisso! E eis me aqui, bravamente, transferindo tudo, desde o sistema de e-mails até os milhares de arquivos que acumulei em cinco anos de KBR.

Tudo bem, o brasileiro é antes de tudo um forte — atrasado, procrastinador e com reserva de mercado, mas um forte mesmo assim —, e sabe “Deus” que tenho feito de tudo para fazer funcionar essa fortaleza toda. Há dias, no entanto, em que não a encontro, evaporou-se, dissolveu-se entre as nuvens como tudo o mais que tem me desafiado.

Depois melhora. No final terei o que preciso ao meu rápido alcance em “todos os aparelhos disponíveis”, um banco de dados bem mais fluente e… bem, como dizia aquele velho amigo, se ainda não deu tudo certo é porque ainda não está, melhor, não estou “no final”, não é mesmo?

Ah, e por falar em dicionário, sem cujos recursos não posso prosseguir no trabalho, felizmente encontrei um aplicativo excelente do Aurélio para Windows 8 disponível na loja da Microsoft. Comprei no ato, e nele já flutuo com alguma desenvoltura, oba. Já é algum progresso conquistado, nesta admirável rede nova, nova demais até para o meu gosto.

E um bom domingo procês!

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *