Complexo de pedigree

O TRABLHOComo vocês sabem, quanto mais o meu tempo escasseia vou ficando cada vez mais estressada e neurótica, ou “ubíqua”, multimídia, sei lá, o fato é que desde os primórdios da doença de mamãe me acostumei a pensar com dois cérebros diferentes, naquele caso o meu e o dela, visto que o dela, em processo de deterioração, precisava cada vez mais da minha intervenção para funcionar como antes, e exatamente do jeito como funcionava antes — diferente do meu em duas ou três coisas que eu mal sabia dela, pelo menos —, para podermos encontrar chaves perdidas, cumprir compromissos assumidos, essas coisas. História triste, passou, melhor deixar pra lá.

Como vocês também sabem, estão cansados de saber, desde que vivo com Alan, essa “existência de uma dissociação da ação e do pensamento” (tirei do dicionário, imaginem aí o verbete que busquei) vem se agravando cada vez mais, os dois cérebros agora sendo todinhos meus, sem apelação: o tupiniquim, que esquenta a cabeça todo dia tentando transcender as limitações de nosso dia-a-dia, e o evoluído, cujas ideias fluem ao ritmo do que há de mais avançado no mundo da tecnologia, pelo menos é o que gosto de imaginar em meus delírios, não de grandeza, mas de mera eficiência e desejo de resultados.

Pois ao contrário do “complexo de vira-lata” de que um de nossos autores foi recentemente acusado, Alan sofre de um “complexo de pedigree” que ninguém aguenta, e isso vem paulatinamente me contaminando e me causando intenso sofrimento, me rasgando por dentro, o pensamento de um lado e as ações cotidianas do outro me dividindo cada vez mais. Cachorrada. Não se faz isso com a pessoa amada. Francamente.

O resto, aqui.

 

 

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