Copo meio cheio

gestaltPor motivos óbvios, não vou comparecer à manifestação deste domingo.

Devo confessar: mesmo se pudesse, não iria. Tenho pavor de aglomeração e abomino a simples perspectiva de violência. Acho bonito quem se expõe, mas cá do meu lado, minha arma é a palavra, e dela tenho feito uso sem medo nem parcimônia, uma segurança e relaxamento que só a distância proporciona. Sofro de uma mistura de trauma e nostalgia relativos à ditadura militar, um mal geracional, vamos combinar. Poderia como tantos outros ter exercido o meu não-direito de me manifestar, mas tampouco o fiz. Na época, era uma boa menina, digo, uma menina medrosa demais da conta. Nunca gostei de correr riscos e o perigo não me excita.

Do lado de cá do Equador — Lula diria “do Atlântico”, mas, cá entre nós, depois que declarou publicamente seu apoio a baderneiros e candidatos a terroristas, não acho mais graça em citar sua patética ignorância — vejo com dor e preocupação a trajetória do Brasil rumo ao precipício sem que haja muito a fazer. Parte da solução, a meu ver, consiste em atingir o fundo do poço em época não definida no futuro, espero que próxima e que não nos custe ainda muito mais. E, francamente, embora até o momento me incline a opor-me a ideias de “impeachment”, não vejo como Dilma poderia se desenredar deste atoleiro em que se encontra metida. Dá até pena.

Um dos motivos para isso é que a presidente não professa uma posição. Talvez vislumbre em sua confusão, sem que ninguém a ouça, algum leve traço de correção de rumo nas instituições, mas na vida real mantém-se como um cão domado atrelada à coleira de Lula, ícone do arcaísmo, além de arauto da ignorância e do atraso moral, manifesto animador do caos público e outras características apenas adivinhadas, como, por exemplo, a função de chefe de gangue em camuflada atividade, violência urbana incluída. Só falta recrutar crianças e vender heroína. Se um dia tivesse votado nele, hoje diria: “Que decepção!”

Não imagino, por exemplo, a justificação moral de pessoas que ao mesmo tempo defendem a Petrobras e o governo que a destruiu, um paradoxo política e moralmente inexplicável, indefensável. Há os que dizem, nostálgicos e penitentes petistas de primeira hora, pelos quais cultivo uma dó sincera — ok, eu sei, seria um dó que em meu desafinado peito não rola, “um erro que ocorre porque associo, erradamente, a palavra dó às palavras pena, piedade, compaixão, lástima”, conforme explicação na internet —, que é fácil entender, já que a “Petrobras é do Brasil”, pobre Brasil reduzido a um amontoado sem fim de escândalos e escombros administrativos, mera sombra do gigante pujante que logrou ser por parcos segundos no relógio da História nacional.

Mesmo na minha história pessoal, foram poucos os anos em que pude atuar sem a carga pesada de uma horrorosa inflação a me descompensar, para não mencionar as garras da burocracia sempre tentando me estrangular. Minha trajetória profissional, como todos sabem, é uma impressionante coletânea de bem-sucedidos fracassos, ao cabo dos quais a depressão de tantos achaques contra a livre iniciativa — a palavra-chave de todas as carreiras que professei na vida se manteve inalterada: “impossível” — me encontrava sempre no ponto mais baixo da trajetória do Bungee jump empresarial, pronta a me reinventar, à beira de um zero total do qual tentaria recomeçar.

Hoje, do lado de cá, custa-me entender que consegui escapar. Mesmo atrelada à coleira eletrônica do amor nacional, da insistente dedicação à aventura empresarial, estou a salvo das loucas flutuações da corrupta predestinação da economia. Sofro escandalizada com a alta do dólar que, dia após dia, como num infame passado antes enterrado, segue inviabilizando a sobrevivência doméstica, eternizando a insegura sensação de um pulo de costas no escuro sem nenhuma rede de proteção — eis meu retrato de uma vida no Brasil — enquanto, ao mesmo tempo, começo a trançar os primeiros fios de uma nova trama tecida no exílio, onde, ainda traumatizada, não consigo confiar em nada nem em ninguém.

Mas enquanto o lado brasileiro tropeça (de novo!) e hesita, e o governo tripudia, devorando a esperança de quem poderia, mas acaba desistindo de investir na bem-aventurança (eu diria “mudança”, mas o termo tem andado em bocas de matilde, muito abastardado), o lado estrangeiro aventureiro impávido prossegue. E ao mesmo tempo em que o provento cotidiano sangra, o patrimônio, salvado a tempo da iminente derrocada, se multiplica no banco pela inércia do câmbio, sortuda, eu — na atual conjuntura melhor esclarecer, patrimônio honesto, remessa oficial sob as bênçãos da regulação para um oásis de estabilidade onde a regra fiscal é lei, alívio, não exceção.

É a tal Gestalt do copo meio cheio, em disputa com o copo meio vazio — uma dança frenética do fundo com sua figura.

E um bom domingo procês. Fiquem bem.

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