Cuidado também é cultura

A toalha, bordada e amassada

A toalha, bordada e amassada

Engana-se quem pensa que quando me refiro à falta de cultura, a quanto me incomoda a falta de cultura, estou reclamando sobre Bach, Beethoven ou Shakespeare. Isso seria “erudição”.

Havia um cuidado com as coisas no tempo de mamãe, por exemplo, de saudosa memória (ontem, dois anos de falecimento). Mamãe era chique, suas mesas impecáveis. Tinha muito dinheiro quando emigrou para Israel e doou ao kibutz todo o seu enxoval mineiro de linhos bordados para serem usados por quem os pegasse ao acaso da lavanderia comum, onde, claro, não havia quem os engomasse. De volta ao Brasil, retomou a sofisticação, mas depois que papai morreu e nos mudamos para o Rio, adquiriu o hábito de ela mesma cuidar das coisas que lhe importavam mais. Sempre lavava e passava a roupa sozinha, por exemplo, algo de que me considero incapaz.

Quando Alan relembra a mãe dele, então, é uma humilhação só: uma dona de casa perfeita, o chão sempre brilhando, a louça cintilando, perfeitamente vestida e maquiada e ainda exímia biscoiteira, fazedora de cookies inigualáveis (cookies de comer, é claro). Mas quando reclamo da roupa lavada, pegunta por que não a levo ao chinês da esquina, coisa que não existe no Brasil. Alan, aliás, neste aspecto de manutenção da casa tornou-se um perfeito marido brasileiro: não lava um copo, nem sequer o leva para a pia.

Já minha “secretária” Ivete, que é perfeitamente capaz de sentar-se comigo à mesa para um café e conversar sobre tablets, celulares e política nacional (embora ignore que Lula e Dilma são farinha da mesma marca, um só saco prestes a estourar), não entende de jeito nenhum o valor, artístico e de estimação, da única toalha de mesa que herdei de mamãe, em linho bordado da Ilha da Madeira e que só uso em duas ocasiões: Pessach e Thanksgiving. Nas quais, aliás, está sempre, invariavelmente, manchada e amassada, um trapo que tento esticar na mesa, porque na hora da ceia já trabalhei o dia todo e não tive tempo, nem vontade, de dar uma caprichada extra — uma preguiça herdada do tempo das mucamas.

Mas o resultado me deixa tristíssima, é claro. Mesmo destino tem sido enfrentado pelos copos de cristal com o monograma de papai, todos miraculosamente opacos e manchados, com as bordas quebradas e desaparecendo aos poucos.

Decididamente, nosso mundo descartável não se importa com as coisas sofisticadas.
Para tentar remediar, já que não posso dispensar a ajuda, este ano lavei e passei eu mesma a toalha do Seder. A conferir.

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