De volta para o futuro

twitterDe volta aos dias tenebrosos nos quais mamãe estava apenas começando sua longa luta contra o alzheimer (com minúscula, por favor) contando histórias delirantes, versões recentes de seu passado, me lembro de ter me espantado quando descobri que tudo que ela dizia tinha um forte aspecto negativo. Tentei entender. Se ela estava de fato reinventando sua vida, por que não fazê-la melhor do que tinha sido? Ao contrário, fazia questão de afirmar que eu a odiava, que eu e meu irmão nos odiávamos mutuamente; tenho até uma vaga lembrança de ela ter deplorado seu casamento com meu pai, que eu sempre acreditara ter sido perfeito. (Prefiro deixar quieta a memória de meu pai como um homem maravilhoso. Que ele descanse em paz. E ela também.)

Lembrei-me dessas histórias tristes enquanto refletia sobre o estado deplorável em que se encontra a nossa sociedade contemporânea. Por que, quando e como nos tornamos tão negativos? Tão violentos? Parece que uma nuvem negra de pensamentos flutua permanentemente sobre as nossas cabeças; de vez em quando, alguém pega um deles e o materializa. Na falta de motivo melhor, pelo menos para justificar nosso extremo mal-estar com a civilização, algo que Freud detectou já em 1929, ano em que nasceu minha mãe — a coincidência chamou minha atenção.

Comecei a escrever esta crônica pensando em criticar os celulares e a cultura da internet como as armas que na verdade nos ameaçam, possíveis responsáveis pelo problema da violência e da radicalização, mas com que objetivo, eu não saberia dizer. Nossas vidas, a minha incluída, são tão completamente dependentes desses avanços tecnológicos que não vejo um jeito de escapar, ou passar a evitá-los. E por que faríamos isso, afinal? É a natureza humana que se mostra intrinsecamente má. Olhe em volta e você verá como sempre damos um jeito de avacalhar nossas melhores conquistas e criações. A mente doente de mamãe nada mais é do que um bom exemplo dessa tendência. Tudo bem, admito, devo estar com um humor de cão.

Vocês acreditam que a culpa é do islamismo? Acreditam que o islamismo (radical) deve ser tachado de ultrapassado, atrasado, uma cultura medieval que nunca deveria ter saído da gruta da Idade Média onde foi criada?

Eu sim. No entanto, para minha surpresa, estava com Alan no carro quando ouvimos uma entrevista sobre como a lei islâmica, a Sharia, foi na verdade imposta aos países muçulmanos há bem pouco tempo. “Nos anos 1950”, escutamos, “as grandes cidades do Oriente Médio eram cosmopolitas, animadas, suas mulheres vestidas do mesmo jeito que todas as demais mulheres do mundo, uma liberdade total”. Incluindo uma comunidade gay em Alexandria, por exemplo, um fato que o entrevistado corroborou citando a “Série Quarteto de Alexandria” de Lawrence Durrell (acrescentei “Série” para soar mais moderna, embora, aparentemente, o Médio Oriente, com a óbvia exceção de Israel, fosse bem mais moderno naquela época). Durrell entendia do assunto, já que foi adido de imprensa da Embaixada Britânica no Cairo e em Alexandria durante a Segunda Guerra.

Então, o que aconteceu, e como? Se eu pesquisasse a fundo certamente descobriria, mas não é esse o meu objetivo. Só quero saber por que, no final das contas, estamos sempre prontos a desistir da esperança e da felicidade. Como é possível que estejamos tão comprometidos com a desgraça e nos deixando contaminar por ela?

Outra coisa interessante é que temos a tendência a acreditar na primeira “versão da verdade” com que nos deparamos, coisa que entendi bem melhor quando comecei a usar o Twitter… na semana passada. Além de nos sentirmos sufocados pela quantidade de tuítes (não acredito que com vocês seja diferente), somos também afogados por um tsunami de mensagens equivocadas que entram direto na nossa psique, de onde dificilmente serão erradicadas. Et voilà, lá vamos nós levados a acreditar em falsas afirmações que nunca deveriam ter visto a luz da tela.

Entendam, não estou insinuando que as pessoas mintam no Twitter, não é isso (a não ser algumas poucas, é claro). São apenas mal informadas, porque acho impossível que qualquer pessoa possa ter uma noção clara de um acontecimento que envolve múltiplos fatores uns cinco segundos depois de ter ocorrido. Parece haver um tipo de concorrência para ver quem tuíta ou retuíta primeiro, e ninguém se incomoda com a exatidão da informação (um exemplo simplista e irrelevante é o fato de terem anunciado a princípio que 50 tinham morrido no ataque em Orlando, quando o real número de mortos foi de apenas 49). “Apressado come cru”, tentei explicar sem sucesso no meu texto em inglês; a tradução mais adequada seria “Só os idiotas se apressam”.

Quem são então esses idiotas?

Um exemplo mais irrelevante ainda, mas crucial para mim, é que nos recusamos (você, por exemplo, que nunca lê o que eu escrevo) a ouvir a verdade quando é dita por alguém que não seja considerado um especialista, com milhões de seguidores nas redes sociais. Foi mais fácil espalhar a ideia de que atletas e visitantes seriam com certeza contaminados pela zika durante as Olimpíadas — por um tempo foi esta a “versão oficial” — do que dar um crédito quando escrevi que não tem mosquito no inverno do Rio, a atual “versão oficial” divulgada pela OMS. OMG!

Tarde demais para muita gente. Infelizmente, os Jogos do Rio estão prejudicados, assim como as aspirações de tantos atletas que treinaram intensamente por quatro anos, para os quais o Rio é a última oportunidade de uma medalha. Azar deles.

Precisamos mudar nosso jeito de reagir, essa é que é a verdade, nossa disposição para aceitar tudo o que lemos na internet. Vamos combinar, só os idiotas aceitam as primeiras versões superficiais dos fatos, e só quem não pensa passa adiante esse tipo de desinformação que nos deixa em estado de alerta.

Não sou exceção. Também passo tudo adiante. Também passo os dias em estado de alerta constante. Mas ando tão cansada de estar sendo o tempo todo provocada que já estou prevendo como isso tudo vai terminar: mais cedo ou mais tarde vou decidir parar.

E aí? Vou fazer o quê? Não faço a menor ideia, meus amigos. Passo a vida na internet como todo mundo, e custo a imaginar uma solução para essa dura realidade, que, por sinal, só tende a piorar. Talvez o único jeito seja tentar controlar o que compartilhamos.

Não devemos acreditar em qualquer coisa que se propaga. Devemos aguardar até que o eco barulhento de tantos compartilhamentos se acalme, de preferência desapareça de nossas telas. Pode ser que depois disso estejamos aptos a debater os verdadeiros problemas, como a bandeira do ISIS nos celulares, possíveis deflagradores de ataques terroristas, como “revelou” Donald Trump — uma excelente metáfora, pensem bem.

Sei muito bem que comparei nesta crônica dois elementos que não têm nada, ou talvez tenham tudo a ver: nossa tendência a piorar as coisas e nossa disposição de compartilhar tudo, mesmo que seja apenas um palpite. Se pudéssemos mudar isso, pode ser que veríamos mais arte, mais beleza, mais amor nas redes sociais, em vez de tiroteios e ataques terroristas. Os autores desses horrores passariam então a ser exceção, limitados à sua insignificância e engasgados com sua própria obscuridade, jamais retuítados e solenemente ignorados. Mas, infelizmente, já fomos longe demais. E agora eles estão entre nós, usando as mesmas ferramentas de comunicação.

Por isso mesmo, é online que devemos declarar nossa guerra, lutar nossas batalhas de retorno ao nosso lado humano, já que o inimigo vive online como a gente. Através do dinâmico espaço das redes sociais, conseguimos finalmente driblar aquele filtro mental que Aldous Huxley descreve tão bem em As portas da percepção, um efetivo instrumento de proteção cerebral que deveríamos valorizar, em vez de desejar que ele desapareça de uma vez.

Saber demais, francamente não tem nos beneficiado em nada. Na verdade, andamos cegos e surdos, sobrecarregados de informação que nada significa e que mal conseguimos processar. No entanto, com a exceção de um Oriente Médio “irremediavelmente” rendido à lei islâmica, não se pode retroceder no tempo, e precisamos seguir em frente. Como? Diga aí quem souber.

E já que ninguém aguenta tanto sofrimento o tempo todo, vou contar uma história engraçada. Lembram que eu escrevi lá em cima sobre a entrevista no rádio? Pois é. Alan e eu estávamos indo visitar uma obra para conferir o trabalho de um empreiteiro que queremos contratar. O mapa estava no carro, e fui guiando o Alan passo por passo, prestando o máximo de atenção, eficiente como sempre, sabem como é. Depois de uns 50 minutos dirigindo, chegamos ao local, só que… não era lá. Havia dois mapas diferentes no carro, e eu tinha escolhido exatamente o mapa errado, dá para acreditar?

Só nos restava respirar fundo, dar meia volta, voltar a Greenville, e depois de atravessar a cidade prosseguir mais outro tanto na direção oposta até chegar ao lugar correto, depois de mais outra hora e meia dirigindo.

Conclusão: é preciso atentar o máximo possível para o mapa que estamos seguindo. Espero sinceramente que encontremos o nosso caminho. Tenho certeza de que vai nos levar para bem longe deste cada vez mais insensato mundo conectado.

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