Desafios

gorilla_and_baby“É preciso toda uma aldeia para educar uma criança”, afirmou Hillary Clinton esta semana, em seu “discurso de vitória” como candidata oficial do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos. Um “passo histórico”, diriam alguns, sendo Hillary a primeira mulher nomeada por um dos (dois) grandes partidos americanos.

Pode até ser um grande passo para nós — imaginem: como imigrante, já me vejo integrada ao “povo americano” —, mas, vamos combinar: do ponto de vista global, fomos deixados muito para trás. Até mesmo o Brasil, terra onde cresci, já teve uma mulher na presidência, e todos sabemos como isso terminou. O que não muda o fato de que Angela Merkel, por exemplo, seja uma grande líder, com seus altos e baixos na briga europeia por um “mundo mais civilizado”. O que, por sinal, não está dando muito certo, para nem mencionar que no mês que vem a Comunidade Europeia estará enfrentando uma séria ameaça à sua existência, com a ideia da saída da Inglaterra e tudo o mais.

O que nos leva a concluir… coisa nenhuma. Apesar de ser muito incrível que as mulheres hoje em dia se sintam livres para se candidatar e até conquistar os postos mais elevados do Planeta, isso não quer dizer que serão mais eficientes, ou iguais, ou piores do que um homem na mesma posição. Há mal e bem, gente boa e gente má em todos os segmentos da raça humana, é isso aí.

Pois é, fiz de tudo para evitar o termo “minoria”, porque, afinal de contas, não faz nenhum sentido chamar de minoria o que constitui por volta de 50% da humanidade, não é mesmo? Isso também precisa mudar.

Voltando ao discurso de Hillary, eu nunca tinha escutado o ditado que ela mencionou (lembrem-se, agora sou estrangeira, sempre meio por fora, algo que Alan não cessa de me cobrar e de por isso me criticar), então fui rapidinho ao Google para me informar, e encontrei uma coisa ou duas.

Embora essa origem seja controversa, descobri que se trata de um provérbio africano, do qual Hillary, que na época era a primeira-dama americana, parece ter se apoderado para usá-lo como título de seu livro publicado em 1996, It Takes a Village (É preciso toda uma aldeia, não encontrei tradução para o português). Mais interessante foi ter encontrado uma “falsa citação”, muito popular, segundo a qual Hillary afirmou certa vez que “a função mais importante do Estado é ensinar, treinar e educar as crianças. Os pais têm papel secundário”.

Será que ela disse isso mesmo? Parece que não. Será que escreveu isso no livro que citei? Parece que não. Mas é fato que ela mencionou o ditado africano em seu discurso de vitória. Por que será? Fiquei intrigada.

Por que cargas d’água nós, mulheres, deveríamos defender qualquer tipo de ação governamental que no fim das contas nos seria prejudicial? Prejudicial para a nossa função de cuidadoras, um papel indispensável para a família humana?

É fato também que a ideia de deixar a tarefa de educar crianças entregue ao “Estado” é parte integrante do ideário socialista, uma ideia que resulta num maior controle dos nossos hábitos e comportamentos. Nos velhos tempos da criação do kibutz, em 1949/ 50, esse “uso da aldeia como cuidadora principal” era uma prática amplamente disseminada, à qual eu mesma fui submetida quando era bebê, já que nasci em Israel logo depois da Declaração da Independência, num kibutz da Galileia. Como se esperava que as mulheres estivessem tão disponíveis para o trabalho quanto os homens (não me lembro de jamais ter escutado nada parecido com “licença-maternidade” naquela época), o cuidado das crianças era confiado (não voluntariamente) a uma mulher específica, numa casa específica, onde todas as crianças viviam juntas. As mães compareciam algumas vezes por dia para amamentar seus filhos. Mas é importante ressaltar que, pelo que sei, tal prática não é mais generalizada hoje em dia.

Devo confessar que tentei atribuir minhas dificuldades nesta vida a esse começo atribulado. Afinal de contas, é de conhecimento geral que os primeiros três anos de uma criança são os mais importantes para o seu desenvolvimento. Apesar de que, no meu caso, “recriei” minha vida tantas vezes e tão completamente que não dá para garantir que esses três anos tenham realmente me moldado. Acabei indo a Israel e tentando entrar em contato com a tal mulher “encarregada”, que alguém descreveu como muito severa, mas também amorosa. Quando perguntei a ela que tipo de criança eu era, eis o que ela me respondeu:

— Você era uma criança normal, como todas as outras. Quando você chorava, eu simplesmente mandava você calar a boca.

Tá certo. Como estou com 64 anos, e a tal “viagem investigativa” foi há mais de 20, pode ser que eu esteja reinterpretando a resposta dela e a misturando aos meus controvertidos sentimentos a respeito da minha criação e de tudo o que vivi esses anos todos.

A verdade é que cresci com uma entranhada sensação de medo e insegurança à qual logo me acostumei, sempre lutando contra a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, acabaria perdendo alguma coisa ou alguma pessoa importante para mim. E sempre reagi tentando ir longe demais, me colocando desafios demais, me enfiando em situações complicadas que, para o meu próprio bem, seria melhor evitar. Simplesmente não consigo fazer de outro jeito.

Minha mãe me contou que quando cheguei ao Brasil, com 15 meses de idade, me recusei a andar por um bom tempo. Mais tarde, já adulta, toda vez que eu olhava para as minhas fotos de bebê eu enxergava um rostinho triste, uma postura corporal que parecia sempre estar rejeitando a proximidade do outro. Isso me perturbava tanto que, como diria um amigo das antigas, acabei “ritualizando” as fotos. Em outras palavras: queimei todas.

Mas por que lembrar agora todas essas sensações?

Não sei exatamente. Como diz o Alan, “as coisas me vêm” quando estou escrevendo ou algo assim, embora eu, na verdade, me recuse a acreditar nisso.

De um jeito ou de outro, foi o que me veio à mente no momento em que escutei Hillary mencionar o tal ditado, então eis a minha resposta: Não é preciso uma aldeia inteira, nem um Estado, e muito menos nenhuma ideologia para se criar uma criança. Descontando a educação formal, que é muito importante, só é preciso um bom par de pais amorosos e bem estruturados — pais biológicos, sempre que for possível — muitos abraços e “eu-te-amos”, palavras carinhosas apoiadas em gestos amorosos, não importando a “teoria de comportamento” em voga.

Não é impossível que uma criança educada num ambiente hostil venha a se tornar um adulto equilibrado, equipado para a felicidade. Já vi crianças diagnosticadas com ADD, ou ADHD ou coisa que o valha (diagnósticos de déficit de atenção) e medicadas de acordo, que mesmo assim se viraram muito bem. Tudo bem.

Por outro lado, fico pensando por que os jovens hoje em dia parecem tão perdidos, tão dispostos a aceitar a violência e crenças duvidosas, tão negativamente inclinados a rejeitar a reflexão e o pensamento profundo, meios criativos para se transcender a dureza da vida — fiquei surpresa e chocada no outro dia quando vi um leitor acusando o autor de um ensaio filosófico de “viver numa bolha”. Como isso irá se refletir quando tiverem seus próprios filhos? Ou, afinal, qual será o resultado de nossa disposição de nos destacar da natureza? Não tem como saber; o jeito é esperar para ver.

Enfim, achei que deveria escrever sobre isso e pronto. E enquanto estava imaginando o que escreveria, topei com um vídeo que se tornou viral mostrando um garoto de seis anos chorando, desesperado, por conta de um outro vídeo que tinha visto na escola e que mostrava como a humanidade está “destruindo as florestas e matando todos os animais”. Ele deu sorte (ou não) de não terem mostrado a mais séria ameaça ao nosso futuro enquanto humanos; e já que mencionamos o assunto, não é esquisito que estejamos tão preocupados em preservar a natureza e os animais enquanto fazemos o possível para excluir a nós mesmos desse ambiente? Enquanto, literalmente, lutamos contra a dádiva da natureza para cada um de nós? Experiências com animais e testes de drogas em cobaias de laboratório são tidos unanimemente como crueldade. Ao mesmo tempo, não temos nenhuma objeção a seres humanos que se sujeitam a todo tipo de tentativa maluca no sentido de alterar seus corpos.

Não dá para entender. Nesse meio tempo, acredito que seja importante, inclusive como posicionamento político, lutar pelo nosso direito de crescer do jeito que nascemos, para preservar o direito de uma criança a uma família amorosa, a salvo de “experimentos sociais”.  Falando nisso, é assim que vejo a atual “loucura de gêneros”, sim, um “experimento”. Apesar de saber, certamente, que essas mesmas ideias acabarão sendo usadas contra mim. Afinal de contas, ninguém tem o direito de nos dizer de que jeito e para o que nascemos, ou de definir o que exatamente constitui uma “família amorosa”.

Para começar, acho importante deixar a “aldeia” de fora quando se trata de nossa vida privada, da nossa individualidade. Liberdade é isso!

E para terminar, acho importante lembrar que a atual “revolução dos costumes” começou há 50 anos com atos de desobediência civil. É espantoso constatar que, neste momento, estejamos implorando, apelando ao Estado para interferir em nossos  mais íntimos dilemas.

1 Response

  1. Clara A. Colotto says:

    Crônica brilhante, correta, corajosa.

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