Deu no NY Times

letter to nyt marcadaVamos combinar, ninguém pode reclamar de que não sou ousada, dada a uma chutzpah. Desde que me dou por gente, e até antes disso, sempre me vi (voluntariamente?) enfiada em desafios, situações estressantes, muito além da minha capacidade de lidar. E lá vem trauma. Minha desculpa interna é que tais ousadias “me fazem crescer”.

Lembro-me até hoje, por exemplo, do meu primeiro dia na Faculdade de Arquitetura no Rio, depois de uma dolorosa transferência. Esqueçam a glória de ser cronista mineiro bem-sucedido no Rio. Na época, eu não sabia de nada disso, só tinha “coração” para me sentir uma jacú perfeita no meio dos avançadíssimos cariocas, e a reação não tardou.

Um dos mais charmosos da classe, que pouco depois, é claro, tornou-se meu melhor amigo (pode até parecer, mas eu não jogo pra perder), olhou para mim com aquele olhar de nojo, não para mim exatamente, mas para o vestidinho largo e florido que me vestia. Que horror! Que coisa mais mineira, sô!

Nem vou perder tempo contando que anos depois lá estava eu na vanguarda carioca, cabeça metade raspada (as tatuagens só vieram depois), vestida de preto da cabeça aos pés, sem exagero, no meu armário só se via essa ausência de cor, e até hoje, fora um laranja ou outro, até porque “laranja é o novo preto”, não por acaso minha cor favorita.

Pois imaginem que não satisfeita em ter migrado de Minas para o Rio me vi tentada anos mais tarde a migrar para os Estados Unidos, imaginem de novo, o centro civilizado do mundo, onde sempre tinha vivido desde a adolescência na vida da fantasia, embalada pelo rock e pelo cinema como todos os demais. E não satisfeita em ter me mudado, como mineira ousada, é claro que apesar de todas as tentativas em contrário do Alan, cada vez mais machista e raivoso, não iria me limitar a ficar calada no meu canto. Isso nunca. Não me importaria com o vestidinho nem com o sotaque errado, francamente, lidei com isso a vida toda, se é que vocês me entendem.

Gosto de pensar que minhas elucubrações literárias, apesar de seu tom “regional”, têm certa tendência universal, senão, de que valeria escrever, não é mesmo? E decidi ir direto ao topo: queria ser publicada pelo NY Times, como já contei.

Comecei pelos comentários online. Tudo ia bem na época da Copa, enquanto falava (mal) do Brasil, tive até um ou dois agraciados com o “NYT Picks”, que embora não seja nenhuma medalha de mérito literário tem um design gráfico bem específico para parecer-se com isso. Afinal, estamos na América, terra da meritocracia, mais sobre isso mais tarde.

Mas, amigos, bastou eu mirar um pouquinho mais alto para a coisa começar a degringolar (cá entre nós, será que a etimologia desta palavra tem algo a ver com “gringo”, “estrangeiro latino”?). Comecei a perceber que os meus argutíssimos comentários sobre política internacional nunca pareciam no site. Me desesperei.

Não me levem a mal, mas minhas opiniões são muito importantes para mim. E naquele assunto em particular eu queria muito ser ouvida, porque se tratava de certa maneira da minha outra pátria querida, da sobrevivência do Estado de Israel, e mais, de uma proteção, mundial a meu ver, contra os abusos do terrorismo, contra os absurdos dos radicais islamistas que não ocuparei meu espaço para especificar, estão aí mesmo para todo mundo rejeitar. Se eu não me manifestasse propriamente, com certeza os Estados Unidos, e com eles o mundo, mergulhariam sem salvação numa era de franco obscurantismo, deus nos livre dessa queda fatal.

Pesquisei a fundo para descobrir o que haveria de errado, pois, segundo o jornal, todos os comentários são moderados. Estaria eu me excedendo no linguajar? Teria tido problemas graves ao me expressar? Alan já me alertou para certas expressões a que estou acostumada, meio que inglês de “chofer de caminhão” — apreendido nas telas do cinema, é claro — e que não devem em hipótese alguma ser usadas no meio de gente “educada”, vestidinho florido, sabem como é. Um verdadeiro perigo.

Tentei novamente, dessa vez com um cuidado extra na escolha das palavras e revisando tudo muito atentamente, grudada no dicionário e no corretor online. Foi quando me ocorreu uma outra ideia: quem sabe eu estava sendo automaticamente “filtrada” por conta do “ponto.br” no meu email? Vestidinho florido, sabem como é, ali, para todo mundo ver.

Pus mãos à obra, afinal de contas tenho um blog em inglês e um domínio ponto.com “para inglês ler”, e não só isso, venho me dedicando intensamente à tradução das minhas crônicas com auxílio profissional, embora seja bem verdade que a busca da minha “voz em inglês” acaba se impondo à tradução original, quer dizer, a culpa pelos meus erros é minha mesmo. Isso tudo, imaginem, sob aquela chuva habitual de críticas a que sou submetida domesticamente, diariamente massacrada moralmente, obrigada a “comer corvo” — atenção, tradutora, para manter a ironia intacta nesse trecho, “comer corvo” deverá ser traduzido literalmente por “swallow frog” — e a cair na real quanto ao absurdo das minhas “pretensões”.

Fui ao meu perfil no NYT Times, do qual sou assinante há longo tempo, e alterei os dados de contato, tudo para meu email ponto.com e para o atual endereço em Greenville, afinal de contas, sou uma residente agora. E sem perder um segundo voltei ao artigo em questão, para incluir a minha manifestação.

Decepção. O painel de comentários já estava fechado. Mas ali piscando, “tentação”, estava o convite: “Cartas para o editor”. Escrevi. Enviei. E logo esqueci, não ia ficar ansiosa nem gastar meu tempo com essa bobagem, a mesa de edição carregada e atrasada como sempre e mil outras coisas para fazer apenas para me manter. Não esperava nada além de ser destinada à “cesta seção” — termo excelente tomado emprestado de uma amiga escritora — ainda mais considerando que a carta era bastante crítica à política externa de Obama que, como todo mundo sabe, o NY Times apoia incondicionalmente, nem se incomoda com as possíveis radicais consequências.

Mas, para minha surpresa… dali a menos de dois dias recebi um email da editora de cartas do NY Times! E assim deu-se início a uma aventura editorial, gente, eu não poderia imaginar o cuidado e a atenção que uma simples carta ao editor poderia suscitar, e tenho certeza de que não é bairrismo de minha parte. Pesquisei a editora, Sue Mermelstein, que, acreditem, não é uma simples estagiária ignorante como em outros jornais que a gente conhece, mas uma senhora formada em literatura por Yale. Ficamos por três outros e-mails discutindo o teor de uma única palavra, isto é, mudei de “lado” temporariamente, e me deliciei de verdade.

Não me entendam mal. Sei muito bem que não são “escritores” os que publicam cartas em jornal, mas apenas gente comum que muitas vezes não tem nada melhor para fazer, nenhum prazer maior na vida do que ler seu próprio nome publicado num grande jornal (qualquer semelhança comigo não é mera coincidência), mesmo que seja na seção “Cartas dos Leitores”. Mas para mim, vinda da recôndita Belo Horizonte da minha infância — é verdade, faz tempo que saí de lá, mas, como todo mundo sabe, a gente sai de Minas, mas Minas nunca sai da gente — ser publicada no NY Times, eu confesso, foi a maior glória. E não foi só online, foi também no papel, isso, para nem mencionar que finalmente tive o prazer de colocar meu palitinho para testar a textura do bolo solado em que se transformou o mundo.

Nem vou confessar que essa mínima vitória me animou além da conta a prosseguir enviando ao jornal as minhas crônicas em inglês, e lá vem o corvo goela abaixo a cada quarta-feira, dia em que fica pronta a versão traduzida. Não ligo. Vai que um dia alguém escorrega na cesta e lê por acaso o meu email… Do qual, aliás, eliminei para sempre todos os resquícios de “ponto.br”, seguro morreu de velho, sabem como é.

Um bom domingo procês!

 

Ah, o teor da carta, com a edição marcada:

Yes, the vitriolic attacks on President Obama are disturbing and hurtful to the presidency and to the American people. But having been forced to listen for years to Republican commentators who highly disturbed me, owing to a strong difference in opinion inside my own home and marriage, here is what I have to say:

There are many among us who strongly supported President Obama not once, but twice, and saw our hopes for change fall to the ground. It is not that we don’t love diplomacy and desire peace. Simply, we regard Mr. Obama’s diplomatic efforts and foreign policy as weak and misguided, his attitudes as dubious, and some of his decisions as dangerous, to the United States and the Western world.

We pray it is not the case, that we are just mistaken, deceived by appearances, and by the theatrical actions that largely characterize politics nowadays.

NOGA SKLAR
Greenville SC

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