Dias terríveis

refugiados na alemanha

Francamente, já escrevi pelo menos uma dúzia de crônicas sobre os “Yamim Noraim”, os dez “dias terríveis” de reflexão que se interpõem entre o ano novo judaico, Rosh Hashaná, e o Dia do Perdão, Yom Kippur, e que se iniciam neste domingo. Mas nunca antes na minha carreira de cronista encontrei uma analogia histórica e social que os justificasse tão ferozmente para além de minhas reflexões pessoais, pois é, embora não acredite em Deus nenhum (e em dias como estes, quem acreditaria?) e nem professe nenhuma religião, nunca me furtei a esta saudável reflexão anual que deveria culminar num jejum ritual que este ano, mais do que nunca, poderia adquirir um sentido supracultural, já que as infelizes ondas de refugiados perecem não só por afogamento e esquecimento, mas também, simplesmente, devido à fome, como verificou a corveta brasileira que resgatou alguns deles no outro dia.

É muito tocante toda essa onda de solidariedade que toma de piedade as redes sociais, redes estas que, aliás, têm um papel crucial não na salvação, mas na propagação dessa remota possibilidade de evasão, já que não é possível reagir. Mas quem iria querer saber disso, não é mesmo? O importante não é entender o que há por trás, mas apenas saber que estamos indo atrás, uma simples questão de dois mais dois.

O menino da foto se afogou + a Europa está mal na foto = morte à Europa por ter deixado morrer o menino.

Não nos enganemos. Não é que eu esteja dizendo que abrindo as nossas portas, uma obrigação cristã, estaremos agindo imp(r)ensadamente, nada disso. Mas é preciso entender a perspectiva histórica que nos trouxe até este momento, e por que razão alguns líderes mundiais — como Netanyahu, por exemplo, para quem a imprensa não hesita um segundo em apontar o dedo acusador — podem estar certos, embora pareçam estar terrivelmente errados, e outros — Angela Merkel, por exemplo, que ultimamente não passa um segundo sem ter que se posicionar em público sobre assuntos controversos e cruciais para o futuro da civilização — podem estar terrivelmente equivocados, embora pareçam a nossos olhos estar agindo corretamente.

Escritores, poetas e colunistas, como esperado, devem se unir em torno de um único ponto unificado: há uma terrível necessidade de solidariedade humana neste momento, e ela deve ser exercida a qualquer preço, pois “os bárbaros triunfaram” e este triunfo lhes deve ser peremptoriamente negado.

Os bárbaros de que falam são os cruéis e degenerados líderes europeus atuais que, compreensivelmente, têm hesitado quanto ao que fazer a respeito dos tsunamis de emigrados. Como abrigá-los, alimentá-los, salvá-los do inevitável desastre que já arriscaram num incrível ato desesperado, quando se amontoaram em barcos fragilizados, traficados a preço elevado? Como dar conta dessa gente toda e ainda conseguir proteger sua (nossa) segurança social e qualidade de vida, as óbvias conquistas que têm buscado os refugiados?

Eles fogem de seus países como o diabo da cruz, e não se enganem, contra a cruz há lá um diabo empoleirado que transformou suas existências em puro ato de terror, então vejamos. Como uma medusa maldita, o monstro que os empurra para fora de seu próprio inferno tem várias cabeças, e não sei se a cada uma que é cortada nascem duas ou três outras em desregrada proliferação, como convém a um mito em ascensão, e ainda nem chegamos à diplomática pretensão do governo Obama.

Isso mesmo. Todos, menos os desprezíveis sensacionalistas que se arriscam em público a professar suas opiniões extremistas, estão aplaudindo o inédito acordo nuclear com o Irã, que provavelmente deverá ser votado pelo Congresso Americano — parece carta marcada, ou alguém diria, por outro lado, que “Deus não joga dados” —, justamente durante os “dias terríveis” que precedem o Yom Kippur, nos quais este ano, aparentemente, não apenas os judeus serão julgados, mas a humanidade inteira, pela justiça de seus atos impensados.

Eu sei, você que me leu até agora deve estar certo de que terei pirado. Que raio de conexão pode existir entre a foto do menino afogado, o acordo assinado e a tão propagada intolerância do Estado de Israel?

Não estou tão certa quanto a quem seriam os verdadeiros bárbaros, e tendo a pensar que não são os europeus, mas os bárbaros do ISIS, do sírio Assad e outros que tais que fizeram e estão fazendo muito mais do que provocar a fuga dos pobres refugiados. E com eles deveríamos estar preocupados, todos, aliás, financiados pelo governo do Irã. Que, por seu lado, terá sua capacidade de financiamento incrivelmente incentivada pelo acordo ora firmado, nem precisa mencionar o risco da proliferação nuclear.

Todo esse complexo ideológico poderia talvez ser explicado por uma espécie de efeito borboleta adulterado, um desastre histórico, um relógio de guerra que teria que ser mergulhado numa hipotética máquina do tempo para retroceder ao momento em que Saddam Hussein foi derrubado pelas razões erradas, deixando em seu lugar um vácuo que não tardou a ser ocupado pelas forças de um mal muito agravado.  Um mal legítimo que neste momento de certa maneira, aleatória ou intencionalmente — e por favor, não estou falando dos pobres refugiados, massa de manobra —, está “completando a invasão da Europa” deixada de lado séculos atrás quando foi vencida por ideais do iluminismo, do pensamento lógico e do desenvolvimento filosófico que por seu lado deve ter sido bancado por líderes corruptos e endemoninhados.

Enfim, nossa humanidade perdida não tem remédio.

Ondas de consciência coletiva são sempre bem-vindas, eu acho. Cada vida humana desesperada deve ser convenientemente poupada, aliviada, cada um de nós tem pleno direito ao seu quinhão de compaixão, apoio e solidariedade cedido pelo vizinho do lado. Mas acredito também que mais do que nunca a solução impossível para todos os nossos dilemas humanitários está em rejeitar as obviedades políticas, vaidades momentâneas, aparências enganosas e as radicais divisões nas redes sociais. Como? Sinceramente, não sei.

Só sei que não devemos nos apressar em julgar nada, devemos evitar nos manifestar como as ondas manipuladas de uma manada que reage ao som longínquo de hipotéticas vaquejadas, com nossos botões emocionais todos sendo apertados por forças que vemos, mas não enxergamos muito bem.

Pode até ser que seremos todos perdoados por um Deus misericordioso ao cabo de dez dias dedicados à oração, à reflexão e ao arrependimento que devem preceder qualquer justo parecer, porque no fundo no fundo, todos viemos de uma mãe e de um ato de amor, mesmo os mais desprezíveis entre nós — com a única exceção dos desafortunados que nasceram de estupros violentamente orquestrados, é claro, mas não está na hora de mencionar isso.

Não há muito que possamos fazer para salvar nossa pele, pois nosso julgamento já está em curso, assim como o apoio parlamentar ao acordo nuclear. Se o terrível Deus da Bíblia não puder nos condenar, talvez a marcha da história consiga em fim nos derrubar. Resta-nos esperar, nos conformar aos pequenos atos de amor e laços de família que possam nos confortar no dia a dia.

No mais, é tentar alertar, escrever sobre a nossa verdade incomode a quem incomodar, provocar reflexão sem ocultos objetivos políticos manipulativos.

Meu desejo é que nos próximos dias possamos ser devidamente reinscritos no Livro da Vida. Como se diz em hebraico, “Gmar chatimá tová” — literalmente, que todos terminemos mais este capítulo com uma sábia assinatura, que nos favoreça a todos na vida futura.

Shalom e shaná tová!

 

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