Diversidade americana

lixoEu estava subindo a escada quando a vi parada na porta, sempre gentil, delicada, com uma aparência fantástica.

— Vindo da academia?

O tênis e o legging suado, mais o cabelo grisalho despenteado, preso atrás com um clipe preto de plástico, deixavam isso bem claro, felizmente.

— É. Por que? Você está querendo malhar?

Ela é nova no prédio, então achei que ela não sabia onde era e encarnei imediatamente meu personagem “balcão de informações”. Mas ela não parecia em dúvida de jeito nenhum, e me respondeu num inglês perfeito, perfeito pelo menos para os meus ouvidos de estrangeira:

— Não. Estou indo checar o correio.

Minha nova vizinha é chinesa. Pelo menos parece chinesa, e sua conversa no iPhone no outro dia soava chinesa também.

Nosso relacionamento não começou nada bem, devo confessar. O designer de Boston que morou aqui do lado por uns dois meses tinha ido embora há algumas semanas, um verdadeiro gentleman. Por coincidência, quando o conheci também estava descabelada, voltando da corrida diária — não vão vocês aí concluindo que tudo que eu faço nesta vida é correr, ou que estou sempre despenteada, embora esta parte não esteja muito longe da verdade. Embora tivéssemos trocado apenas algumas palavras em uma ou duas ocasiões, o alto e charmoso cavalheiro não saiu do apartamento sem um gesto atencioso, batendo na porta para se despedir. Como eu disse, super educado, e para efeito desta crônica devo acrescentar que ele era negro, bonitão e altamente sofisticado. Não sei se vocês se lembram, mas já escrevi sobre ele antes, quando contei que nunca tinha visto qualquer vestígio de racismo neste país, pelo menos não perto de mim, graças a Deus.

De volta aos chineses. Eu não tinha a menor ideia de quem estava morando ao lado no lugar do designer, mas a coisa não parecia nada boa. O primeiro problema era que o novo vizinho(a) deixava uns sacos brancos de lixo malcheirosos empilhados todas as manhãs, antes de ele ou ela (lembrem-se, nessa altura eu não sabia quem era, nem se era homem ou mulher) sair para o trabalho, e o lixo ficava lá, apodrecendo o dia todo, até que o meu amigo lixeiro viesse apanhá-lo às 8 da noite. Quando eu vinha da academia (de novo!), dava pra ver a lixeira de luxo da “Valet Lixo” limpinha, fechadinha, arrumadinha, intocada na varanda do apartamento.

Reclamei com a administração. Para dar peso ao meu argumento, fotografei o saco branco nojento num de seus piores dias, transbordando de lixo orgânico, lá parado, encostado na parede, junto da porta do apartamento vizinho. Mandei a imagem por email para a administradora junto com uma nota mal-humorada. Sinceramente, senti que tinha direito aos dois, nota e bilhete. Afinal de contas, embora tivéssemos nos mudado para cá com a firme intenção de ficar menos de seis meses, enquanto nossa casa estava sendo construída, isso já faz um ano e meio. Somos, portanto, os veteranos do pedaço, o casal que mora aqui há mais tempo, ou pelo menos assim parece, com base na alta rotatividade desses apartamentos. Fui mais longe ainda no meu email desagradável, e reclamei da lâmpada por cima da porta que estava queimada há um bom tempo, eu nem sabia quanto, resultando num breu total quando a gente chegava tarde da noite: “Nunca nem percebi que a lâmpada estava queimada… o outro vizinho sempre deixava a luz dele acesa, o que não é o caso com esse novo, que já não é tão generoso”, escrevi.

No dia seguinte, a lixeira da “Valet” apareceu fora do apartamento, o saco de lixo branco acondicionado dentro dela direitinho. Embora eu não tenha conseguido ensinar ao vizinho(a) que o lixo só deveria ser posto para fora entre 6 e 8 da noite, quando o lixeiro de luxo passa para apanhá-lo, fiquei satisfeita. Por assim dizer.

Não me levem a mal. Tive um bocado de dificuldade com essas regras de recolhimento de lixo quando a gente se mudou, especialmente se levarmos em conta que eu sou bastante “yeke” — um termo em iídiche meio depreciativo, que descreve um judeu-alemão muito careta, daqueles que exige que tudo seja feito bem certinho, exatamente de acordo com o figurino (em geral as pessoas não se autodescrevem desse jeito mordaz, deixam aos outros a tarefa de fazê-lo). Dava pra entender por que eu estava sendo tão exigente com o novo vizinho.

A verdade é que nunca fui muito boa no quesito “vizinhos”. Sou meio “isolacionista” por natureza, não sou muito amigável por princípio, faço o tipo meio solitária, se é que vocês me entendem. Um dos nossos vizinhos no Vale já tinha me aconselhado quanto à maneira mais fácil de se sentir em casa nos EUA: aderir rapidinho ao máximo possível de grupos comunitários, especialmente os dedicados às “pessoas da minha idade”. O horror!

Mas, apesar das minhas melhores intenções, nunca consegui me sentir à vontade com os nossos vizinhos de verdade, no nosso condomínio de verdade, aquele onde estamos realmente planejando investir, no alto de Paris Mountain. Meus primeiros encontros com eles foram bem frios e distantes, para dizer o mínimo. Incluindo a ameaça de processo por conta das nossas “ambições de afastamento” (com relação ao alinhamento da rua).

Apenas recentemente, agora que o nosso lote foi finalmente liberado da floresta que o cobria — sorry, ambientalistas — e está pronto para construir, comecei a me sentir mais bem acolhida. Toda vez que vamos lá para meditar sobre a nossa futura casa, um vizinho simpático passa na rua para nos dizer que estão todos muito felizes com a nossa chegada. E nós também: aqui se faz, aqui se paga.

De volta à realidade, isto é, ao nosso apartamento de 60 metros quadrados. Era sexta à tardinha, eu vinha do supermercado carregando um monte de sacolas. Por falar nisso, melhor esclarecer de uma vez que não tem coleta de lixo no prédio nas noites de sexta e sábado. E antes de eu descobrir onde ficava o contêiner de lixo do condomínio, coisa que eu nem sabia que existia, eu tinha que lidar com o mau cheiro dentro de casa nos fins de semana, um verdadeiro transtorno. Mas agora, como me tornei especialista no assunto, toda sexta à noite, depois de guardar as compras, ando até lá para jogar o lixo, já virou rotina.

Então nesta sexta, quando saí do nosso apartamento com meu humilde saco preto de lixo, deu para sentir os eflúvios malcheirosos saindo da lixeira transbordando de cheia na porta do vizinho. Não hesitei um minuto antes de pegar o saco, e deixei um bilhete colado na porta:

 

Oi,

 

Seu saco de lixo estava cheio, e por falar nisso, cheirando bastante. Então levei até o contêiner pra você junto com o meu. Estava bem pesado!

Talvez você não saiba que não tem coleta de lixo aqui no prédio às sextas e sábados. Então, ou vc deixa o lixo dentro de casa, ou joga fora vc mesmo.

Aproveito para informar que o contêiner mais próximo fica perto das caixas de correio, do lado esquerdo de quem sai do prédio.

 

Abs,

Sua vizinha

 

Não deu cinco minutos, ouvi uma batida de leve na porta. Abri ainda com a roupa de ginástica e… descabelada, para variar, já que eu tinha ido da academia para o supermercado e não tinha tido tempo de trocar de roupa. E vi um chinês bem jovem, vestindo uma camisa polo azul-escura com um logotipo de empresa, simpático, sorrindo, com a minha nota na mão:

— Tomara que você não esteja chateado porque eu levei seu lixo — já fui me desculpando.

— Imagina, eu é que tenho que pedir desculpas… Não entendo por que eles não pegaram o lixo ontem à noite…

— Ah, pois é… deve ter sido porque o lixeiro é muito sensível — eu disse. — Geralmente ele não toca no lixo se a lixeira estiver transbordando — completei, como a top especialista em lixo em que me transformei.

Dava pra ver a esposa dele com metade do corpo para fora da porta, uma mulher chiquérrima que eu nunca tinha visto antes, só ouvido, falando chinês no celular. Estava sem sapatos (como é costume na China dentro de casa), então dava pra ver que era bem baixinha. Mas era realmente linda, muito bem vestida — toda de preto, meias de renda e tudo — me deixando sem jeito por conta da minha falta de elegância no dia a dia.

Então os novos vizinhos eram um jovem casal chinês, cujo inglês, aliás, era muito melhor que o meu. Fiquei imediatamente com a maior boa vontade, entendi na hora que talvez no país deles não tivesse esse negócio de “Valet Lixo”, nem nada parecido. Os dois trabalham fora o dia todo, dirigem dois carros americanos enormes e geralmente viajam no fim de semana. Pois é, comecei a prestar atenção.

Mas o que eu quero mesmo é comentar com vocês como é super bacana essa diversidade americana, como é inspirador que pessoas das mais diferentes origens sejam capazes de viver juntas, curtindo as qualidades civilizadas de uma nação de primeiro mundo. No caso de estrangeiros, desde que os imigrantes sejam legais, residentes permanentes ou visitantes com licença de trabalho, claro.

E por que não? Afinal de contas, investi um bocado para obter a minha própria residência, e estou a caminho da cidadania, o que, finalmente, vai me permitir votar e influenciar a qualidade de vida aqui neste país. Que é bem diferente do Brasil, por sinal: acho legal de verdade ver que se trata de um país cumpridor da lei, onde as regras têm valor e devem ser respeitadas. E espero que continue desse jeito por um bom tempo.

 

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