Doce deleite aculturado

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— Alô! É da Editora KBR?

— Isso!

— Eu queria informações sobre um livro, não estou encontrando para comprar.

— Você quer ebook ou impresso?

— Eu quero O LIVRO.

Bingo. A partir do mês que vem, a KBR terá os 165 (e aumentando, felizmente) livros de seu catálogo à venda em versão impressa no país, pois é, ebook no Brasil não é considerado “livro”. Isso, para nem mencionar as dificuldades que a cultura enfrenta por aí, concomitantes às dificuldades do nosso pequeno empresário de cultura, um verdadeiro herói, cuja vida diária nada tem de “brincadeira”, como quer jocosamente o odiento ministro da Economia do governo Dilma, o mesmo que um dia antes houve por bem cortar também as (já parcas) verbas do Ministério da Cultura.

Definitivamente, o Brasil do PT odeia o Brasil, mas este não é o assunto desta crônica, embora seja um tema que forçosamente se imponha. Vamos falar de como esse empresário e sua literatura — digo, esta empresária e sua literatura —, ambos tão sofridos, emergem do desafortunado caldo da nossa descultura.

Vocês talvez não saibam, mas a modéstia à parte ousadíssima KBR (ousada, melhor esclarecer, por sobreviver num ambiente em que apenas seu desejo de crescer a tem alimentado, ou, por outro lado, a necessidade de alimentar àqueles que a têm procurado) tem mantido, firme e silenciosamente, um “modelo de negócios” que até hoje não foi materializado, haja persistência, mas promete sê-lo em breve. Estou falando da “dobradinha” ebook/ POD que o Alan “inventou” há coisa de uns 3 ou 4 anos, já prevendo o fracasso do livro digital num país onde quase ninguém lê, quando no Brasil ninguém sabia pelo que respondia a sigla “POD” — Print on Demand. E ninguém sabe até hoje, vamos combinar, mas todo mundo deverá descobrir em breve.

Fico imaginando as dificuldades do pequeno editor tendo que lidar com metadados, códigos BISAC, essas coisas internacionais que o Brasil faz de tudo para manter lá no lugar delas, bem longe (eu ia dizer “daqui”, mas não estou mais aí) de seus próprios rituais. Mas este tampouco é o assunto desta crônica, então vamos a ele.

Para colocar a KBR nos trilhos desta modernidade que já percorremos há algum tempo, e cuja contemporaneidade foi recentemente até motivo de falência e fracasso de uma empresa aí… bem, aqui vou ter que fazer um parêntese. A tal empresa que faliu e fracassou, vou contar pra vocês, certa vez me convidou a falar sobre o ebook, esta aventura, para um auditório com alguns de seus funcionários. Mesmo sabendo que dominava o assunto, fiquei toda nervosa, e  quando lá cheguei, não deu outra: estavam todos previamente convencidos desta verdade, digo, do ridículo desta nossa pretensão à modernidade, e meus patéticos esforços foram ridicularizados por um sujeito que, imaginem, hoje em dia foi ele mesmo humilhado, afastado, destituído e seu castelo encerrado, nem vale a pena recordar, mas não consigo evitar, fecha o parêntese — tão longo que até esqueci o que iria escrever.

Nada como o tempo para nos animar, para vencer basta deixar o tempo passar, não é mesmo? E é isso mesmo que quero compartilhar: a minha satisfação quanto à minha produção por todo este tempo em que estive ativa no ramo editorial.

Explico: para preparar todos os livros para a distribuição sob demanda e disponibilizá-los para a Amazon brasileira — o que, finalmente, assim esperamos, completará nosso “modelo” mencionado acima —, foi preciso revisitá-los um a um, e durante a empreitada fui me lembrando de cada um, cada pessoa com quem convivi intimamente nessa jornada meio demente.

Lembrei-me até mesmo daqueles que não ficaram, dos que se recusaram a interagir com a minha personalidade exigente, para não dizer “difícil”, como aquele autor que qualificava de “perfeito” um trabalho que fui obrigada a decepar pela metade, ou não poderia publicá-lo — e que moveu uma ação contra mim para ter seu original devolvido, me obrigando a contratar um advogado para me defender do que eu já queria fazer espontaneamente, isto é, devolver a qualquer preço, me livrar de uma vez daquele abacaxi — ou aquela autora que julgou que sozinha faria por si mesma um  trabalho melhor, ou ainda aquele outro de quem tanto gostei, com quem até hoje mantenho um bom relacionamento, e que decidiu me abandonar em favor de uma editora mais importante, criticar, quem poderia? Até eu me abandonaria!

O curioso é que cada um deles, entre eles até mesmo o afortunado contratado pela grande capitalista, estaria bem melhor se estivesse comigo, pois meus livros não só aparecem mais, como contam com a minha insistente dedicação, como tantos títulos antigos passando agora por esta revitalização. Cada livro foi para mim um dileto amigo, uns, é claro, menos amigáveis que outros, mas a todos me entreguei com devoção.

Também eu, e pude ver isso com clareza, aprendi um bocado sobre o meu próprio ofício, que eu nem sabia tão meu até bem pouco tempo atrás, depois de uma vida inteira sem perceber o que realmente me apraz. Na KBR, eu me encontrei, e me esbaldei, e sou grata por isso. E na revitalizada, cada livro foi atualizado, falhas foram percebidas e alteradas, uma revisão “histórica” a que, tenho certeza, poucos profissionais se dão o direito.

De tantos livros publicados, hoje vou mencionar só um, pelo simples motivo de ser o mais recente, o mais jovem da lista, e que por isso chega ao mercado “empacotado” com todo o meu conhecimento recente, da capa ao texto. Bem, o motivo não é só esse, vou ter que confessar, mas antes uma coisinha ou duas: de tudo que publiquei, textos de todos os tipos, acadêmicos, literários, e as indefectíveis memórias pessoais, os que mais me agradaram e que um dia terão seu lugar junto ao raro público leitor são aqueles em que os autores se aprofundaram, nos quais abordaram temas que lhes são caros, nada a ver com “receitas de sucesso batidas no liquidificador” como há tantas por aí. Não deem ouvidos a esse canto de série, seria, ops, canto de sereia.

Voltando ao tal livro, Israel do Brasil, há um outro motivo: o texto, variado e extenso, aborda um período básico e gente muito básica na minha vida, com quem convivi na minha infância e adolescência em Belo Horizonte, e foi um “fechamento” de muitas coisas para mim, verdade, já estou “por default” nesse período de “balanceamento”, deve ser a idade, sei lá. O certo é que tendo sido escrito como um mergulho bem fundo dentro da própria alma, o livro de memórias de Israel Kuperman — que por sinal nada tem de sofisticado ou altamente literário, muito pelo contrário, é nada mais nada menos que uma deliciosa sucessão de “causos” bem contados — me surpreendeu, e cada leitor que por ele se aventurar verá lá retratado não somente um descendente de imigrantes bem-sucedido e maltratado, outro heroico empresário desta selva chamada Brasil, como também um retrato fiel daquilo que resultou neste nosso Brasil mais recente, que ao longo de vários fracassos contundentes acabou forjando sua persona terceiro-mundista, que conceito mais elitista, vamos deplorar.

Esta, claro, é a minha visão. A visão do autor oscila entre bem-humorados comentários no Facebook, onde é mister o bom humor para granjear amigos — “O Brasil é assim mesmo, tropeça e atropela mas nunca acaba”, ou coisa parecida — e sua própria conclusão um pouco amargurada sobre o nosso estilo de administrar, meu não, me contem fora dessa: “Hoje em dia, como falei, ando meio cansado, pois para tudo tem uma interrogação, e os gestores públicos mudam as regras de acordo com as circunstâncias. Isso provoca um transtorno, principalmente no caso de um hotel, um empreendimento que dura cem anos — você não faz para um dia, nem para uma Copa”, pois é, todos sabemos de que circunstâncias o Israel está falando.

Mas não vamos nos apegar a isso, ao nosso infortúnio, ao nosso vício, tão exatamente detectado por Nelson Rodrigues com seu bem sacado “complexo de vira-lata”. Vamos, ao contrário, enfocar as vitórias, as mais prazerosas memórias, a riqueza cultural inerente à “tribo” que Israel generosamente compartilha, nelas incluída sua única e muito exclusiva receita de sucesso: trabalho honesto e capital próprio. Até parece piada num Brasil onde já não existe respeito a nada, uma sociedade desmoralizada, mas é a pura verdade, é esta a receita de negócios e de vida de Seu Israel, que foi engenheiro, foi juiz e hoteleiro e terminou fazendeiro, tudo narrado e para sempre preservado num delicioso sotaque mineiro, trem bão demais da conta, sô. Valeu, Israel.

E um bom domingo procês.

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