Dois invernos e 59 verões

Sous le ciel de Paris

— Qual é seu signo? — Me pergunta  ao telefone aquela amiga, querendo dizer que conforme a resposta comentará que me entende muito bem, mesmo sem me conhecer direito sabe exatamente quem sou, seu ex-marido tendo sido um capricorniano tinhoso como todo capricorniano, sabem como é. Se eu pudesse, mudava, pois nasci a um par de minutos de aquário, foi quase. Mas o registro civil não quis.

Sou tinhosa, tá certo, admito. Também já me vi em priscas eras perfeitamente retratada sob o clichê de um signo como todo mundo, até software na máquina para calcular meu “mapa” e o calendário maia eu tive, horóscopo diário entregue por email, essas coisas, mas isso, meus amigos, era quando eu acreditava não só em um deus “nas alturas”, mas em sua perfeita tradução para outras culturas, como o Grande Espírito indígena — Wakan Tanka —, Jeová e nomes parecidos, epahei. Hoje, parei.

Não acredito em mais nada a não ser no meu próprio esforço hercúleo para manter as coisas sob estrito controle, bem, e em mais duas ou três coisinhas ditadas pelo acaso randômico que alguns nomeiam destino, o que, como diz o outro, não quer dizer que eu tenha deixado de lado a moralidade, os valores humanos, a solidariedade e a busca do que sonha a nossa vã filosofia para dar sentido ao bom e ao mau que nos acontece todo dia, embora aos 60 anos, tendo passado pelos mais variados rituais, sinastrias e revoluções astrais, não faça a menor ideia de que sonho seria esse, mas isso já é assunto para outro livro, aquele primeiro que escrevi, por exemplo, quando ainda nem sonhava em escrever, digo, em viver de escrever — olhem que já estou no oitavo, este, mas who is counting, não é mesmo?

E apesar de eu ter eliminado o quesito fé da minha escola de samba e não tê-lo substituído por nenhuma outra alegoria conhecida, não posso dizer que às vésperas da inevitável matronidade sinta, assim, um vazio interior. Pelo contrário, meu interior  anda tão congestionado que com frequência indesejada me impede de dormir à noite, e nem é consciência culpada, garanto a vocês. Desde que, com a graça de Alan — e uma grande insistência de minha parte, claro, como toda boa capricorniana —, encontrei o meu rumo na vida, estando até o pescoço envolvida no negócio do livro (e sem ter mais que hesitar em qualquer ocasião em que é preciso declarar uma profissão, um alívio), tenho me sentido em paz. Preocupada, hipocondríaca e esgotada, mas em paz, querendo que a paz se estenda às coisas que ainda me entristecem nesta vida mas que deixo nas mãos de… bem. De ninguém. À espera de que o tempo normal das coisas cuide delas também, já que nada posso fazer para abreviá-las e ao sofrimento que causam, vocês sabem do que estou falando, mas dizer eu não digo, nem morta.

Enfim, embora incompleta como seria de se esperar, sinto-me razoavelmente bem comigo mesma, com a óbvia exceção dos meus braços avantajados geneticamente herdados de minha avó Sarah, oy vei iz mir — que venho combatendo com exíguo sucesso durante a vida toda, fazer o quê. Vão-se os anéis, e se houver tempo suficiente, nem os dedos ficam.

Mas o que eu queria lembrar é que em meio a toda a baboseira astrológica com a qual tentamos aparecer bem na fita, e nas redes — a não ser os detestáveis capricornianos, claro, cuja persistência doente, dedicação histérica ao trabalho e outros tantos defeitos sociais são impossíveis de se disfarçar —, uma predição ao menos sempre me impressionou, a expressão mais correta seria “me indignou”: a de que os nascidos sob este signo só vencem na vida já bem mais velhos, digamos, depois dos 60 anos, uma pílula dura de engolir, et voilà, as coisas comigo se passaram exatamente assim, o que já não interessa tanto porque cheguei lá, não é mesmo? E olhando para trás nem custou tanto assim a passar, como vocês podem imaginar. A vida é breve.

Pra me consolar de tanta rudeza, dei-me a mim mesma (ui!) um puta presente de sexagésimo aniversário, é, uma viagem a Paris — neste momento em que vos escrevo ainda viajando ansiosa apenas pelo incrível Google Earth, dá até pra ver o arrepio de frio no rosto dos vizinhos no café da Rue Galande, juro. Chegando lá já serei amiga íntima de todos eles.

Quando eu de fato embarcar nas asas do destino, digo, com destino ao Charles de Gaulle, estarei comemorando entre outras datas o término de mais um livro, este, do qual vocês contra a vontade participaram ao vivo. Tiro férias, mas volto. A crônica continua. E enquanto eu estiver viva, me comprometo, outros livros viverão.

Ficou faltando explicar que negócio é esse aí em cima de dois invernos e 59 verões — 58, pra ser mais exata, já que no 61º estarei em Paris — nada mais nada menos do que a primeira mudança radical de domicílio nacional, que marcou a minha vida e carrego comigo desde então no meu arsenal emocional, elucidando a parte mais aparente do perpétuo incômodo de não pertencer a lugar nenhum, ufa, ou pelo menos é o que imagino, o que consigo imaginar: nasci no inverno, mas comemoro o meu aniversário sempre no verão, conjunção temporal que pelo menos neste sexagésimo evento festivo pretendo corrigir.

Vai ver é por isso que, apesar de eu amar como nenhum outro este nosso bravo país sem zê, um Brasil que segue célere, finalmente, em direção ao primeiro, ops, quinto lugar entre as economias de ponta do planeta — embora a qualidade de vida do nosso povinho, que é o que na verdade conta, ainda deva demorar uns vinte anos para alcançar o mesmo patamar, um marco que cá entre nós nunca esperei testemunhar —, o fator chave para o meu mais recôndito e explícito desenvolvimento tardio foi ter encontrado o Alan na internet há sete anos e me casado com ele, me deixado impregnar, sem resistir, por seu contagioso primeiromundismo. Valeu a pena, tem valido, apesar do alto preço que a gente sempre paga por qualquer coisa que consegue nesta vida, sabem como é.

Alors, à Paris. Prometo contar tudo no próximo livro.

 

***

Aos gentis leitores que me acompanham ao vivo desde o Noga Bloga, quando comecei essa loucura de crônica, devo duas ou três explicações. A primeira é que esta crônica encerra o meu novo livro, Sem essa, aranha, que será lançado em março. O livro foi escrito todinho ao vivo no portal Porque a gente é assim, onde atuei como colunista por quase um ano e meio, sob o olho vivo dos webspectadores. O portal parou, o projeto acabou e a verba também, mas o testemunho é para sempre. O blog da KBR e o meu próprio, de onde vos falo mais intimamente, entraram no meio do caminho.

Outra coisa é que todos sabem que ameaço férias, mas acabo sempre escrevendo uma coisa ou outra. Bem, é o seguinte: estarei de férias por um mês, pelo menos das crônicas “sérias”, boas pra livro, sabem como é, o que não me impede de cometer uma linha ou outra… mas não de Paris, espero… Volto em fevereiro, depois que o carnaval passar.

Até já e um bom domingo!

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *