Donos da bondade

petistasNada que eu já não soubesse, considerando que essa conjuntura de fatos alterou minha vida tão pessoal e profundamente, mas não tinha me dado  conta disso realmente até que li sobre o assunto na coluna de Thomas Friedman no NY Times: “Em 2007, a Apple lançou seu iPhone, dando início à revolução dos aplicativos e smartphones; no final de 2006 o Facebook abriu suas portas para todo mundo, não apenas estudantes, e disparou feito um foguete; o Google lançou o Android, seu sistema operacional, em 2007; (…) e a Amazon lançou o Kindle em 2007”. Como já contei centenas de vezes, a abertura da KBR em 2008 se deveu tanto ao aparecimento do Kindle que a empresa foi inicialmente chamada de KindleBookBr, até que a Amazon nos pediu para mudar. Não custa lembrar que o “K” da KBR continua sendo uma homenagem ao querido Kindle. Já o “BR” nem preciso explicar.

Não é difícil imaginar como essa onda tecnológica deve ter afetado as demais pessoas, principalmente nos Estados Unidos, onde tais “novidades” foram criadas, encorajadas e adotadas num piscar de olhos. Ainda me lembro da discussão por ocasião da primeira eleição de Obama, em 2008, sobre se ele “poderia” ou não continuar usando seu Blackberry como presidente. Dá para imaginar uma discussão desse tipo hoje em dia?

Blackberries já sumiram faz tempo, mas em países de terceiro-mundo a tecnologia ainda é considerada uma inimiga. Como no Brasil (ops, desculpem), onde esta semana um juiz bloqueou o WhatsApp por 72 horas porque a empresa se recusou a fornecer informações às quais nem tinha acesso. Não me espantou nem um pouco descobrir que o tal juiz, vindo de uma cidadezinha nordestina — olha aí a dica para me acusarem de preconceito e discriminação —, não é usuário do WhatsApp e ainda por cima é avesso à tecnologia, pô, peraí, este é na verdade o juiz que liberou o WhatsApp depois de 24 horas de bloqueio… enfim. Fazer o quê.

Não resta dúvida de que, no que diz respeito à comunicação, a revolução tecnológica mudou nossas vidas profundamente. Nos famosos e “revolucionários” anos 1960, se quiséssemos gritar alguns slogans contra o estado de coisas era preciso comparecer ao vivo a qualquer manifestação. Que chatice! Como naquela época não existia nada parecido com “presença virtual”, vou arriscar um palpite sobre o que na verdade caracteriza a “originalidade” da atual campanha eleitoral americana: a furiosa atividade nas redes sociais. Incluindo os controversos “tuítes do Trump”.

Tal fenômeno, obviamente, não se limita aos EUA. No Brasil, por exemplo, as redes sociais estão tendo um papel excepcional na crise política da hora, apesar de o pivô do impeachment ter sido, na verdade, um telefonema grampeado, como nos velhos tempos. Ainda assim, me espanta um bocado perceber como as redes sociais nos permitiram uma visão inusitada, não somente da opinião, mas do fundo da alma, da consciência de cada um. Et voilà, finalmente podemos entender (eu, pelo menos, pude) o desonesto jogo ideológico que nos manipulava há tempos sem que a gente percebesse, e ainda nos manipula.

Hoje, no Brasil, não resta dúvida de que a chamada “esquerda” se metamorfoseou num esquema corrupto que na verdade rouba do povo, com óbvias e prejudiciais consequências para os pobres e necessitados, apesar de a doutrinação do PT querer provar o contrário. Para aliviar o peso de tais graves acusações, só mesmo lançando mão do altamente eficaz humor brasileiro, que é forte o suficiente para desafiar nossa situação deprimente: “Este governo tirou bilhões da pobreza. E os depositou em contas secretas no exterior”. Agora imaginem o meu aperto para traduzir essa piada para o inglês, ai, ai, ai. Trata-se do típico conflito cultural em ação.

Apesar de tudo isso, a esquerda não deve desistir tão fácil. Seus adeptos estão tão convictos de serem os donos da verdade que, a partir de certo ponto, começaram a se descrever como os “donos da bondade”. Ou pelo menos foi o que me disse um amigo, entusiástico partidário de Bernie Sanders, que, em resposta à minha recente (e também deprimente) “saída do armário conservador” definiu a “esquerda” (ou melhor, “os liberais”, como se descrevem nos Estados Unidos) como uma “teoria política baseada na natural bondade humana e na autonomia do indivíduo, favorecendo as liberdades políticas e civis” (grifo meu).

Fico imaginando de onde ele tirou isso, porque, francamente, me recusei a pesquisar no Google. Não aguento mais me confrontar com esse tipo de teorização sem sentido. Vamos combinar: Rousseau (O Contrato Social, 1762) já tinha entendido que não existe essa tal “bondade humana”, descrita pelo autor como um atributo natural “corrompido pela influência perniciosa da sociedade e das instituições humanas”. O que, supostamente, deveria incluir nossas (fracassadas) ideologias.

Um fato curioso é que, enquanto eu escrevia esta crônica em inglês (como é meu novo costume), procurando uma expressão local que caísse tão bem para os meus propósitos como “donos da bondade” (dá pra ver que continuo pensando em português) me deparei com um comercial de comida canina com o slogan “alimentando a bondade”, mostrando que a gente pode, se quiser, dar preferência ao nosso lado bom em determinadas ocasiões. Entre as quais se incluiria, por exemplo, um cachorro sem dono quase sendo atropelado na rua, mas dificilmente um debate político radical. Por sinal, isso não dá aos esquerdistas (ops, “liberais”) — e muito menos aos “direitistas” — o direito de se arvorarem em exclusivos praticantes do bem, mesmo que assim se acreditem. O que, na minha opinião, deveria ser definido como “ilusão”.

De qualquer maneira, agora que Donald Trump se tornou oficialmente o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, vou arriscar um passo à frente e provocar mais uma vez o ódio alheio — em vez de preconceituosa, preconceituosa e meia — declarando o que acredito que está por trás desse tal “movimento”, descrito pelos mais importantes jornais americanos como constituído por uma maioria de homens brancos, trabalhadores braçais sem educação superior e misóginos, isto é, homens que odeiam as mulheres. Trata-se, na minha opinião, de uma “revolução popular”, uma reação à qualidade humana que nos faz avacalhar tudo aquilo que tocamos — me desculpem o pessimismo — nos impulsionando a exagerar na direção do progresso de forma a eliminar os avanços obtidos, sem exceção.

O pêndulo da civilização oscilou, atingiu seu máximo. Estamos todos exaustos desse extremismo em nossos pensamentos (e ações!), um estilo de vida radical que se imiscuiu em nosso dia a dia, quase insuportável hoje em dia. Esse pessoal não dá a mínima para o bem-estar da humanidade em geral, vamos combinar. Só se concentram em seu próprio umbigo, sem se importar com as consequências. E um belo dia isso vai ter que parar, tenho quase certeza de que vocês sabem do que estou falando.

Espero, sinceramente, que esse momento esteja se aproximando, e que possamos finalmente nos despedir para sempre desses donos da verdade, donos da bondade. No Brasil, pelo menos, sei que estamos quase lá. Já vão tarde.

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