Egotrip sem retorno

stateaffairsSinceramente, não estou gostando nada disso, tenho que confessar que estou muito incomodada.

Desde a trágica queda do Airbus da Germanwings [Asas alemãs] nos Alpes Franceses, na última terça-feira, a cada vez que visito um site qualquer ou ligo o noticiário para conferir qualquer coisa, um espinho afiado fica me espetando a consciência.

Vocês provavelmente não sabem, e eu faria melhor em não chamar a atenção para o fato, mas o maldito copiloto Andreas Lubitz é quase meu homônimo, já que sou Lubicz de solteira, um nome raro e quase desconhecido, até… a última terça-feira. Fico só imaginando o que sentem diariamente no Brasil os milhões de Silvas, já que os Rousseff e os Foster devem ser ainda em menor número que os reduzidos Lubicz.

Bons tempos aqueles em que eu alegava um hipotético parentesco com meu tio Ernst, o diretor de cinema do qual me orgulho mesmo sem ter qualquer proximidade a não ser a igualdade fonética do nosso sobrenome — Lubitsch, no caso dele. O que, imaginem, por extensão faria também o pobre tio Ernesto ser ligado post-mortem ao desprezível criminoso alemão. Nome diferente dá nisso, tem seus pros e seus contras.

Não sei nada sobre o desgraçado do Andreas, a não ser que é, era, um piloto alemão de 27 anos, descrito a princípio como perfeitamente capaz e apto ao seu ofício, mas logo em seguida como um desequilibrado, tendo sido afastado de suas funções em 2009 por depressão. Cá entre nós, o sujeito podia ser meu primo, um primo que eu desconhecesse (ou que, se conhecesse, negaria de pés juntos e ocultaria do mundo) mas que, como eu, fosse o resultado atualizado de uma dessas infelicidades de um exílio forçado, pela perseguição ou pela miséria, cujos ancestrais teriam vindo de Lodz ou outra cidadezinha da Polônia que já nem consta do mapa, ou, se consta, mudou de nação e de nacionalidade. E lá iria por água abaixo toda a minha alegada honestidade incorruptível, meu incensado equilíbrio mental, minha adorada racionalidade.

E nesse tempo de caça às bruxas não se pode brincar com nada isso. De verdade. Embora meu patrimônio seja parcamente acumulado, na maior parte provindo de herança, já que escritor como todo mundo sabe corta um dobrado, já andei tomando em público as dores dos denunciados do Swiss Leaks — afinal de contas, ter dinheiro no exterior não constitui crime listado no Código Penal brasileiro nem infração legal, desde que regularmente comunicado à Receita Federal, é o típico caso de joio e trigo misturados, e afetando muita gente boa que não fez nada de errado.

Até andei comparando as vítimas dessa nova modalidade de assédio moral às do macarthismo, de vergonhosa memória, mas Alan vem de lá com sua cultura enciclopédica para me derrubar. Segundo documentário que ele assistiu recentemente, todos os hollywoodianos acusados de comunismo pelo senador justiceiro eram comunistas mesmo, e, imaginem, pretendiam mesmo, em nome de uma espúria fidelidade ao partidão (não custa lembrar que Stálin a todos enganou), derrubar a democracia capitalista dos Estados Unidos e sua criminosa preferência pelo dinheiro, pela livre iniciativa, digo. E provavelmente planejavam fazê-lo, mui espertamente, através dos roteiros de filmes que cativavam a gente.

O que não ficou exatamente esclarecido é se haveria mesmo crime em professar determinada ideologia política, ideologia fracassada, por sinal, um faux pas conceitual que o próprio caminhar social se encarregou de eliminar.

Mas voltando ao copiloto, quem, senão um desequilibrado mental, poderia em (sã?) consciência matar a si mesmo e levar junto consigo outros 150 infelizes numa maldosa queda silenciosa de longos 10 minutos, entre eles várias crianças e alguns bebês de colo?

Quem, em (sã?) consciência, poderia destruir silenciosa e intencionalmente um país gigantesco e incontáveis reputações, só para acumular uns trocados e alimentar uma fantasia de poder? Bem, trocados é bondade minha.

O caso é que no confuso mundo de hoje muitos conceitos andam sendo misturados, não se tem certeza de mais nada. Hoje mesmo, imaginem, enquanto escrevo esta crônica, gente que sabe das coisas vem afirmando que o ataque da Arábia Saudita ao Iêmen, ou em defesa do Iêmen, sei lá, contra rebeldes patrocinados pelo Irã, vem sendo orquestrado pelos Estados Unidos, que noutra mesa ali perto mesmo estão costurando um acordo perigoso com o Irã.

Coisa demais para entender.

Quem vem fazendo a festa e auferindo o maior lucro com todas essas situações agoniantes é, como sempre, a imprensa, que se, por um lado, tem um papel crucial na liberdade de expressão, por outro tem levado essa mesma liberdade a extremos tais que se propõe inadvertidamente a reforçar as ideias de criminosos radicais, como já comentei.

E o que dizer da ficção pós-Hollywood? Não sei se posso usar esse termo, tudo bem, visto que os produtores ainda estão em Los Angeles preferencialmente, mas as séries na internet vêm substituindo o cinema ultimamente. Hoje em dia fica quase impossível entender se a realidade as inspira ou é inspirada por elas.

No fim de semana passado, por exemplo, Alan e eu ficamos grudados na televisão — os autores dessas novas séries são tão competentes que sabem como se impor e nos viciar instantaneamente —, não conseguimos ir dormir até que assistimos os 13 episódios de “State of Affairs”, uma exaustiva maratona de lazer.

O ambiente do seriado é incomodamente próximo à atualidade americana: a presidente dos Estados Unidos é negra e mulher, e a agente de elite da CIA é uma super Katherine Heigl que oscila entre pérolas, um figurino fashion, um coque sofisticado e um cabelo amontoado, jeans sujos e metralhadora em punho, mas nenhum desses estudados truques de merchandising me afeta na verdade.

O que me incomodou e me angustiou profundamente foi o tema central do seriado, onde o serviço secreto é repetidamente frustrado em seus esforços de desbaratar uma rede terrorista islamista (quase-redundância) implantada em solo americano e praticamente invisível, por se ocultar sob a pele de cordeiro de jovens universitários americanos, mais grave, gente normal, como os nossos filhos e netos, firmemente convencida de estar fazendo parte de um grupo idealista e engajado até o pescoço no Weltverbesserung — “melhoramento do mundo”.

Num dos episódios mais pungentes, lá pela metade dos 13, uma doce menina loura com olhar e cabelos de anjo traz uma bomba em sua mochila e, ao dispará-la com um controle remoto superdiscreto e de design avançadíssimo, dá um angelical sorriso e se explode enquanto pronuncia uma palavra de ordem, sua “prece” jihadista. Só de pensar que uma cena similar pode perfeitamente ter ocorrido no cockpit trancado do avião derrubado me provoca um arrepio gelado.

E ainda não é o pior, podem acreditar, porque tudo sempre pode piorar como tem sido provado recentemente. No decorrer das investigações é demonstrado que a tal rede terrorista na verdade não existia. Com todas aquelas vítimas fatais e a aterrorizante impressão de que a segurança não existe mais, tratava-se, simplesmente, de uma “ficção” inventada por uma empresa privada de segurança, que tinha por único objetivo amealhar uns trocados (bem, trocados é bondade minha), para não mencionar sua louca fantasia de manipular o poder dos Estados Unidos.

E um bom domingo procês.

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