Em defesa de Donald Trump (ou não)

trumpforbEste é um artigo sério, posso garantir. Embora seja bem provável que, como se diz em inglês, esteja “um dia atrasado e faltando um dólar” quando for publicado, isto é, poucos dias depois da “importante” primária de Wisconsin (para a mídia local todas as primárias são importantes, devo acrescentar). Além disso, ninguém está nem aí para o que eu escrevo, muito menos gente “que conta” e aqueles que os apoiam.

A crônica foi motivada por um texto irritante publicado na Tablet Magazine, afirmando que existe uma total carência de artigos sérios em favor de Donald Trump, querendo dizer que o candidato é indefensável, impossível de ser levado a sério por gente consciente e competente. Além do mais, como a grande maioria de outros artigos sobre o assunto, o da Tablet trata todo mundo que apoia Trump como farinha do mesmo saco — um saco transbordante de gente reacionária, racista, analfabeta e ignorante, que, aparentemente, é mais comum nos Estados Unidos do que parecia a princípio, e é aqui que eu entro.

No Brasil — que esta semana, graças à profundidade de suas crises ganhou a primeira página do New York Times —, gente como eu, apesar de no momento estar em grande maioria, está sendo desacreditada publicamente pelos chamados “intelectuais” —escritores, artistas e outras celebridades “formadoras de opinião” partidários do PT, “Partido dos Trabalhadores” nos EUA para evitar conotações negativas, como contei na outra crônica. Seu tom de “donos da verdade” tem soado autoritário a ponto de parecer ofensivo. Ignoram outras ideias e as julgam a priori inválidas e desprezíveis, fechando os olhos para o óbvio comportamento criminoso de seus eternos favoritos. Ou eternamente favorecidos. E cerram fileiras orgulhosamente com este governo e sua falaciosa intenção de ajudar os pobres, numa impositiva justiça de propósitos que, ao que parece, justifica qualquer mentira; entre tantos mitos populares, no momento bastante impopulares na verdade, a mais audaciosa de todas as mentiras é essa afirmação sobre terem melhorado as condições de vida dos brasileiros pobres. Pobres brasileiros! Como estarão se saindo esses pobres salvos da miséria pelo PT? Um olhar mais apurado certamente poderá mostrar.

Não resta dúvida de que o lado certo é o lado dos pobres, dos necessitados, contra a “elite”, os ricos e privilegiados. Mas o que acontece quando justamente aqueles que deveriam e tinham poder para ajudar decidiram usar suas ações piedosas como mero disfarce para encher os próprios bolsos, em detrimento de todos os outros? Onde estaria a tradicional justiça da esquerda nesse caso? E o que dizer se, como está acontecendo no Brasil, tais ações de favorecimento tiverem resultado num país arruinado? Como poderiam os pobres estar usufruindo de uma vida melhor num tal lastimável estado de coisas?

Isso nada tem a ver com a situação nos EUA, claro. Mas na verdade tem. Pessoas sérias às quais não é dada uma voz e que não são publicadas no NYT constituem uma ilha de ideias contestadas, rodeada por todos os lados de barulhentas mentiras “adequadas”.

Donald Trump pode até não mentir. Mas acredito que ele mente. Só que, ao contrário de seus adversários, escolheu um caminho mais perigoso, e, no entanto, surpreendentemente bem-sucedido: em vez de nos enganar com mentiras adequadas, ele conquistou muita gente com suas meias-verdades que parecem sinceras, se conectando a um nível mais íntimo e pessoal se comparado à teórica e mais óbvia equidade do comportamento altruísta, sem falhas, mas flagrantemente falso na maior parte das vezes.

Tome-se a questão do aborto, por exemplo, um dos piores faux pas da campanha de Trump até agora, com o potencial de colocá-lo em rota de autodestruição. Parece muito claro para quem têm olhos e ouvidos que Trump é na verdade a favor do aborto, mas devem ter dito para ele que, se quisesse aparecer bem na fita como conservador e angariar seus preciosos votos, desse jeito não iria rolar. E ele então mudou, sem pensar duas vezes: Só preciso dizer que sou contra o aborto. Não preciso acreditar sinceramente nisso! E acabou pego em flagrante, não por um adversário mais esperto, mas por um repórter mais bem preparado para a situação, digo, para a entrevista.

Dá para desculpar alguém que afirma na TV que, “caso o aborto seja ilegal, deve-se punir as mulheres que o praticam?” Não! Mulheres devem ser tratadas como mimados animaizinhos de estimação, protegidas como uma espécie em extinção. Portanto, no hipotético caso de o aborto ser tornado ilegal nos EUA, o que é bastante improvável, uma mulher não deve jamais ser considerada responsável por suas próprias escolhas ou ações, de jeito nenhum. Afinal de contas, fui informada de que a maioria das mulheres americanas é incapaz de controlar suas próprias possibilidades de reprodução, mais incapaz ainda de se proteger de uma gravidez indesejada através dos muitos métodos hoje em dia à sua disposição. Agora, esta sim, seria a resposta correta: todas as mulheres devem aprender a se proteger. Ponto.

Embora boa parte dos projetos sensacionalistas dos candidatos a presidente seja na verdade inviável, e suas ideias impraticáveis, mesmo assim corremos o risco de rejeição ao criticar aqueles cujo “tom” parece mais justo, palatável, como Bernie Sanders, por exemplo. Uma amiga brasileira, dessas que até hoje professa uma filosofia hippie de vida, estava toda animada com Bernie no outro dia: “Esse candidato é o que melhor se encaixa na nova ordem mundial”, ela me falou. Será que ela sabe mesmo do que está falando?

Eu costumava pensar nos EUA como um país onde a legalidade impera, onde a democracia prospera e o Congresso é uma instituição respeitável. Mas que sei eu: as várias “ordens executivas” de Obama, por exemplo, provam que nem sempre é assim. Portanto, o presidente é realmente importante, e isso me deixa com mais dúvidas ainda com relação a Trump, que não me “parece” nada presidenciável, pelo menos ainda não. Eis o que o candidato declarou numa entrevista no domingo passado: “Posso parecer presidenciável se eu quiser. Vou parecer tão presidenciável que vai ser uma chatice só”. É aí é que mora o perigo: essa rara verdade de ocasião prova somente que ele mente a maior parte do tempo, como todos os demais nessa disputada corrida presidencial!

De qualquer maneira, aqueles que enxergam qualquer coisa positiva na candidatura do Donald Trump e que, por outro lado, veem-se a si próprios como gente do bem (gente do mal não dá a menor pelota para a opinião alheia), acabam tão oprimidos pela propaganda adversária que mal se atrevem a falar ou escrever o que realmente pensam.

Achei bastante curioso um outro artigo publicado no New York Times por um veterano de guerra bastante honesto, sincero, bem-intencionado. O sujeito escreveu um longo parágrafo listando inúmeras razões pelas quais muita gente, incluindo ele mesmo e sua família, deveria apoiar Trump com base no que ele diz em seus comícios, contra a guerra e a favor de uma raiva plenamente justificável, por exemplo. “Trump é um tormento constante para a elite do Partido Republicano, que não consegue admitir as próprias falhas”, o veterano escreveu. E concluiu afirmando que “Donald Trump não está preparado para o cargo mais alto do país”. E por que não? Isso o veterano não diz. Talvez alguém tenha dito isso a ele, ou quem sabe ele sabe muito bem o que deve dizer a fim de ser elogiado, aceito, publicado, o que é sem dúvida importante. Mas, honestamente, ignora os verdadeiros motivos por trás dessa opinião.

Antes de finalmente fazer minha escolha e oferecer meu totalmente dispensável apoio a qualquer candidato nas eleições americanas, o que eu gostaria mesmo é de poder contar com um pouco de calma, ouvir alguma verdade, perceber alguma imparcialidade com um leve toque de bom senso. O que é pedir demais, sei muito bem. Nada disso vai rolar, e no final terei de me virar.

No caso de, Deus me livre, as coisas darem errado, se Donald Trump for eleito presidente e acabar sendo esse novo Hitler que tanta gente está dizendo, aceitarei de boa vontade minha parte da responsabilidade. E vou imediatamente me desculpar no Facebook por colocar no papel tão terríveis pensamentos. Prometo!

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *