Enquadramentos

ruin-1211350_1920Era uma tranquila manhã de quarta em Greenville e eu mal podia acreditar nas coisas que meu cérebro estava lendo naquele artigo sobre a “miséria na América” — “uma América crivada de ansiedades”, para ser exata.

— Alan, por que cargas d’água os americanos estão tão revoltados? Acho difícil de entender.

Ele demora um pouco para responder. Está no meio de escrever um email, tentando contemporizar com mais um de nossos promissores empreiteiros, com quem vínhamos trabalhando há mais de um mês em horário quase integral, numa animação só, trocando ideias excitantes sobre o projeto da nossa casa. Que, por sinal, depois de quase dois anos ralando, por alguma razão que me escapa, ainda estamos alterando. No começo fiquei tão empolgada que até pensei que o sujeito era meu amigo, quando, por exemplo, ele nos levou para um passeio de dia inteiro visitando casas que tinha construído já faz um bom tempo — todas lindas, charmosas, do telhado ao banheiro, a típica “arquitetura de revista” que andávamos procurando. Isto é, se tivéssemos dinheiro suficiente.

Faz tempo também que o Alan vem insistindo naquilo que ele chama de “preço correto” para o estilo de casa que estamos planejando — bom design, sem firulas nem frescuras como já devo ter comentado, muito vidro, acabamento bem simples, mas de boa qualidade, enfim, tudo de um jeito Bauhaus de ser, se é que vocês me entendem. Alan repete o tempo todo que as pessoas estão se iludindo, presas a uma noção de custo que vem despencando desde a explosão da “bolha” imobiliária em 2008, ou coisa parecida (peço desculpas por não saber explicar melhor, mas como na época eu não morava nos Estados Unidos, não dá pra saber como tudo realmente se passou).

Daí que, depois desse longo “namoro”, o empreiteiro bonitão — pois é, evitei até aqui revelar esse pequeno detalhe — enfim entregou o tão temido orçamento… praticamente o dobro por metro quadrado do que a gente estava esperando.

Como um “enquadrador” experiente — aqui nos Estados Unidos as construções começam por levantar toda uma estrutura ou moldura de madeira semelhante a um cenário de teatro, e tínhamos decidido fazer assim mesmo, em vez de insistir no concreto e tijolo — o cara tentou nos “enquadrar” direitinho, isto é, pensou que a gente entraria na dele. O caso é que, depois de tanta pesquisa, aprendemos uma coisa ou duas com relação ao negócio da construção, e já não somos tão inocentes quanto no começo: não levamos nem um minuto para perceber que ele na verdade tinha duplicado os orçamentos recebidos de terceiros, et voilà, sobrou pouco para extrapolar e concluir, sem meias palavras, que ele estava tentando nos explorar, para meu profundo desapontamento. Fiquei deprimida por uma semana.

É bem verdade que desde a obra da nossa casa no Brasil a gente tinha se convencido de que todo empreiteiro é um pouco ladrão, me desculpem aí a generalização. Outro generoso profissional que consultamos, imaginem, ofereceu que passássemos para ele a posse do lote e da casa para que ele tomasse um empréstimo em nosso lugar, e assim que tivéssemos crédito poderíamos comprá-la de volta, rsrs. O problema é que eu nunca disse a ele que não tínhamos crédito… Ousado, o rapaz: me lembrou um filme que assisti há algum tempo no qual a protagonista contrata um matador de aluguel para assassiná-la e assim livrá-la e à sua família de uma dívida impagável… o que, felizmente, não é o nosso caso.

Como tenho escrito demais sobre política ultimamente — pior, política americana, um assunto que pouco interessa aos meus leitores brasileiros — algumas amigas andaram me pedindo que eu escrevesse sobre a minha rotina nos Estados Unidos. O que, por sinal, não iria agradá-las nem um pouco, já que desde que me mudei para cá mudei também tão radicalmente de opinião a ponto de estar apoiando a candidatura a presidente de vocês-sabem-quem.

— Trinta e dois por cento dos jovens adultos neste país ainda moram com seus pais — diz o Alan, que está vendo TV no outro canto da sala.

Ele prossegue me explicando que o desemprego na verdade está em torno de 10, 15%, que as estatísticas só contam gente que ainda está procurando emprego, deixando de lado quem já desistiu ou encontrou algum outro jeito temporário de se virar; e lamenta que o atual governo esteja investindo demais em instituições e gastos sociais, em vez de estimular a economia e fazer o país crescer, um estilo de governar mais para o “socialista”.

— E é por isso que tem tanta gente apoiando o Donald Trump.

Tomando os outros por mim, acho meio difícil para os brasileiros entenderem realmente o que se passa nos Estados Unidos. No Brasil só se tem acesso à interpretação meio tendenciosa de alguns jornalistas locais, que, por sua vez, se baseiam numa opinião também tendenciosa de algum colega estrangeiro, muitas vezes através de traduções malfeitas. Telefone sem fio, sabem como é. Estamos sendo “enquadrados” a cada dia que passa, meus amigos.

Em Psicologia, o termo “enquadrar” é definido como o “processo de definir um contexto ou questões em torno de um problema ou acontecimento de maneira a influenciar como esse contexto ou questão é visto e avaliado”. Então, enquanto eu estava me aborrecendo com a questão do “enquadramento” da casa estava ao mesmo tempo me defrontando, no livro que estou editando, com algumas descrições bastante claras de como a “questão de gênero” vem sendo engendrada na nossa sociedade por muito mais tempo do que ousaríamos imaginar.

Confesso que fiquei muito desanimada. Uma crença bastante tendenciosa envolvendo a “injustiça” de uma divisão “super simplificada” da raça humana em homens e mulheres vinha sendo ensinada nas universidades como verdade comprovada, estabelecida há mais de uma geração por livros didáticos aceitos e aprovados. Portanto, não se trata, absolutamente, de uma ideia meio estapafúrdia relacionada ao uso dos banheiros que apareceu nos Estados Unidos na semana passada, como a princípio pode ter parecido, pelo menos para a “massa ignara”, na qual eu mesma me incluo.

Tendo como base a óbvia injustiça de uma sociedade paternalista, que “enquadrou” as mulheres por boa parte da nossa história civilizada, e também o indubitável sucesso do movimento feminista dos anos 1960, a maioria dos acadêmicos está tentando (e conseguindo) impor a todo mundo uma estrutura de pensamento segundo a qual a família tradicional é não apenas preconceituosa, como também prejudicial à sociedade. Seu vocabulário, usando algumas palavras-chave especialmente inventadas e proibindo outras, resulta em pérolas como “a maternidade não é inata, mas construída pela sociedade”. Isto, baseando-se no fato de que “nem todas as mulheres desejam ter filhos”.

Pô, peraí. Que raio de lógica seria essa? Um bom exemplo é essa campanha de “direitos civis” a favor da legalização do “poliamor” no Brasil. Tudo bem. Para mim, trata-se nada mais, nada menos de “poligamia” com um nome repaginado, entenderam?

Como um exemplar típico da minha geração orgulhosamente revolucionária, na qual as mulheres lutaram com tanta dedicação pelo direito de serem iguais aos homens, tudo o que tenho a declarar é o seguinte: tendo optado por não ter filhos e focar minha atenção em outro tipo de assunto, vejo a maternidade, na verdade, como algo que vem sendo “destruído pela sociedade”, e tenho certeza de que em algum momento vamos nos arrepender dessa coisa toda. Para mim, no entanto, será tarde demais.

No meio de toda essa doideira de diversidade que tenta hoje em dia nos confundir e sufocar, torna-se quase inevitável concluir que mulheres e homens, no final das contas, não poderiam ser mais diferentes. E por favor, não se apressem a concluir que tal diferença inclui “todas as possíveis variações entre um extremo e outro”, ok?

Taí. Quer me parecer que temos optado por basear nossos ideais numa tendência atual enganosa e frágil, que fica martelando o tempo todo os seus pontos de vista. Como eu disse, estamos sendo enquadrados, meus amigos. Caiam fora enquanto é tempo.

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