Entre amigas

bergmanBem, eu não deveria cuspir assim no prato em que continuo comendo, eu sei, e não estou falando das benesses deste governo, porque nesse bananal eu nunca me imiscuí, ainda bem. Mas era meu dia livre, saí, tomei um goró no meu bar predileto — um uísque, digo, e escocês, sou da elite e dela não abro mão, nem por isso darei meu voto a Dilma Roussef entre cascatas de lagosta e salmão, sabem como é, levando a boa vida, e os trabalhadores, aqui, ó! (Quem viu Fellini saberá do que estou falando.)

Antes de sair eu estava no banheiro, lendo no NY Times um artigo sobre o mais recente abuso de poder de meu guru derradeiro, juro que depois dele nunca mais bato cabeça pra ninguém — quanto mais sobe a cavalgadura, mais dura a queda do cavalo branco, vocês me entendem. Jeff Bezos, ao que parece, ele sim, anda tentando dar  uma leve cuspidinha no prato em que comeu (devo ser delicada, pois devo muito a ele e não desejo ser ingrata), e na minha sempre devotada opinião não está se saindo nada bem (ou será que vai vencer esta também?). Que mundo.

Não sei se já compartilhei, mas todo o negócio da Amazon nasceu baseado, nos velhos tempos de garagem, não no amor de seu mentor pelos livros, nada disso, mas pela praticidade do registro no ISBN, isso é história, todo mundo sabe. Vai daí que depois de alguns anos de um baita prejuízo para sua base capitalista (assim caminha a americanidade), revolucionou uma indústria que se julgava acima de qualquer contemporaneidade, isso mesmo, a dos livros.

Foi um arraso. E rapidinho o que era um nicho perdido de mercado foi se chegando à tendência, et voilà, em vez de se atirar no desfiladeiro da falência, eis que ressurgiu das cinzas um novo jeito de ler-se um livro: no Kindle e em seus múltiplos aplicativos.

Fosse por mim e tudo estaria resolvido, mas parece que não é por aí, ou por que Bezos estaria pegando tão pesado, obrigando grandes editoras a venderem bem barato seus ebooks para Kindle? É uma coisa que jamais entenderei, pois para mim, por princípio, o livro no Kindle já nasce com vocação de preço baixo, afinal de contas, não tem papel, nem estoque, nem frete, nem nada dessas coisas horríveis que oneram a cadeia produtiva, mas não é o que pensam as grandes editoras, obviamente, nem mesmo os autores que veem seu ofício como um jeito de ganhar a vida, o que também é o meu caso. Estaria por trás de tanta ferocidade a ameaçadora perenidade do livro… impresso? Sei lá. É a única coisa que consigo vislumbrar.

Claro que no Brasil a gente custa mais ainda a entender esse tipo de disputa, afinal de contas, a indústria do livro em nosso país é uma das mais inexpressivas — sendo curta e grossa, ninguém lê nada, e quando o faz, ou é um best seller estrangeiro que já virou filme no resto do mundo no qual as editoras nacionais investiram uma fortuna, ufa, ou então, aquele livrinho xinfrim, cheio de erros crassos que ninguém vê, autopublicado por sua prima ou pela vizinha da esquina. Isso, pra nem mencionar a eterna luta de pequenas editoras para conseguir um pedacinho de céu nas livrarias, sempre entre as nuvens (de poeira). Não sei como é o jogo para as grandes, mas sei que ele existe com certeza, e por isso, negociata no Brasil nunca é surpresa.

Em todos os casos, o livro digital por aqui, vamos combinar, é o último anel da cauda bem longa da cascavel cultural e o primeiro a ser descartado na próxima troca de pele, mas, afinal de contas, nós viemos aqui para ler ou para profetizar?

Voltando às amigas, sobre as quais nem falei nada ainda. Semana passada, imaginem, larguei o Alan em casa jogado em cima do sofá da sala e me aventurei sozinha, o que não é de meu feitio, por plagas nunca dantes exploradas: fui almoçar com uma “companheira” do passado a quem já não via há uns 20 anos — a não ser no Facebook, é claro — em seu restaurante no Vale das Videiras, logo ali do lado, ó, num lindo canto de mundo onde Judas, já se engalanando para a Copa, trocou suas botas por havaianas verde-amarelas, ao contrário do que vem ocorrendo nos altamente violentos e incendiários centros urbanos.

Ando tão desabituada de sair e ver gente ao vivo que, devo confessar, quando fui me arrumar, o batom estava seco, o lápis de sobrancelha trincado e a escova do rímel ressecada, tudo claramente visível no lamentável “selfie” que registrou o evento para os cinco minutos seguintes de posteridade, graças a deus já perdido no emaranhado mural de veleidades. Fato é que,  lá chegando, acabei me enturmando numa mesa de amigas antigas, onde fiquei sabendo, imaginem só, que meu ex-venerado terapeuta tinha trocado seu consultório por um quiosque em São Conrado — adquirido a princípio para guardar sua asa-delta, me contaram, embora em seu perfil no Facebook eu o veja num parapente.

Fiquei no ar. Antes de mergulhar. Minha sorte é que já não me apoio na terapia como antigamente, muito menos aquelas alternativas que a gente praticava num sítio em Petrópolis, como já contei, na época compartilhado, aliás, pelo parapentista e a dona do restaurante, ex-casal de cuja intimidade privei.

Conversa vai, conversa vem, talvez  pela presença inesperada desta que vos escreve (é, eu não tinha sido convidada), o tema na mesa despencou para o assunto livro. Sendo as meninas de elite, sabem como é, estavam todas lendo a mesma autobiografia caríssima de Ingmar Bergman (que em meus tempos de cinéfila eu adorava, um diretor essencialmente autobiográfico, como conta Liv Ullmann em recente documentário),  da qual, pensava eu, nunca tinha ouvido falar. Mas tinha. Chegando em casa fui pesquisar, pois é, imaginem se o Google se deixa levar por essa febre de apagar o passado que surgiu como reação ao nosso presente sempre escancarado, e, bem, aos malfeitos ocultados de certos políticos bem posicionados, se bem ou mal-intencionados, não sei, mas, certamente, à cata do (eterno) poder — nem interessa se os apoio ou não, mas, os apoiando, prefiro a transparência, pequei, sim, mas me reabilitei. Tudo muda, vai que a moda pega.

O novo livro de Bergman, no final das contas, era o velho Lanterna Mágica de 1989 (pensando bem, Bergman morreu há uns sete anos, na hora não atinei), vendido na Amazon por meros US$13, acrescidos, é claro, do maldito frete caro que estamos querendo evitar assim que a Amazon Brasil começar a vender impressos — uma relíquia ultrapassada que insiste em não se deixar eliminar. Não existe em versão Kindle — que, aliás, nenhuma das leitoras à mesa parece apreciar —, ou eu já estaria lendo. Quanto à edição de luxo que elas estavam lendo, trata-se de  lançamento recente da chiquérrima Cosac & Naif em português, com prefácio de Woody Allen, disponível por discretos R$89, R$96 se contarmos o frete para Petrópolis, não me entendam mal, estamos falando de dinheiro, não de literatura — como faria Bezos, que, cá entre nós, não veio a este mundo para ilustrar ninguém.

E já que falávamos de Bergman, o assunto logo descambou para a infância infeliz, a dureza da vida que não raro resulta numa vida transformada em arte, embora raramente em sucesso de vendas. E encerrando o convescote me saí bem mal com os dois clássicos axiomas que, para mim, determinam uma futura carreira literária (não estou sozinha nessa): uma infância difícil e pai ou mãe com, no mínimo, um histórico conflitado, condição que mal pude disfarçar visto que à minha frente sentava-se a antiga amiga e colega de terapia, testemunha de tantas catarses e travesseiros socados quanto prometem minhas mal traçadas mais de três mil páginas publicadas.

Foi bom. E um bom domingo procês.

 

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *